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ARTIGOS Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011, 00:00 - A | A

Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011, 00h:00 - A | A

Artigo

E nós com isso?

Inês Martins    A semana passada foi de esperança e terror, principalmente pela tomada da favela da Rocinha pelo poder público. Esperaram oitenta anos para, enfim, tomarem a atitude correta. Mas, e nós o que temos com isso? Nada e tudo ao mesmo tempo, pois depende da ótica de cada um.

    A favela da Rocinha (segundo a fonte pesquisada) é uma das maiores favelas do Brasil, reconhecida internacionalmente pelas suas carências e seu enorme tamanho. Estima-se que a população atual da Rocinha esteja em torno dos 150 mil habitantes. O número mostra que a favela dobrou em dez anos. A história conta que a Rocinha surgiu após a Segunda Guerra Mundial, com a chegada de agricultores portugueses, franceses e italianos que se estabeleceram em pequenos sítios nas encostas. Por volta de 1930, tornou-se um centro fornecedor de hortaliças que abastecia a zona sul da cidade. No final de 1950, vieram mais imigrantes, desta vez oriundos de outras partes do Brasil, como as regiões agrícolas mineiras e nordestinas.

    Hoje a Rocinha tem redes de fast food, sinal de TV a cabo, de rádio e de internet, lan houses, casas de shows, academias de ginástica, posto de saúde, agência dos correios, agências bancárias, escolas públicas e várias creches comunitárias. Além disso, possuem canal próprio de TV, rádios da comunidade e sites. É apoiada por uma variedade de ONGs e participa de diversos projetos da prefeitura e do governo federal.

    Em 1993, a Rocinha foi transformada em bairro. Aqui entra o que nós temos com isso. Temos a lição de vida, a lição de gestão e que esse exemplo sirva como alerta para as autoridades aqui da nossa Cuiabá. Não podemos deixar que aconteça o mesmo por aqui. Não vamos esperar nem mais um ano sequer para fazer o que deve ser feito para os bairros carentes de Cuiabá. Não temos morros, mas temos inúmeros bairros, com uma população também considerável de cidadãos e eleitores a espera da presença do poder público com tudo que lhe é de direito. Vi esta semana uma reportagem sobre um campinho de futebol, que o bairro usava para lazer e que estava completamente abandonado, cheio de mato.

   Então, está mais do que provado, que onde falta o Estado a revolta, a marginalidade e a violência tomam conta. Precisamos estar atentos. Existe o pré-Copa e o pós-Copa, pois muitos dos que estão vindo para a nossa capital para completar a escassez de mão de obra, aqui deverão permanecer. O Estado precisa ocupar seu lugar de direito e de fato em todos os lugares que se faz necessário, principalmente nos bairros periféricos onde falta tudo, ou quase tudo e de onde surge a maioria dos sem documentos, dos aviõezinhos, dos moradores de rua, dos flanelinhas, dos cuidadores de carros (?), tudo justificado em nome de falta de estrutura familiar, falta de regras, falta de responsabilidades diante da vida, falta de educação, saúde, esporte, cultura e lazer que preencham o tempo desses jovens e os motivem para o caminho do bem e do trabalho digno.

   Então, não temos nada com isso? Se não, que fique pelo menos a lição.

   Inês Martins é produtora cultura, escritora, autora do concurso literário "Casos Lembrados, Casos Contados", direcionado às pessoas com idade acima de 60, poetiza, palestrante da maturidade, vovó blogueira e escreve neste espaço toda quarta-feira (www.vovoantenada.com.br)

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Mauro Ortiz 17/11/2011

A articulista sempre nos brinda com textos que nos levam a reflexão e (porque não dizer) levantam uma certa polêmica.

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Ines martins 16/11/2011

Oi Lauro, obrigada por ler meus artigos e ainda tecer comentários. sei que você é um grande historiador e consequentemente enriquece o nosso conhecimento. Costumo dizer que sou uma eterna aprendiz. Quando falo e escrevo vou mais do lado do sentimneto e assim acabo entrando também no coração das pessoas. Na internet onde pesquisei assim era mencionado e talvez o autor quisesse dizer que depois da segunda guerra é que o local, como voce bem mensionou foi se tranformando em favela. Acredito que não estamos muito longe de acontecer o mesmo por aqui e pelo Brasil afora, mas alimento a esperança e o pensamento positivo de que haverão de despertarem para essa realidade com ações concretas e positivas, que diminua cada vez mais a distância entre os ricos (de fato) e os carentes (também de fato), pois a classe média não está suportando pagar a conta. Continue nos brindando com todo o seu saber e mais uma vez, obrigada.

