investigação criminal

Quarta-Feira, 13 de Novembro de 2019, 08h:50 | Atualizado: 14/11/2019, 07h:09

OS PRIMEIROS DIAS

Rebelião no Carumbé marca entrada da 1ª facção criminosa em MT e deixa 6 mortos

Rodinei Crescêncio

investigação criminal páscoa sangrente

Descrição da perícia no laudo das seis mortes, evidenciando detalhes dos ferimentos encontrados nos presidiários Daniel, Juliano, Jefferson, Charles, JC e Tio

Deitado no colo da ex-namorada, na cela 16 da ala F do antigo Presídio do Carumbé, atual Centro de Ressocialização de Cuiabá (CRC), Jeferson Ricardo de Lucas, o “Latrô”, chorando muito, confessa a ela: “Não aguento mais, isso aqui é um inferno!” A cena, com o garoto de programa, de 24 anos, que, em um assalto matou a vítima, se passou no dia 14 de abril de 2001, horas antes dele ter o peito arrombado por um chuço durante a rebelião conhecida como “Páscoa Sangrenta”, na qual morreram seis detentos, entre eles Latrô.

O massacre marca a entrada da primeira facção criminosa em Mato Grosso, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Em abril, completou 18 anos e até hoje ninguém respondeu pelos crimes.

Para contar esta história violenta, o analisou o processo judicial do caso que foi arquivado, com poucas páginas, e encontrou reféns e testemunhas da rebelião de quatro dias, que teve repercussão no país.

O líder bom de lábia

João Carlos do Nascimento, o “JC”, líder do PCC, veio para Mato Grosso transferido em janeiro daquele ano. Havia liderado outros amotinados no Paraná, com decapitação de agentes penitenciários. Com isso, ganhou fama de especialista em tumultuar o sistema prisional.

Rejeitado por outros estados, o Governo de Mato Grosso foi o único que aceitou abrigá-lo. Na época, o então governador Dante de Oliveira (PSDB) nem imaginava que estava abrindo as portas para o primeiro contato de presos locais com uma facção de poderio nacional. Até então, somente gangues movimentavam a criminalidade aqui.

Ao aceitar JC e também um outro criminoso, o "Bandejão", Dante negociou a transferência de quatro detentos daqui para Penitenciária Central do Paraná, em Piraquara. Entre eles, Marcio Lemos, conhecido atualmente como Marcinho PCC. Esta foi a primeira transferência de presos de Mato Grosso para fora do estado.

Apontado como líder, JC tinha 1.80 m de altura, cabelos pretos, barba feita. Dentes naturais, mas mal cuidados devido à quantidade de tempo em que estava preso. Para marcar presença, exibia duas tatuagens. Uma no antebraço direito e outra na coxa esquerda. Se apresentava como integrante do PCC.

No Carumbé, que na época abrigava 620 homens, sendo a maioria criminosos de alta periculosidade,  JC fez amizade com Latrô, Charles Augusto Mello de Nogueira, Valdemilson Soares Botelho, Daniel Sebastião Lemes, o “Manezinho do Glória”, e Juliano Albuquerque da Silva, o “Goiano”.

Bom de lábia, como diziam os que conviviam com o faccionado, articulou o motim. “Bateu 171 na minha cabeça, falando que (a rebelião) era para melhoria de todos", relata Latrô sobre  a forma como JC o convenceu a entrar "nesta parada". As aspas de Latrô constam nos autos processuais.

Rodinei Crescêncio

Mapa do Corpo

Rodinei Crescêncio

crc centro de ressocialização de cuiabá

Fachada do atual Centro de Ressocialização de Cuiabá, o antigo Carumbé, palco desta história de rivalidade e mortes no sistema prisional de Mato Grosso

A rebelião

Era inicio da tarde do dia 12 de abril de 2001. O horário de visitas estava quase terminando, quando o detento Valdemir Teixeira, o "Tarado da Luz", disfarçadamente, chamou o agente penitenciário M.F.F.. Na Ala 1 do corredor B, estava recebendo a mãe. Ao agente, ele disse que precisava sair da cela, porque corria risco de vida. Ouvindo o apelo, o agente decidiu levá-lo ao parlatório, uma sala em que presos conversam com seus advogados, defensores públicos e, em situações mais específicas, também com visitas.

