Rodovia dos Imigrantes é retrato de abandono; Dnit promete duplicação
Davi Valle
Motorista e empresário Fábio de Souza Arange
“Aqui a gente passa medo. Não sabemos se vamos sair vivos. A conversa que temos nos rádios dos caminhões é que isso aqui é o corredor da morte por causa dos acidentes”. A afirmação é do motorista e empresário Fábio de Souza Arange, dono de um dos cerca de 16 mil veículos que cortam diariamente os 28 km da MT-407, conhecida como a rodovia dos Imigrantes.
A reportagem do Rdnews percorreu o trecho que liga o Trevo do Lagarto, em Várzea Grande, ao entroncamento das rodovias BR-070, BR-163 e BR-364. O cenário encontrado poderia ser a cena de um filme de faroeste, mas é real. Com apenas duas pistas, os caminhões carregados andam a uma velocidade média de 30 km/h e chegam, praticamente, a parar no meio da estrada devido ao grande número de buracos. O abandono visivelmente encontrado faz oposição à importância da rodovia: é por ela onde grande parte das 40 milhões de toneladas de grãos é escoada.
As promessas de melhorias no local ganharam força em outubro do ano passado, quando o Ministério dos Transportes publicou uma portaria no Diário Oficial da União aprovando a federalização da MT-407. À época, o governador Silval Barbosa (PMDB) garantiu que a transferência para a jurisdição federal resultaria em mais agilidade e segurança para quem trafega pela rodovia. Antes disso, em maio de 2013, a Assembleia havia aprovado a lei 9.911 dando aval à mudança.
Há 25 anos percorrendo estradas Brasil afora, o caminhoneiro Odarci Luiz de Oliveira, conta que passa pela Imigrantes a cada dois dias. Ele afirma já ter demorado quatro horas para atravessar pelo local devido ao congestionamento.
O motorista transporta soja oriunda de fazenda localizada a 100 km de Sinop e cuja destinação final é a ferrovia da sua cidade natal, Rondonópolis. De lá, os grãos seguem para o porto Santos, em São Paulo. “Quando um caminhão quebra, não tem condições de andar. Fica tudo parado. É uma tristeza a gente pensar que muitos dos que passam pela Imigrantes não são daqui. Mato Grosso é mãe de todo mundo”, lamenta Oliveira.
Partilhando o sentimento do colegada de profissão, Fábio Arange explica que, embora as passagens pelo trecho sejam corriqueiras, ninguém está conformado com a situação. “É acidente em cima de acidente. É sempre congestionado. Isso aqui é um relaxo. Não sei nem sei o que posso dizer. Eu fico tão esmorecido, com raiva mesmo. A gente precisa do mínimo. Isso aqui é o mínimo! São só 28 km”, queixa-se o caminhoneiro.
Perspectiva
Agora responsável pela estrada, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT), por meio do superintendente em Mato Grosso, Luiz Antonio Ehret Garcia, informa que o governo não está evitando esforços para reverter o quadro atual. “Estamos atacando em duas frentes. O que ocorrer primeiro, vai ser implementado. O que não podemos é ficar com uma via só. Temos plena consciência do que, infelizmente, as pessoas estão passando com o estado em que a rodovia se apresenta”, afirma.
Luiz Antonio se refere ao pregão finalizado nesta semana, que prevê a contratação de empresa para recuperar a malha viária da MT-407, tapando os buracos, cujos trabalhos devem ser iniciados no prazo estimado de um mês. Esta é uma medida paliativa até que a rodovia seja entregue aos cuidados da iniciativa privada para ser duplicada. Isso porque a rodovia dos Imigrantes é um dos trechos que compõem o lote 850 km, entre a divisa de Mato Grosso com Mato Grosso do Sul até Sinop, concedidos pelo governo Federal à empresa Odebrecht. O contrato foi assinado na semana passada, em Brasília, e prevê o investimento, em 30 anos, de R$ 4,6 bilhões ao longo de todo o trecho.
De acordo com o superintendente do DNIT, há um pedido do Ministério dos Transportes à empresa para que priorize a implementação de melhorias na MT-407 e no trecho de 30 km compreendido entre o terminal ferroviário de Rondonópolis até o município.
Conforme as autoridades, a perspectiva de que os transtornos na rodovia dos Imigrantes tenham um ponto final só é plausível quando o processo de transferência de jurisdição é concluído efetivamente. Para que isso ocorra, um inventário do local é elaborado e um termo de arrolamento de bens é assinado. Segundo Luiz Antonio Garica, isso aconteceu em 13 de fevereiro. A partir de agora, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) passa a ser responsável pelo trecho.