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ARTIGOS Sexta-feira, 05 de Abril de 2019, 07:30 - A | A

Sexta-feira, 05 de Abril de 2019, 07h:30 - A | A

O "Senadinho" cuyabano

Renato Ramos Calhao

Renato Calhau

Renato Calhao

Era uma vez, uma janela aberta no tempo, tempo, que do pre­sente se pode ver o passado e divisar o futuro de uma sociedade orgulhosa de sua história, tradições e de seu papel marcante no destino futuro deste imenso país. Essa janela em nossa Cuyabá tem o nome de "Senadinho" Cuyabano.

Esta instituição nasceu há 30 anos atrás nos bancos da Far­mácia Tenuta de propriedade do saudoso Oriente Tenuta Filho, Cuyabano que tinha o hábito de abrir seu estabelecimento logo cedinho pela manhã e para lá se dirigiam alguns amigos para a pro­sa matinal, sentados em antigos bancos de madeira escura e duas cadeiras de balanço pelo simples prazer da boa conversa, numa Cuyabá calma e pacata dos bons tempos que não voltam mais.

Com a venda da farmácia, o "Nenê", como era conhecido o Oriente, aposentou-se e mudou para a Cândido Mariano 330, esquina com a rua Barão de Melgaço, que já se chamou "rua do Campo" na lateral da antiga Residência dos Governadores.

“Nesse endereço (Cândido Mariano) que surgiu a denominação Senadinho, dada pelo saudoso João Elias Batista da Costa, conhecido como João Bala, um dos primeiros freqüentadores.”

Apesar da mudança de endereço, o hábito continuou, já com os amigos sentados em cadeiras de balanço de palhinha, e lá pas­savam as frescas manhãs, bons tempos aqueles onde se cultivava o hábito de encontrar os amigos para saber as últimas novidades.

Nesse endereço que surgiu a denominação "Senadinho", dada pelo saudoso João Elias Batista da Costa, conhecido como "João Bala", um dos primeiros freqüentadores.

A hospitalidade, uma das características marcantes da cultura cuyabana, naqueles tempos onde não havia a internet,a TV a cabo ou a mídia on-line, era traduzida por longos "bate-papos"em ca­deiras de balanço, que geralmente se punham às portas das casas para estes tradicionais encontros. Aliás o "sentar na porta"sempre foi um hábito bem cuyabano.

Ouvir a rádio a "Voz d'Oeste, de propriedade do Gercy Jacob, na voz do inesquecível Alves de Oliveira ou, na rádio Difusora Bom Jesus, os programas de culinária da Dona Aurora Chaves de Vasconcelos, irmã do Arcebispo D. Orlando Chaves, ler o "Estado de Mato-Grosso", ou o "Democrata", ir às matinês do Cine Teatro Cuiabá ou às do Cine Bandeirantes, o futebol no Dutrinha nas tardes de domingo ou o jantar dançante no D. Bosco ao som de jacildo e seu conjunto, eram os únicos divertimentos do cuyaba­no naquela época. Então nesse período romântico da história de Cuyabá é que nasce o hoje famoso e respeitável "Senadinho".

Muitos cuyabanos por lá passaram, alguns já se mudaram para a Piedade, mas muitos ainda lá se encontram para provar a longe­vidade e a jovialidade destes senhores que até hoje, trinta anos de­pois, ainda se encontram para relembrar o passado, viver o presente e deixar para as gerações que hão de sucedê-los, seus exemplos.

“De médicos a advogados, odontólogos, farmacêuticos, enge­nheiros, desembargadores, profissionais liberais, funcionários pú­blicos federais e estaduais, professores universitários, ex-governa­dor do Estado, ex -vice-prefeito da Capital, ex-ministro do Tribunal de Contas do Estado, todo esse universo compõe esta inusitada agremiação ”

Graças à inclusão social destes membros da melhor idade, pa­trocinada pelo governador Blairo Maggi, quando os recebeu em palácio, oferecendo-lhes um banquete, ato inédito praticado pelo mais alto dignitário estadual que, com este gesto de reconhecimen­to, valorizou este grupo de cidadãos cuyabanos, homens de bem, profissionais que muito contribuíram com seus exemplos de vida para o engrandecimento de nossa terra. O reconhecimento incon­teste do valor que tem esta instituição na preservação de nossa identidade cultural

