O atleta iniciou essa semana o treinamento com bola após cinco meses afastado dos campos por uma grave lesão no tornozelo ocasionada por um entorse.
Os entorses de tornozelo são extremamente comuns e estão entre as lesões mais frequentes nos serviços de urgência e nas clínicas de cuidados primários. A maioria das lesões ocorrem durante o desporto e a incidência é mais elevada nas mulheres do que nos homens, e mais elevada nas crianças e adolescentes do que nos adultos.
Entre os fatores de risco destacam-se o tipo de atividade desportiva, sendo futebol e atividades que envolvem salto como basquete e vôlei, as de maior incidência de lesão.
Geralmente o entorse do tornozelo ocorre após um movimento de inversão, ou seja, a planta do pé vira para dentro. Este movimento vai acarretar algum grau de lesão nos ligamentos que estabilizam o tornozelo. E é de acordo com esse grau de lesão e a quantidade de ligamentos machucados que definimos a classificação e o tratamento
“Entorse de grau II é uma lesão mais grave que envolve a ruptura incompleta de um ligamento. Os pacientes têm dor moderada, inchaço, sensibilidade e equimose”
Um entorse de grau I resulta do estiramento um ligamento com fissuras microscópicas. Os pacientes têm um ligeiro inchaço e sensibilidade. Não há instabilidade articular ao exame, e o paciente é capaz de suportar peso e andar com pouca ou sem dor.
Entorse de grau II é uma lesão mais grave que envolve a ruptura incompleta de um ligamento. Os pacientes têm dor moderada, inchaço, sensibilidade e equimose. Há instabilidade articular ligeira a moderada no exame com alguma restrição da amplitude de movimento e perda de função. A deambulação é dolorosa.
O entorse de grau III envolve uma lesão completa de um ligamento. Os pacientes têm dores fortes, inchaço, sensibilidade e equimose. Há instabilidade mecânica ao exame e perda significativa da função e do movimento. Os pacientes são incapazes de suportar peso ou de andar de um lado para o outro.
Os objetivos iniciais do tratamento são limitar a dor e o inchaço e manter a amplitude de movimento antes de aumentar gradualmente o exercício. Repouso, gelo, compressão, elevação do membro são normalmente recomendados para os primeiros dois a três dias nos casos mais leves.
Para quadros mais graves, onde há dificuldade de andar, associado a maior edema (inchaço), dor na parte de dentro do tornozelo, serão necessários exames complementares que vão constatar o grau das lesões e poderão ser necessários tratamentos com antinflamatórios, imobilizações e uso de muletas por algum tempo. E em lesões mais severas, com acometimento de muitas estruturas, pode ser necessário até um procedimento cirúrgico.
A grande novidade nas lesões de tornozelo são os tratamentos guiados por ultrassonografia. Com ajuda da imagem do ultrassom, identificamos a lesão e aplicamos uma medicação especial que ajuda na sua cicatrização. O que antes era utilizado apenas em atletas de elite, já é acessível a qualquer pessoa, havendo inclusive cobertura por alguns planos de saúde.
Após um primeiro episódio de entorse, se não tratado adequadamente, o paciente tem até cinco vezes mais risco de sofrer novas lesões. De acordo com uma revisão sistemática dos trabalhos publicados, há fortes evidências de que a terapia com exercício após um entorse agudo do tornozelo, também reduz o risco de recidiva.
Na maioria dos pacientes com quadros leves ou moderados, a reabilitação funcional deve começar assim que as dores e inchaços iniciais tenham diminuído o suficiente para permitir que o paciente realize exercícios simples. O programa de reabilitação deve levar várias semanas para que o tornozelo se reforce e reduza a possibilidade de nova lesão.
Fellipe Valle é médico ortopedista e traumatologista, com especialização em cirurgia de ombro e cotovelo, cirurgia do joelho, especializando em medicina da dor e ortopedia regenerativa, além de idealizador do programa Descomplicando a Ortopedia. Ele é membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia - MT, da American Academy of Orthopaedic Surgeons e da AO Trauma Latin America. É sócio fundador da associação brasileira de ultrassonografia músculo esquelética, professor de medicina na Univag e da residência de ortopedia Unic-Hgu. Escreve com exclusividade para esta coluna às terças. E-mail: fellipevalle@hotmail.com. Instagram: @dr.fellipe.







