investigação criminal

Quarta-Feira, 13 de Novembro de 2019, 08h:47 | Atualizado: 14/11/2019, 07h:14

O DESFECHO

Líder é degolado e crianças reféns, na saída, ganham ovos de chocolate - vídeo

Arquivo judicial

investigação criminal corpo daniel

O teve acesso a 4 fotos do corpo de Daniel, no laudo pericial, mas elas são impublicáveis, exceto esta da tatuagem tribal que exibia no antebraço

Na madrugada de Domingo da Páscoa de 2001, 15 de abril, o detento conhecido pelo apelido de “Veto” seguiu até a ala B em busca da cela X6 e disse aos dois agentes que estavam de refém. "O bagulho não é com vocês, os líderes da rebelião vão morrer, vocês vão embora hoje”. O relógio marcava 5h. Com a aurora, deu-se o massacre de seis presos no motim conhecido como Páscoa Sangrenta.

Isso aqui está um inferno

Amotinado conhecido como Latrô

Este anúncio ocorreu após uma reunião entre os líderes das alas, em que determinaram o fim do motim. Entretanto, JC estava irredutível, uma vez que tinha planejado dar entrevista ao programa Domingo Legal, do SBT. Queria fortalecer sua fama.

O clima estava pesado intramuros do Carumbé. A água e a energia somente eram ligadas em momentos de negociação. Para poupar e sobrar mais, os presos deixavam de comer e beber para que os familiares não passassem fome ou sede. Alguns parentes chegaram a se sentir mal.

Na manhã de sábado (14) correu a notícia de que reféns seriam liberados em troca de energia e água ligadas por 20 minutos. Saíram 10. À tarde, em fila, foram liberados mais 10. Foi dada a prioridade às pessoas que estavam passam mal. O restante teve que, mais uma vez, esperar.

O clima continuava bem pesado, pois corria ainda a “bocas miúdas” que estava vindo um ônibus para levar 15 detentos  tidos como líderes da rebelião. O grupo iria para outros presídios onde tivesse vaga, sendo as opções Campo Grande, Goiânia ou Rôndonia. Um dos amotinados, o "Latrô", confidenciou à ex-namorada que iria para Campo Grande.

No sábado à noite não tinha mais comida para os familiares, o que deixou os outros detentos enfurecidos. Ainda restavam 156 reféns, pois, em negociações ao longo de quase 65 horas, apenas 20 haviam sido liberados. No total os preso fizeram 176 pessoas reféns, sendo quatro agentes carcerários.

A maioria dos reféns era de crianças e mulheres parentes dos presos. Conforme um depoimento de um refém que esteve na mesma ala do Latrô, algumas mulheres não aceitaram sair por medo dos maridos delas serem mortos.

Após a última tentativa de negociação frustrada por JC que estava incisivo em continuar a rebelião, pois queria dar entrevista, os líderes de cada ala se reuniram com os “organizadores” do motim. Somente os seis queriam manter a revolta, o que não agradou o restante do presídio.

“Depois dessa reunião deu para perceber o clima pesado. Foi um silêncio e cada um foi para um canto”, detalhou um dos reféns. Como nada avançava, Latrô, cansado também da situação, mas se mantendo firme ao lado de JC chorou no colo da ex-namorada e disse: “JC tem uma boa lábia, bateu 171 na minha cabeça. Disse que é para melhoria de todos. Isso aqui está um inferno”.

O ex-diretor” (não vou dizer o nome) me disse: 'Os presos estão rachados entre eles e há grandes possibilidades de acabar a rebelião no domingo. E que precisava que os agentes chegassem cedo, pois teria muito serviço, pois seria um desfecho provavelmente com mortes. Questionei sobre os reféns (os agentes). Ele disse que nada aconteceria

