Alguns acontecimentos na última semana deixaram o mundo perplexo, embora completamente distintos: a morte do líder Nelson Mandela e a vergonhosa briga das torcidas do Atlético paranaense e Vasco da Gama pela última rodada do Campeonato Brasileiro, na Arena Joinville. Um caso nada tem a ver com o outro senão o paradoxo de sentimentos que eles provocaram: enquanto a morte de Mandela ganhou repercussão mundial, transformando-o definitivamente em sinônimo de idolatria e orgulho para a África, o futebol brasileiro ganhou expressões de vergonha. Durante toda semana circularam pelas redes sociais os mais tristes comentários a respeito das cenas de barbárie entre as duas torcidas: a batalha sangrenta sem limites e nem piedade.
As cenas são tão fortes que levaram as TVs de todo o mundo exibi-las a partir das 22 horas, mesmo assim, por meio de aviso às famílias, evitando que crianças as vejam. As cenas são, de fato, muito fortes. A brasileira Amanda Nunes Holzer, natural de Montes Claros, Minas Gerais, mora na Alemanha e postou no Facebook que as cenas não lhe saem da cabeça, e que até chorou. Segundo ela, a reportagem feita pelo repórter da TV Alemã foi dramática ao extremo. “O repórter não conteve a emoção e foi às lágrimas”, escreveu Amanda.
Do outro lado do mundo a morte de Nelson Mandela provocou reações completamente opostas: um pesar seguido de dança que caracterizava a alegria do carisma e do legado deixado por ele: lutar contra a segregação racial, pela liberdade e pela democracia, dentre outras.
Os fatos que aqui coloco merecem uma reflexão mais profunda. Por que é que as torcidas dos clubes estão se enfrentando como se fossem verdadeiros bandidos, assassinos inescrupulosos? Não é novidade para nós brasileiros que o futebol é um dos esportes mais contagiantes no que diz respeito ao lazer. Foi através dele que o Brasil tornou-se respeitado e admirado por todo o mundo. Fizemos do futebol a arte da bola, imortalizando craques, como Pelé, Zico, Reinaldo, Gerson e Ademir da Guia.
Voltando à página, a morte de Nelson Mandela, em contrapartida, fez o mundo inteiro ver e se impressionar com uma cena inimaginável: os Estados Unidos de mãos dadas com Cuba. O orgulho americano cedeu espaço para um país que se constrói conforme seus ilimitados limites. Falar de dois assuntos completamente diferentes dentro de um mesmo artigo não é conveniente, porém, quando se tratam de atitudes comportamentais de animais que se dizem racionais, faz-se necessário exigir que o Brasil reveja os seus conceitos e valores, para que, um dia, o amanhã seja também de orgulho para os brasileiros, assim como o povo africano o é.
Gilson Nunes é jornalista e funcionário público e escreve neste Blog todo sábado. E-mail: gnunes01@yahoo.com.br
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