ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 11 de Maio de 2017, 08h:00 | Atualizado: 11/05/2017, 09h:54

Médico defende protagonismo das mulheres no parto e pede respeito

Victor diz que parto humanizado questiona a cesariana desnecessária, feita por capricho, para o bebê nascer no signo de Libra ou por ter um final de semana livre, escolher numerologia

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Victor_rodrigues_parto

 Victor Rodrigues durante um dos partos que fez. Médico não sabe quantas crianças assistiu nascer

Médico obstetra, Victor Rodrigues tem 50 anos e é defensor do parto humanizado. Por suas escolhas, enfrentou alguns percalços no exercício de sua profissão. Ainda assim, defende suas escolhas como profissional de saúde tendo em vista os benefícios à mulher, à criança e ao bem-estar de ambas. Diz que não conta há muito quantos partos já assistiu porque isso não é o mais importante. Leia abaixo a íntegra da entrevista que ele concedeu ao e assista a homenagem feita por mães no ano passado, ao fim desta.

O que é parto humanizado?

Parto humanizado é o parto normal, que toda mulher tem ao longo da história da natureza, porém, com o mínimo de intervenção possível, sem ação do médico ou profissional de saúde em relação ao processo, respeitando assim o corpo da mulher. Biologicamente, as mulheres sabem parir. Só lembrar que, quando não existia médico, elas pariam do mesmo jeito. É assistir o parto respeitando o jeito dela, para parir no tempo dela, no momento dela. Não há piques, não se injeta remédio para aumentar contração, não se rompe a bolsa sem ser de forma natural, não se deixa a paciente em jejum o dia todo e ela não precisa ficar deitada o tempo todo. Vai parir na posição que achar mais confortável, na água, deitada, sentada, de lado, de quatro. Torna a mulher a atriz principal do processo. Assim, ela fica do jeito que for confortável para um processo natural dela. É um trabalho dela somente, não do médico.

Quantos partos assistiu até hoje?

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 Victor ressalta que, no parto humanizado, a mulher é a atriz principal

Não faço mais esse tipo de cálculo, não trato as coisas assim. Estou fazendo, hoje, uma média de 10 a 12 partos por mês; mas já houve vezes em plantões em hospital público que fazia partos durante esse período. Então, não consigo calcular quantos partos as mulheres já fizeram comigo assistindo como médico.

Existe quase uma guerra entre defensores do parto humanizado e da cesárea. Há necessidade disso?

Parto humanizado respeita a fisiologia da mulher. Mulheres tinham 10, 12, 15 filhos parindo assim, mas tem gente que acha que o parto normal é prejudicial para a mulher. Não concordo com isso porque, se fosse, elas não conseguiriam fazer isso. O único verdadeiro problema é o fato de não dar para agendar. Isso, às vezes, faz com que alguns médicos de obstetrícia não gostem de parto normal porque não sabem que dia vão trabalhar, querem ter o feriado livre, o final de semana livre. Entretanto, a cesariana pode e deve ser utilizada com critério, como auxílio de nascimento para salvar a vida da mulher ou do bebê. A cesariana necessária, a que salva vidas, deve sim ser defendida. O que o parto humanizado questiona é a cesariana desnecessária, feita por capricho, para o bebê nascer no signo de Libra ou por ter um final de semana livre, escolher numerologia. É isso que a gente questiona.

Para o senhor, qual a importância da cirurgia cesariana?

Já ajudou muito na história, mas hoje é ao contrário, porque a mulher faz sem necessidade, pode ter uma complicação e morrer. Entretanto, repito, há casos em que ela é necessária e deve sim ser feita.

Parto em hospital ou em casa, o que é melhor?

Teoricamente, o parto domiciliar causa menos interferência. Num parto em que a gestante é de baixo risco, não tem problema, mas à gestante, com algum tipo de risco, pode representar a diferença entre a vida e a morte. Por isso, eu só trabalho com parto hospitalar. Não assisto parto domiciliar. Não discrimino quem faz, mas tem que haver uma equipe competente para identificar previamente qualquer fator de risco para poder levar para o hospital em tempo hábil em um caso de necessidade. Agora, é inegável que a mulher ter o filho em casa é ainda melhor - nas condições de segurança muito bem preestabelecidas - do que no hospital.

Mães relatam que, antigamente, eram vítimas até de xingamentos durante os partos. Essa falta de respeito ficou no passado?

A violência obstétrica deveria ter ficado no passado, mas ouvimos falar de situações em que isso ainda acontece. Uma paciente minha, esses tempos, estava questionando o por quê de ela ouvir isso de um obstetra durante um parto, ainda que dirigido a outra paciente. Decidiu nunca mais voltar no hospital nem na médica dela por causa disso. Violência obstétrica pode vir do enfermeiro, do técnico-enfermeiro, de qualquer outro técnico de saúde.

