ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 16 de Agosto de 2018, 11h:13 | Atualizado: 16/08/2018, 15h:07

Doula fala sobre protagonismo feminino ao dar à luz e defende parto mais natural

Com participação em 100 partos, Maria Turin aponta falta de segurança de que a mulher vai ser respeitada

Rodinei Crescêncio

Maria Turin

 

O parto humanizado bem como o natural ainda é um tabu no Brasil. Com a violência obstétrica sendo criticada e com Projetos de Lei referente a humanização deste momento tramitando em diferentes municípios do Brasil, é impossível ignorar o tema. Nosso país é vice-campeão em cesáreas e, para responder alguns questionamentos sobre protagonismo na hora do parto, violências e humanização, a reportagem procurou uma doula. Ela é Maria Carolina Turin, no instagram @carol.doula, e, aos 39 anos, já doulou quase 100 partos.  Durante a entrevista ela fala sobre o preconceito com a atividade, empoderamento feminino e materno, e a desinformação que cerca os temas.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Acredita que doulas são descredibilizadas por alguns médicos?

Sim. O primeiro motivo é o desconhecimento da profissão.  Pensam que doulas prestam assistências obstétricas, sendo que as doulas não têm formação para prestarem esse tipo de serviço. Não auscultam batimentos cardíacos fetais, não fazem toque, não medem pressão. Outro motivo é que a doula leva informações para as gestantes, de forma a ela poder questionar alguns procedimentos médicos. Exemplo é não aceitar cesariana eletiva por parte das gestantes. O que faz com que a doula seja inconveniente para alguns médicos.

Em sua opinião, qual a importância do crescimento do número de doulas e a cultura do parto humanizado?

A importância da doula é a garantia do bem estar, respeito e calma na hora da mulher parir seu bebê. Gosto muito de uma citação da Daphne Rattner, professora da área de saúde coletiva da Universidade de Brasília e coordenadora executiva da Rede pela Humanização do Parto e Nascimento, que diz que alguns obstetras com muito tempo de profissão adotam a metáfora de ‘motor, objeto, trajeto’ para as etapas de um parto. O motor é o útero, o objeto é o bebê e o trajeto, o canal vaginal por onde a criança sairá. Mas, na verdade, quem está trabalhando ali, naquela hora, também é humano, não se pode pensar assim. As doulas mudam isso desde o pré-parto até os primeiros momentos da amamentação.

Arquivo Pessoal

Maria Turin

Maria Turin durante um dos 100 partos que participou; a doula diz que as gestantes temem o parto natural pelo medo de não estarem no controle

Qual o papel da doula em na gestação e parto? Qual o limite para preservação do protagonismo da mulher na hora de parir?

Trabalhamos para apoiar a mulher, reduzir as dores com métodos não farmacológicos e empoderamento feminino, além de tentar fazer com que o parto seja menos mecânico e mais natural possível. A Doula é um apoio muito importante na gestação e no parto. Durante a gestação são realizadas encontros onde conversamos sobre o que se espera do parto, medos, anseios, informações sobre a equipe de parto. Apoiamos as mulheres em busca de respostas baseadas em evidências e bem estar da mãe e bebê. No parto, a doula está de mãos e coração para apoiar com palavras de segurança e respeito, sugerir posições para que a mulher fique mais confortável durante as contrações e realizar massagens para alívio da dor.

A importância da doula é a garantia do bem estar, respeito e calma na hora da mulher parir seu bebê

Maria Turin

O que acredita faltar para a mulher ter confiança no parto natural?

As mulheres temem o parto natural pelo medo de não estarem no controle de seu corpo e suas vontades, no seu protagonismo ou nesse processo parturitivo. Medo da dor e do desconhecido as causam temor também. Existe o lado da cesárea, que de fato é extremamente útil quando necessária, salva vidas. Reconhecemos que as indicações e práticas feitas por profissionais de assistência ao parto sejam sempre válidas, uma vez que possuem qualificação para avaliar se há necessidade de intervenções e ou evitar complicações. O que nos falta é a segurança de que a mulher vai ser respeitada, seja lá qual for a via de parto.

Alguns projetos de Lei tramitam no legislativo para humanizar o parto nos hospitais. Acredita que isso é algo positivo e pode, de fato, tratar as mulheres como precisam nos hospitais?

Segundo a Organização Mundial de Saúde, no Brasil, a taxa de cesáreas na rede privada chega a 8,5 para cada 10 partos, quando o recomendado é 1,5. Isso coloca o país como líder mundial no procedimento cirúrgico. Para a OMS isso pode ser considerado uma epidemia. A taxa total no país, considerando-se a rede pública, é menor, mas ainda assim considerada alta. São 5,4 cesáreas para cada 10 partos. As leis que obrigam hospitais a  terem salas adequadas para o parto se referem à presença das doulas neste momento. Isso é mais um passo em relação ao respeito e segurança do parto humanizado. É a garantia aos direitos da mulher. Por isso, prefiro dar o nome de parto livre, aonde o bem-estar da mulher vem em primeiro lugar e com a autonomia de parir, além do apoio da equipe médica para se movimentar, comer e contar com o suporte da profissional da doula que irá prestar o serviço de assistência ao parto. Esse é pra mim o ponto mais importante para que as mulheres sejam as protagonistas do parto.

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