De médicos a advogados, odontólogos, farmacêuticos, enge­nheiros, desembargadores, profissionais liberais, funcionários pú­blicos federais e estaduais, professores universitários, ex-governa­dor do Estado, ex -vice-prefeito da Capital, ex-ministro do Tribunal de Contas do Estado, todo esse universo compõe esta inusitada agremiação onde se fala de tudo e que, pela sabedoria da idade, não há diver­gências que não sejam esquecidas nos gostosos almoços onde se comemoram os aniversariantes do mês que, diga-se de passagem, foi idéia do Dr. Senador e Comendador Farid Seror, sábio médi­co, um dos ícones do Senadinho, que sempre acontecem em uma churrascaria, porque os senhores "senadores", além de serem "bons de papo", são ótimos de garfo.

E, no dia seguinte, a partir das 7h3Omin da manhã, já começam a chegar para, além de manter viva a tradição, comentarem sobre o almoço do dia anterior. A começar pelos decanos irmãos.

Os gêmeos Fiori e Leopoldo, autor da famosa frase "Quem pagou, pagou, quem não pagou, tem que pagar", refrão repetido com muita ênfa­se para cobrar o almoço de adesão mensal, para alegria de poucos e tristeza de muitos pela penhorada insistência da repetição, e Fio­ravanti Fortunato, devotíssimos do glorioso S. Benedito, que vêm de suas residências fazendo a caminhada diária, precedidos pelo Senador Comendador Farid Seror, até porque ocupam respectiva­mente os cargos de Corregedor geral da mesa, Secretário. da mesa e Líder do Governo; aliás o Farid tem o cargo de líder por ter sido ele indicado para fazer o discurso de agradecimento ao governador Maggi no histórico banquete.

Logo depois chega o nobre líder da oposição, meu xará, o Se­nador Renato Olavarria, 'filho do "chileno" amigo de meu avô, grande atacadista na região cio porto. Ao Renato cabe este título, pelas suas proposições polêmicas, que sempre estimulam debates acalorados onde ele se diverte muito. Logo a seguir chega também o Edmundo Tenuta, irmão do Oriente, eterno presidente do S e­nadinlio, sempre com roupas claras para espantar o calor, homem calmo e de boa prosa, e logo a seguir o Rômulo Vandoni, enge­nheiro, que teve participação atuante na construção do Estádio José Frageli, o Verdão, e depois o Zizinho, que é o dr. Eldivaldir de Figueiredo, dentista aposentado, de eterno bom humor, fã de um picolezinho no meio da manhã, o José Sardi de Figueiredo, cuya­bano que já correu mundo,de voz mansa e cultura acurada, com sua pontualidade britânica chegando sempre as 10h3Omin, que é irmão do também senador Edgard Sardi de Figueiredo, médico letrado e ex-vice-prefeito da capital.

Depois do reconhecimento velado do Senadinho como Insti­tuição, como na velha Roma dos Césares, temos até um represen­tante credenciado junto à Prefeitura Municipal que é o Senador Benedito Teotino, que chega logo após o Moacyr da Costa e Silva, irmão da saudosa Ana da Costa Pinheiro ,viúva do João Pinheiro, dono do antigo e histórico bar Pinheiro, muito freqüentado pelos Senadores na juventude, sempre com seus cumprimentos marciais; o coronel Addôr que, do alto de seus oitenta anos, esbanja saúde e elegância e, juntamente com todos os outros senhores senadores, compõe esta elite pensante que, além de toda sua vida, tem em comum o profundo amor por Cuyabá; o senador garotão é o Beto, que é Umberto Mendes de Oliveira, "carioca da gema", mas há tanto tempo por aqui que já virou Cuyabano, sempre de bermudas, voltando de sua caminhada matinal, e que, quando está na roda, com certeza, os que estão próximos a ele estarão rindo, pois é um grande bonachão.