O agente avisou ao pessoal que fazia a segurança no corredor sobre o pedido de transferência atendido e indagou se tinham notado alguma movimentação estranha.

O servidor de serviço no corredor B disse que não tinha notado nada. Já o do corredor A relatou que estava, sim, notando certa agitação dos detentos. Mas não soube explicar se era entre eles próprios, eles e os agentes ou alguma "treta" com a diretoria. Dito isso, os plantonistas ficaram avisados de que deveriam manter-se atentos a qualquer movimentação.

Enquanto isso, alheios ao que acontecia, Tio, da ala F, era chamado por Juliano, em um corredor à frente para dar início ao “show”. Assim como Latrô, que deixou a ex-namorada na cela da ala D e, levando barras de ferro, foi se encontrar com os colegas. Eles e mais 17 se esconderam nas paredes que dividiam os setores e ficaram esperando os quatro agentes plantonistas.

Rodinei Crescêncio

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Agente A.B.P.N. lembra horas de tensão

Quando A.B.P.N. chegou para recolher dois visitantes da ala J, foi surpreendido por 20 presos, todos armados com chuços. Rendido, ficou preso dentro da ala J, onde estavam pelo menos 20 visitantes, junto com outro colega de trabalho, identificado apenas pela inicial D. Os outros dois plantonistas, também identificados somente pelas iniciais - V e L - ficaram de reféns na ala D, com outro grupo de visitantes.

Quando o agente penitenciário M.F.F., que estava de plantão, porém ficava entre o portão que separava as celas do setor administrativo, percebeu que os colegas de trabalho estavam rendidos, pois um dos presos, identificado apenas como "Caolho", correu segurando um agente, com o objetivo de conseguir tomar também a administração. M.F.F. viu esta cena, porém conseguiu fechar o portão rápido por medida de segurança.

“Ninguém vai sair daqui. O presídio está tomado

Agente penitenciário A.B.P.N., contando sobre o anúncio feito por Latrô

Durante o fechamento do portão, Tarado da Luz e mais sete presos acusados de estupro conseguiram pular e ficar protegidos dentro do parlatório, pois estavam jurados de morte, vez que a família prisional não tolera esse tipo de crime hediondo.  

Às 15h30, Latrô começou a gritar: “Ninguém vai sair daqui. O presídio está tomado”. Os detentos fizeram 176 pessoas reféns, sendo quatro agentes carcerários. Os outros reféns, a maioria crianças e mulheres, eram parentes dos presos.

Cerca de 5 minutos depois um helicóptero da Policia Militar começou a sobrevoar o presídio e foi neste momento que os amotinados mostraram os coletes dos agentes reféns e as facas artesanais.

A Polícia Militar cercou o presídio, pois avaliou que não tinha a menor possibilidade de invadir o local. Se isso acontecesse, haveria risco para os reféns e os servidores. Em seguida, cortou energia e água.

Foi acionada a comissão de negociação encabeçada pelo hoje coronel Moraes, além dos ex- deputados Gilnei Viana (PT) e Carlos Brito, ambos representantes da Comissão de Direitos Humanos na Assembleia.

“A todo momento nos diziam que, se a comissão não atendesse às reivindicações deles, nos matariam. Cortariam a nossa cabeça”, relata ao um agente que foi mantido.

A principal reivindicação era o afastamento do diretor Elpídio Onofre Claro, já falecido. Era tido como "linha dura". Também tinham os interesses em questões de transferências.

Durante os três primeiros dias de motim, nada foi negociado com os detentos. Com isso, aumentou a tensão dentro do Carumbé e as ameaças aos agentes prisionais reféns.

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