Falta preparo para os médicos e enfermeiros, especialmente na rede pública?

"Quando vejo mães e crianças passeando no shopping, com saúde, percebo que atingi o objetivo comum que tínhamos, que é sair dali com trabalho bem feito"

Isso não é exclusivo de hospital público, não. Acontece também, e muito, em hospital privado. Falta entender o princípio da humanização, que não se restringe só ao trabalho de parto. Respeitar o paciente num momento em que está em seu trabalho de parto, claro, é ainda mais primordial. Mas não é uma violência exclusiva, infelizmente, de hospital público e não é só em situação de parto. Quantas vezes as pessoas estão sendo operadas e a equipe está falando de futebol, de quem ganhou, de quem perdeu? Isso pode e certamente vai ofender o paciente. Às vezes, entre a vida e a morte, num box de hospital e tem gente lá, contando piadas.

O Brasil respeita o direito de escolha das mulheres?

Acho que nos últimos anos tem havido uma política de enfrentamento da cesariana desnecessária e da ciência ser a mais humanizada possível. Há muito a construir ainda, mas que está modificando, está. Hospitais que tinham índice de cesarianas de 90% hoje estão com 70%, 80%. Também estão com equipes para receber parto normal, se não se pode contratar uma equipe pessoal, individual, os hospitais públicos começam a aceitar e difundir profissionais como as doulas, para dar mais segurança às mulheres, para ter alguém pra protegê-las, vamos dizer assim. Tem mudado muita coisa nos últimos anos, mas ainda, infelizmente, numa velocidade muito lenta. Mas está mudando, igual a (Operação) Lava-Jato faz as pessoas não aceitarem mais como natural os erros dos políticos. Talvez as novas gerações façam tudo melhor e diferente, com médicos mais humanizados, menos frios, vamos dizer assim.

Qual foi o parto mais difícil por você assistido?

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 Victor ressalta que o respeito é fundamental no parto

Quase todos que foram difíceis, nós lembramos. Todas as coisas na vida que trazem algum tipo de estresse trazem também ensinamento. Já tive partos de pessoas que nasceram com dificuldade, já tive que fazer extração fetal. Também houve caso de a paciente querer fazer o parto natural, mas não ter conseguido. Já tive que fazer cesariana, apesar da mãe não querer, porque não havia outro jeito de salvar a vida da mulher e do bebê... eu sempre digo para as minhas pacientes: “seu parto foi muito bom, porque eu não lembro”, porque os partos difíceis são os que fazem a gente lembrar. A Organização Mundial de Saúde preconiza uma taxa de 15%, ou seja, de cada 100 partos, pode-se ter quinze cesarianas. É o que se considera aceitável. Há países que tem 10% ou menos de cesarianas, mas quando se analisar esse número, tem que se analisar as condições de nascimento. Se tiver um índice baixo de partos, mas alto de sequelas, algo está muito errado. Porque muitas vezes não se pode forçar o bebê a sair e porque às vezes não há outro caminho para evitar essas sequelas.

Já perdeu alguma vida?

"Médicos de obstetrícia não gostam de parto normal porque não sabem que dia vão trabalhar, querem ter o feriado livre, final de semana livre"

Já houve caso de bebê morrer em infecção, não foi por causa direta relacionada ao parto, mas nascido prematuro, de parto normal, com má formação e que depois de algum tempo morreu. Tive vários casos assim, mas nenhum relacionado ao parto diretamente. Eram bebês que tinham algum grau de complicação. Teve também um parto cesariana que, depois de seis horas da cirurgia, ela teve um infarto e morreu. Nunca aconteceu um parto de baixo risco e a paciente sair morta, mas às vezes isso acontece e pode acontecer.

Se sente pai/mãe das crianças que nascem pelas suas mãos?

Não. Me sinto médico das mães das crianças, porque pai tem que pagar a conta. E eu cobro pelo trabalho que eu faço. Sou profissional. Faço parto humanizado de forma e por uma escolha técnica, porque acho que é a melhor forma da mulher parir. E sim, me emociona ver a mulher realizada e as crianças crescendo bem. O mesmo acontece se o parto é de risco e eu faço uma cesariana e todos saem bem. Me emociona o resultado. Quando vejo mães e crianças passeando no shopping, com saúde, percebo que atingi o objetivo comum que tínhamos, que é sair dali com um trabalho bem feito.

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Comentários (1)

  • JHOY | Sexta-Feira, 12 de Maio de 2017, 18h19
    0
    0

    Dr. Victor, simplesmente THE BEST.

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