E assim vai transcorrendo a manhã, com a chegada dos demais, a roda vai aumentando, chegando ao quorum máximo lá pelas 10 da manhã.

Mais uma curiosidade sobre este nosso senadinho, a sede é na garagem da casa do Tenuta, e as reuniões acontecem na forma de um círculo, que vai aumentando à medida que vão chegando seus componentes. Tudo numa informalidade tão regimental que causa espanto.

O Fernando Fontes, fiscal aposentado, eterno guardião da me­mória registrada em fotos e documentos da instituição, cuiaba não forte, lúcido, apreciador de boleros e também de conhecido bom humor, conversa com o senador Donato de Figueiredo, outro lon­gevo, de lucidez invejável, sempre presente aos trabalhos.

Pois é, como em toda agremiação, o senadinho tem algumas curiosidades: temos Senador Correspondente, como é o caso do Dr. Luiz Alves Corrêa, médico cuyabano tradicional, descendente do Barão de Melgaço, homem de grande cultura humanística e profundo conhecedor da nossa história, que atualmente reside no Rio de Janeiro, mas, sempre que vem a terrinha, freqüenta as ses­sões do Senadinho, bem como o Benedito Dutra Pimenta e o De­sembargador aposentado Dr. José Benedito de Figueiredo, ambos residentes no estado irmão do sul, que não perdem a oportunidade de encontrar os amigos , para matar a saudade, como também a vi­sita dos cuyabanos da gema Agnelo. e Amílcar Maiolino, residentes no Rio de Janeiro, que vêm à terra do pacu no período das festas do nosso glorioso São Benedito.

Temos até um sósia do ex-presidente Getúlio Vargas, que é o senador Francisco Augusto Falcão, conhecido por Dr. Licó, que guarda muita semelhança com o ex-presidente.

O senadinho é único. De tudo se fala, de obituário, futebol, política, questão salarial de pensionistas e aposentados. O leque de assuntos é amplo e tudo sempre regido pelo bom humor e sabedo­ria pelo acúmulo dos anos, que é peculiar à instituição.

“O senadinho é único. De tudo se fala, de obituário, futebol, política, questão salarial de pensionistas e aposentados. ”

Desfrutar da companhia destes jovens senhores cuyabanos, além de prazeroso, é um belo aprendizado para quem os ouve, pois pela variedade de pensamentos e postura de vida, enriquecem qual­quer ouvinte.

Hoje já não existe mais as cadeiras de balanço que foram subs­tituídas por poltronas brancas, mas o espírito continua o mesmo desde sua fundação.

Atualmente a Instituição tem a seguinte composição: A presi­denta de honra, dona Elza Maria Barros Tenuta, viúva do Presi­dente, e mais trinta e quatro senhores "Senadores", sendo os mais recentes membros o Professor Aecim Tocantins, ex-Conselheiro cio Tribunal de Contas do Estado, cuyabano religioso e de postu­ra moral irretocável que, juntamente com o Dr. Frederico Cam­pos, ex-governador do Estado, vieram para enriquecer mais ainda esta plêiade de sábios homens que compõem este orgulho de nossa cuyabania, que é o senadinho.

Este relato em forma de conto é para ficar registrado para as gerações futuras que em Cuyabá existe, em pleno século XXI, esta janela aberta para o passado de nossa história, o presente de nossa realidade e o futuro  vindouro. Repositório de tudo que possuímos de mais precioso que é a nossa cultura, são eles verdadeiramente os “Guardiães das Reminiscências Cuyabanas”.

Renato Ramos Calhao é advogado, cuiabano e herdeiro de casarão no Centro Histórico da Capital. E-mail: ramossmt@uol.com.br

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Leopoldo Filho 27/11/2019

Saudades de ver meu Pai lá sentado e conversando!!!

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Marco Jorge 06/04/2019

Muito boa a reportagem do meu amigo Renato! Parabens!

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Isaura 06/04/2019

Pensei que o Aecim Tocantins já tivesse morrido. Ele ainda faz parte do Senadinho?

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3 comentários

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