investigação criminal

Quarta-Feira, 13 de Novembro de 2019, 08h:50 | Atualizado: 14/11/2019, 07h:10

A NEGOCIAÇÃO

"Quando olhei nos olhos dos presos, vi a cara da morte", relata ex-deputado - áudio

Arquivo Pessoal

Gilney Viana

Gilney Viana, que participou das negociações entre os presos amotinados e o Governo, hoje é aposentado da UFMT

Ex-deputado petista Gilney Viana é memória-viva da "Páscoa Sangrenta", a rebelião no antigo Presídio do Carumbé, em 2001, que marcou a entrada da primeira fação criminosa de poderio nacional em Mato Grosso, o PCC. Na época, Viana presidia a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia e acompanhou as negociações entre os presos amotinados e o Governo. Segundo ele, foram quatro dias tensos. O conflito, dentro da cadeia, conforme consta, era entre integrantes da facção PCC e gangues locais. No desfecho, ele lembra o massacre de seis amotinados como uma das cenas mais tristes que viu na vida.

Nos três primeiros dias, a negociação não avançou. O presídio estava sem luz e água e os ânimos alterados, pois a comida também estava acabando. No final do sábado, 14 de abril de 2001, a comissão de negociação e o ex-deputado entraram no Carumbé, para tentar a última cartada.

“Entramos lá dentro para negociar. Quando a polícia fez essa última tentativa de acordo já sabia do desfecho previsto. Recebia informações (através de dois orelhões) de que estava inviável o entendimento entre um grupo e outro. À medida que o prazo ia acabando, tinha um jogo que era assim: o JC (apontado como líder) queria aparecer no programa nacional”, conta o ex-deputado. Enquanto isso não acontecesse, a tendência era que o motim seria mantido.

Entramos lá dentro para negociar. Quando a polícia fez essa última tentativa de acordo já sabia do desfecho previsto. Recebia informações (através de dois orelhões) de que estava inviável o entendimento entre um grupo e outro

Quando o grupo entrou nas imediações do local de conflito, a tarde de sábado já estava terminando. JC e os outros envolvidos chegaram até o portão. Os intermediadores conversaram com o grupo dizendo que a rebelião era para ser concluída pacificamente e pedia que as famílias fossem liberadas, pois elas não tinham nada a ver com essa briga.

“Me lembro que após a fala do policial, JC foi bem radical e bloqueou qualquer tipo de negociação. O que aconteceria, quando saíssemos dali, seria o massacre", relembra. “Fui aos familiares, que também tinham informações lá de dentro, e disse que as coisas estavam bem críticas e que eles tinham que esperar. Mas que eu achava que seria muito difícil uma negociação. No final da madrugada de domingo (15) aconteceu o que aconteceu”.

Viana relata que, naquela ocasião, um fato novo nas cadeias de Mato Grosso chamava atenção. Eram os elementos que se diziam ou que eram do PCC. Eles tinham sido trazidos para Cuiabá, transferidos de outros estados.

“Isso não era comum no universo carcerário de Mato Grosso. Inclusive, esse fato novo, a meu ver, foi fundamental para os desdobramentos das coisas. Tinha aquela história de que alguns queriam a transferência e outros que não queriam. Isso tudo de acordo com o interesse de cada quadrilha ou grupo que eles tinham lá dentro. E as famílias lá fora, apoiando”, comenta.

Isso não era comum no universo carcerário de Mato Grosso. Inclusive, esse fato novo, a meu ver, foi fundamental para os desdobramentos das coisas. Tinha aquela história de que alguns queriam a transferência e outros que não queriam. Isso tudo de acordo com o interesse de cada quadrilha ou grupo que eles tinham lá dentro. E as famílias lá fora, apoiando

Conforme Viana o caso foi ficando complicado porque na medida em que a polícia cercou o presídio, as famílias ficaram lá fora em grupos. “Foi uma das negociações mais difíceis, pois a polícia estava lidando com um terceiro elemento, a mídia, já que um dos líderes do PCC, o JC, tinha ligação com um programa de TV que noticiava esses eventos”. Ele se refere ao programa Domingo Legal, de abrangência nacional, do SBT.

JC queria aproveitar para potencializar a fama que já tinha conseguido liderando outras rebeliões. “Queria fazer história e jogar na televisão. Dar declarações, coisas desse tipo. O que politizava o fato nacionalmente e chamava atenção popular”.

O que aconteceu é que a polícia e o Governo se sentiram bastante pressionados, com esta eventualidade,e tentavam resolver o problema da transferência de vários presos. Pelo menos 15, entre eles os ligados ao PCC.

Segundo Gilney, havia dois grupos dentro da cadeia. Os liderados por JC, que queriam manter o motim até que todas as reivindicações fossem aceitas, e os que queriam acabar com aquela situação.

Informantes

Tentando controlar o conflito a polícia contava com informações lá de dentro. À medida que se informavam, também conseguiam administrar a pressão sobre o pessoal do PCC e melhorar as propostas de mediação.

“As famílias também obtinham uma certa informação, não sei como mas tinham. Mantinham a expectativa de que o pessoal que não era ligado ao PCC ficaria e os faccionados iam embora e isso resolveriam o problema. Mas, quando olhei nos olhos dos presos do PCC, vi a cara da morte antes dela acontecer”. O final disso tudo não seria pacífico.

Ouça áudio

Biografia

Gilney, que foi uma das expressões do petismo em Cuiabá nas décadas de 80 e 90, hoje mora em Brasília. Aposentou na UFMT, como professor, e hoje ministra algumas aulas na UnB. Ele é epidemiologista, doutor em saúde e ambiente e já foi presidente do Sindicato dos Médicos.

O ex-deputado tem em sua biografia o fato de ter sido preso político e torturado na ditadura militar. Esse trecho de sua história é inclusive tema de livros, de sua autoria.

Respeitado inclusive por adversários, fez parte da equipe de transição no fim do mandato de Fernando Henrique Cardoso, indicado pelo próprio tucano, depois ocupou o cargo de secretário do Ministério de Meio Ambiente e coordenador do Projeto Direito à Memória e à Verdade da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, já no governo Dilma.

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Comentários (4)

  • jair | Quarta-Feira, 13 de Novembro de 2019, 22h03
    0
    0

    jair, Há expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas. Queira, por gentileza, refazer o seu comentário

  • pedro | Quarta-Feira, 13 de Novembro de 2019, 17h16
    12
    10

    nasci na epoca da ditadura e não tive problemas para estudar nem para divertir....agora quem procurou achou....

  • marta | Quarta-Feira, 13 de Novembro de 2019, 17h13
    1
    2

    bilhoes que a turma deixou diluir entre o grupo, morrenram muitas pessoas, se não tiver uma pessoa de pulso firme e honesto, vai tudo por agua abaixo.... entraram diversos e sairam diversos e ninguem fez nada pra melhorar estudiosos, bilingues, não adiantou...

  • Povo de MT | Quarta-Feira, 13 de Novembro de 2019, 15h35
    13
    12

    Mais uma matéria de petista. Vamos variar um pouco para disfarçar. Tá ficando feio. Rosa Neide tem 7 matérias só esse mês. Parece um site para levantar o PT. Depois reclamam do Bolsonaro detonar a imprensa brasileira toda alinhada com essa ideologia destrutiva.

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