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Lauro Portela 16/11/2011

D. Inês, desta vez a Sr.ª pisou na bola. Como assim a Rocinha teria surgido após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e já em 1930 (antes da Segunda Guerra Mundial) era grande produtoras de hortaliças? Incoerente. A Rocinha surgiu a partir de uma fazenda Quebra-Cangalha, região com antigos engenhos de açúcar. Com a crise de 1929, a produção agrícola da região se inviabulizou e a fazenda foi particionada e vendida, formando pequenos roçados de hortaliças (rocinhas), vendidas na Praça Santos Dummont. Foram adquiridos por imigrantes portugueses, espanhóis e franceses, após a Segunda Guerra Mundial. A partir da década de 1950 as invasões na região aumentaram. Era construções irregulares que, pela morosidade da justiça em embargá-las, foram se multiplicando. Deu no que deu, uma área que, como mencionou D. Inês, não tem a presença do Estado (ou a tem de maneira precária). Mas a favela da Rocinha é uma entre muitas. Para começar "favela" faz alusão a um dos morros utilizados pelos habitantes de Canudos para vigiar "Belo Monte", cidade fundada por Antônio Conselheiro em 1893. Alguém aí se lembra do livro "Os Sertões" de Euclides da Cunha? Lá está a favela (Cnidoscolus quercifolius) abundante naquele morro que protegeu a população de Canudos contra as forças do Exército Brasileiro em sua maior mobilização desde a Guerra do Paraguai (duas vezes derrotado, vencendo apenas em 1897). De morro em morro, chegou-se ao Rio de Janeiro. Aí eu menciono outro livro (ler é preciso!): "O Cortiço", de Aluísio de Azevedo - Alguém se lembra das aulas de literatura? No Rio de Janeiro das últimas décadas do século XIX e primeira do século XX abundavam os cortiços em sua região central. O principal deles, o "Cabeça de Porco" (ironizado por Aluísio de Azevedo em seu romance como "Cabeça de Gato") era descrito como lugar das promiscuidades, infestações, epidemias, sujeiras, capoeiras (como eram conhecidos os indivíduos mestres na dança/luta trazida e desevolvida pelos escravos), lavadeiras, excluídos. A população rica abandonou a região central e foi para as regiões onde abundavam as chácaras. Mas qual a relação entre cortiço e favela? Em 1904, o Presidente da República Rodrigues Alves, ao lado do Prefeito do Município Neutro (Rio de Janeiro) Pereira Passos, orientado pelo sanitarista Carlos Chagas, demoliu os casarões do centro carioca expulsando aquela população. No lugar, ergueu os boulevard (à francesa) com suas lojinhas e padarias para a elite passear. Mas e os pobres? Foram para as favelas. Foi o Estado que os abandonou considerando-os a rabacuada da população, achando que livrando-se destas pessoas elas desapareceriam como que por encanto. Com a vinda dos nordestinos (outros degredados dentro de nosso país) em busca de melhores condições de vida no centro-sul do país, as favelas incharam. Eis o que temos hoje: a favela quase impossível de ser tomada. Meu medo é que a ação do Estado só seja essa espetaculosa tomada de território, e não a extensão da cidadania. É que o que incomodava não eram as mortes dos pobres lá dentro da favela (pobres morrem todos os dias); incomodava, sim, quando essa pobreza agora armada graças ao financiamento da cocaína (droga de rico que ficou barata na década de 1980) começou a descer para o asfalto. Afinal de contas, a elite só quer cheirar tranquila seu pó de cada dia e curtir a "night" sem ter medo de bala perdida, assalto, sequestro relâmpago.

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Joao Carlos Vicente Ferreira 16/11/2011

Parabens pelo artigo, muito bem elaborado, oportuno e pondo para pensar as pessoas que pensam que sabem tudo e nao sabem absolutamente nada. abs, joao carlos

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4 comentários

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