A adolescência é marcada por mudanças físicas, emocionais e sociais que podem tornar esse período especialmente sensível para a saúde mental. Entre inseguranças, novas responsabilidades e conflitos próprios da idade, sinais de sofrimento nem sempre são percebidos ou levados a sério pelos adultos. Para a psicóloga Heloísa Borges, especialista no atendimento a adolescentes, a escuta sem julgamentos e o diálogo aberto são fundamentais para identificar situações de risco e oferecer apoio.
"O adolescente está numa fase de mudança na sua estrutura cerebral, então as conexões que acontecem no cérebro dele são os momentos que vão definir a sua vida adulta. Se nós não cuidamos, não olhamos, se os sinais que ele está passando para a gente são encarados só como uma fase, isso pode provocar determinadas situações futuras, até mesmo o próprio suicídio. Quando nós conversamos abertamente sobre [saúde mental], sem medo, uma conversa fundamentada em que o adolescente participa, ele vai saber que está sendo visto", comenta a profissional ao
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Para Heloisa, a banalização dessa etapa da vida, muitas vezes feita por adultos, pode ser muito perigosa. A psicóloga usa como exemplo a aversão que nutre pelo termo "aborrescência", expressão pejorativa usada para caracterizar um momento tão sensível. Segundo a profissional, olhar para a saúde mental desse grupo é perceber, no próprio comportamento, sintomas do que pode não estar bom.
"No nosso comportamento, a gente diz muita coisa. Se eu pudesse dizer algo aos pais, observem o comportamento dos seus filhos. Em vez de criticar ou fazer aquela pergunta áspera do dia a dia, quando você perceber que está acontecendo alguma coisa, procure acolher primeiro. Quando a gente se coloca na escuta de fato, conseguimos ter as respostas que precisamos para nós, como adultos, fazermos um direcionamento que possa ajudar o adolescente", argumenta.
Se eu pudesse dizer algo aos pais, observem o comportamento dos seus filhos. Em vez de criticar ou fazer aquela pergunta áspera do dia a dia, quando você perceber que está acontecendo alguma coisa, procure acolher primeiro
"O adolescente pesa mais a coisa boa"
Ao falar sobre comportamento e as diferenças entre as fases, Heloisa reforça que o grupo mais novo tem a tendência de pesar mais as coisas boas, aos riscos que aquilo pode trazer. A psicóloga ressalta que a maturação demanda tempo e entende que o grupo não é "desafiador" porque quer, mas porque é a forma que ele, naquele momento da vida, sabe lidar com as próprias questões.
"Quando estamos conversando com eles e entendendo que não estão te desafiando, só estão te dizendo que esse jeito é muito melhor, é mais tranquilo e não vai dar nada, e se der, ele dá conta, é muito interessante. Se nós soubermos trabalhar com esse desafio, a oportunidade que o adolescente vai ter, provavelmente, vai ser muito maior do que aquela que tolhe [impede]", explica a profissional.
Heloisa pontua que o papel dos familiares, neste ponto, é fundamental. Para ela, a escuta e a visibilidade podem auxiliar a forma como esse grupo de pessoas entende o mundo e suas próprias relações. "A família precisa querer ouvir e entender, principalmente, que o adolescente tem todo o tempo. Então, quando um pai ou qualquer adulto vai fazer uma intervenção com um adolescente, escute a história. Saiba o que está acontecendo, se coloque no lugar dele e pense: como eu faria? Se fosse na minha época de adolescente, qual seria a minha reação? A melhor forma é a gente se colocar no lugar do adolescente, se aproximar dele", aponta a profissional.
Falar sobre suicídio e saúde mental sem tabus
Com a evolução do diálogo sobre as condições de saúde mental na atualidade, Heloisa aponta que a forma de falar sobre depressão e suicídio vem mudando e ganhando cada vez mais espaço. "Hoje a gente consegue, diante de números, da divulgação da própria mídia, começar uma conversa com dados, mostrando fatos reais. Quando a gente mostra e fala sobre sinais, conseguimos trazer um pouquinho mais para perto de nós", afirma.
A psicóloga pontua o quão importante é externar as dúvidas, problemas, sentimentos e provocações. Em um momento tão sensível da vida, buscar ajuda pode ser a chave para um futuro mais saudável. Aos pais e instituições responsáveis, a psicóloga orienta um caminho de escuta e observação.
"Uma das coisas que eu acredito que tem muito valor é a roda de conversa. Conversa informal, com pequenos grupos, não salas lotadas, em que você possa falar sobre [saúde mental]. Empatia é a primeira coisa, olhar o outro com cuidado. Realmente escutar o outro. Observar mudança nas pessoas que estão próximas a você", finaliza.
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