Agente, que anonimamente, falou com a reportagem

À noite, com nada resolvido, os familiares e detentos foram dormir, alheios aos planos dos outros presos. Um reeducando, usando orelhão, comunicou que logo no início da manhã tudo estaria resolvido. Deixando claro que não queriam a intromissão das forças de segurança. Com isso agentes penitenciários foram acionados por volta das 19h do Sábado de Aleluia para chegarem mais cedo ao plantão, às 5 horas da madrugada, pois por volta deste horário os presos resolveriam o problema. “O ex-diretor” (não vou dizer o nome) me disse: 'Os presos estão rachados entre eles e há grandes possibilidades de acabar a rebelião no domingo. E que precisava que os agentes chegassem cedo, pois teria muito serviço, pois seria um desfecho provavelmente com mortes. Questionei sobre os reféns (os agentes). Ele disse que nada aconteceria", narra ao um agente que trabalhou no reconhecimento dos corpos.

O confronto

Já eram 6h da manhã do Domingo de Páscoa quando os gritos de “pega ele, pega ele” começaram a ecoar entre as paredes do Carumbé. Os familiares que estavam do lado de fora há quatro dias escutavam desesperados. Em grupos de 20, os presos liderados por Lindomar e Damata caçaram primeiro o líder JC. De bermuda bege e camiseta xadrez, tentou correr, mas foi cercado. Começou a levar golpes de chuços de vários lados. Teve cortes de três centímetros. No tórax direito, recebeu pelo menos quatro golpes. Três no direito, na dorsal, três no rosto e um na coluna do lado esquerdo. A camiseta xadrez ficou toda perfurada e o short com muitas manchas de sangue.

Ao ouvir os gritos e o barulho de presos correndo, Daniel, o "Manezinho do Glória", também correu para se esconder. Escalou uma parede na ala B em busca de tentar chegar ao forro da cela. Simultaneamente, Latrô acordou e chamou a todos que estavam na mesma cela em que ele, dormindo.

Ao som de gritos - “querem o Tio, querem o Tio” - Latrô, com uma barra de ferro nas mãos disse para a ex e aos parentes de outros detentos que ia ver o que estava acontecendo. Com a saída dele, outro grupo de detentos gritava para que todos os familiares fossem ficar com os evangélicos, uma igreja montada aos fundos do presídio. Encapuzados e armados com pedaços de pedras, pau e chuços, eles foram conduzindo os reféns.

Enquanto isso Latrô, de meias cinza, cueca bege, bermuda de nylon cinza, camiseta regata da mesma cor da roupa íntima e de terço no pescoço foi enfrentar os algozes dele. Pelo menos 20 presos o cercaram, um o imobilizou, tiraram a barra de ferro dele e deram o primeiro golpe no nariz dele. Na sequência, fizeram um buraco no peito do lado esquerdo. Quem viu relata que foi feito um “rombo” de pelo menos 15 centímetros. Latrô nem conseguiu se defender.  O corpo dele foi arrastado para ficar ao lado do líder JC.

Juliano foi à terceira vítima. Goiano como era conhecido, foi arrastado da cela em que estava dormindo. De camiseta de malha colorida e bermuda de cor clara, foi queimado no rosto, no braço direito, na perna esquerda e na coxa direita. Mesmo cercado, tentou lutar e das 54 lesões que sofreu apenas sete foram causadas ao se defender.

Já Charles não conseguiu se defender. O primeiro golpe foi nas costas. Recebeu tantos golpes no rosto que teve “afundamento dos ossos da face". De camisa cinza e short vermelho, teve várias paradas cardíacas até morrer.

Com toda a gritaria e correria, Valdemilson, o Tio, foi arrastado para fora da cela em que estava com a esposa e os três filhos. Porém conseguiu escapar dos presos e correu para dentro da igreja evangélica com o intuito de conseguir se proteger. Enquanto corria a esposa e os três filhos, com idades entre 8, 9 e 10 anos, correram atrás e viram uma das cenas mais desesperadoras do motim. Tio se agarrou ao púlpito para não ser retirado de dentro da igreja. Porém, mesmo pedindo para não ser morto, foi arrastado para fora do ambiente religioso. Nos momentos em que Tio era arrastado a esposa gritava e tentou empurrá-los, mas em vão. Ela e seus filhos o viram sair arrastado pelos cabelos e a porta bater firme. A poucos metros dali, escutou os gritos altos do marido ao ser atingido pelos instrumentos cortantes diminuírem até a morte.

Cerca de 2 minutos depois um agente, que era feito refém, o L.C.A. ao ser informado por alguns presos que a rebelião teria chegado ao fim, presenciou os últimos suspiros de Tio. Como os presos não queriam que o refém assistisse a cena, o trancou também na igreja.

Outro grupo continuava em busca por Daniel, que estava escondido no forro tentando chegar ao telhado. O objetivo dele era conseguir chegar até os polícias e assim ser protegido. Com seus 1.57 m, quase conseguiu o seu objetivo, entretanto, ao fazer barulho, os presos ouviram e conseguiram puxá-lo de cima do muro. Ele recebeu diversos golpes de chuço na barriga e, como ele anda estava se mexendo, os presos pegaram uma tampa de bueiro e jogaram no rosto dele, que morreu de traumatismo craniano.

Enquanto os líderes da rebelião iam caindo um a um, os parentes ficavam desesperados sem saber o que estava acontecendo fora do solo sagrado. Os presos então colocaram um corpo sobre o outro.

Para mostrar a superioridade do líder do PCC, arrancaram-lhe a cabeça e foram até a cela onde estavam dois agentes reféns. Com a cabeça do JC na sacola, se encaminharam até a ala J e exibiram a cabeça, sem sangue, para os dois agentes reféns.

Veja vídeo

 

Na sequencia, os presos gritaram “acabou, acabou”. Os corpos foram amontoados um em cima do outro, inclusive o corpo do JC sem cabeça.  Morreram Jeferson Ricardo de Lucas, o "Latrô", Charles Augusto Mello de Nogueira, o "Tio", Valdemilson Soares Botelho, Daniel Sebastião Lemes, o “Manezinho do Glória”, e Juliano Albuquerque da Silva, o “Goiano”.

José Medeiros

investigação criminal soltura dos reféns

Elizete e os filhos saindo do Carumbé 

A liberação

Um detendo, não identificado, abriu a porta e pediu para que todos saíssem do recinto. Ao saírem da ala os familiares viram os corpos cobertos com um lençol, mas os presos pediram que ninguém olhasse os executados. Instruíram que todos arrumassem suas coisas, enquanto isso o agente L.C.A foi levado ao portão principal, mas não pôde ser entregue, assim como o colega de serviço V, até que o promotor chegasse.

Ao passar pelo corredor, voltando para dentro, viu JC já sem a cabeça. Foi quando Veto disse ter sido ele quem degolou o líder do PCC.

Por cerca de 1h, familiares arrumaram os pertences e, ao saírem, encontraram no pátio os detentos encapuzados e de mãos dadas. A cada familiar dos mortos que passava por eles, diziam: “desculpa Jeferson”, “desculpa Charles”, “desculpa Tio”, “desculpa Daniel”, “desculpa Juliano”, exceto JC. “Eles pediram desculpas a todas as famílias que estavam saindo”, narra uma das reféns.  

Na saída a esposa de Valdenilson, o Tio, Elizete dos Santos estava visivelmente abalada com os três filhos do casal. Afinal,  que testemunharam o assassinato do marido e as crianças do pai. Carregavam ovos de Páscoa de chocolate, distribuidos pela Polícia Militar.

Reprodução

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Neste documento, a prova do pedidos de diligências, que não constam no processo

Processo

O processo foi arquivado sem indiciamento. Ao analisar os documentos, foi constado que a investigação passou por três delegados e dois promotores. Apenas um deles, o promotor Wagner Cezar Fachone, solicitou que fossem realizadas diligências imprescindíveis com os reeducantos Veto, Lindomar e Damata. Entretanto não existe nos autos nenhum depoimento ou oitiva com eles. A esposa de Tio, que viu o assassinato, também não foi arrolada.

O processo, que é pequeno e tem apenas um volume, "passou de mão em mão" e ninguém foi responsabilizada tanto pelo motim quanto pelas mortes.

Veja vídeo

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