Em depoimento ao Tribunal do Júri na tarde desta quarta-feira (15), Alex Roberto de Queiroz Silva, executor confesso do advogado Renato Nery, negou ter sido contratado diretamente para cometer o crime. Ele alegou que o policial militar Heron Teixeira Pena Vieira havia comentado sobre o plano de assassinar o advogado por R$ 200 mil. Sabendo disso, o réu decidiu se antecipar ao militar para executar a vítima e, assim, exigir uma fatia do pagamento. Alex é o primeiro dos envolvidos no caso a sentar no banco dos réus.
Ele é acusado de homicídio qualificado, com aumento de pena pelo fato de o advogado ter mais de 60 anos quando foi morto, fraude processual qualificada, organização criminosa e abuso de autoridade.
O executor, que declarou trabalhar como montador de móveis planejados, afirmou que passava por graves dificuldades financeiras, acumulando dívidas e sofrendo cobranças de agiotas que, inclusive, ameaçavam sua esposa e seu filho. Durante um churrasco com Heron, de quem alegou ser amigo há dez anos, ele ouviu a respeito do plano de assassinato, e o valor prometido ao PM chamou sua atenção.
Alex Roberto confessou ter atirado em Renato Nery na manhã de 5 de julho de 2024, em frente ao escritório da vítima, na Avenida Fernando Corrêa da Costa, em Cuiabá, após pesquisar sobre o advogado na internet. Ele revelou que sua intenção inicial era cometer o crime no dia anterior, mas desistiu por ter ficado "muito abalado", decidindo retornar no dia seguinte após sofrer novas ameaças de credores.
Ele negou conhecer a rotina de Nery, alegando que apenas aguardou pelo advogado e que já estava “quase indo embora” quando o profissional apareceu. “Quando ele desceu do carro, eu disparei”, declarou. O réu disse ainda que não sabia quantas munições havia na arma e que só soube que o advogado tinha sido atingido por sete disparos ao assistir ao noticiário.
Alex Roberto também negou ter usado um colete à prova de balas.
Fuga e ocultação de provas
Após o crime, Alex Roberto fugiu em sua motocicleta rumo ao distrito de Capão Grande, em Várzea Grande, para se abrigar na chácara cedida por Heron, propriedade onde o executor e o filho de 15 anos já residiam havia cerca de um ano. Ele relatou que o imóvel era pintado de azul-escuro e possuía um brasão da Polícia Militar de Mato Grosso, do tamanho de uma mesa, que estava no local para ser restaurado.
O réu admitiu ter queimado as luvas, o capacete e a jaqueta utilizados na execução, ato que embasa a denúncia por fraude processual. No entanto, negou ter escondido a motocicleta das autoridades. “Eu falei para o delegado que a moto estava sendo consertada na oficina, porque tinha fundido o motor”, disse. O veículo foi localizado no município de Barão de Melgaço (120 km de Cuiabá), cidade onde a esposa do réu morava.
Segundo o acusado, a motocicleta havia sido comprada por sua esposa cerca de um ano antes do crime para que ele pudesse trabalhar. O veículo não havia sido regularizado nem emplacado devido à grave situação financeira da família.
Divisão do dinheiro e origem da arma
O réu afirmou que, somente após o assassinato, confessou a autoria do crime a Heron, que teria reagido surpreso: “Você não fez uma besteira dessas!”, teria dito. Logo em seguida, porém, o policial teria prometido que cobraria o pagamento pela execução. Alex Roberto declarou ter recebido cerca de R$ 100 mil pelo serviço, metade do valor originalmente oferecido ao militar.
O acusado negou saber quem encomendou a morte do advogado e alegou ter alugado a arma de fogo, já com as munições, por R$ 1,5 mil para cometer o crime. Segundo ele, o revólver pertencia a um membro de facção criminosa conhecido apenas pelo apelido de “Rampa”. Confrontado com a informação de que o armamento e as munições eram de propriedade das forças de segurança do Estado, ele alegou desconhecer a origem do material.
Alex Roberto completou o depoimento informando que o suspeito conhecido como “Rampa” morreu em uma operação da Polícia Civil em janeiro deste ano. Ele também alegou que não havia feito testes com a arma antes do ataque e que não sabia que a pistola fora modificada para disparar em rajadas. “O Rampa só me disse que ela estava com defeito”, declarou o réu.
Sobre o fato de a pistola ter sido apreendida em um posterior confronto policial — que as investigações provaram ter sido forjado —, Alex negou novamente conhecer a procedência do armamento. Ele garantiu que devolveu a pistola para "Rampa" no domingo, apenas dois dias após a execução do advogado.
Por fim, o réu negou conhecer ou ter agido em conjunto com os demais policiais militares investigados, assegurando que não se vangloriou do crime na presença de nenhum deles.
Relembre o caso
Renato Gomes Nery foi baleado na manhã de 5 de julho de 2024, em frente ao escritório onde trabalhava, na Avenida Fernando Corrêa da Costa, em Cuiabá. Ele chegou a ser socorrido e submetido a cirurgia, mas morreu no dia seguinte em um hospital particular.
Ao longo de um ano de investigação, a Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) concluiu que o assassinato foi motivado por uma disputa envolvendo uma propriedade rural. As apurações apontam que o crime foi planejado com cerca de 90 dias de antecedência e executado mediante pagamento.
Conforme a Polícia Civil e a denúncia do Ministério Público, Alex Roberto foi contratado pelo policial militar Heron Teixeira Pena Vieira para executar o advogado. Posteriormente, as investigações identificaram como intermediários os policiais militares Jackson Pereira Barbosa e Ícaro Nathan Santos Ferreira. Já os empresários César Jorge Sechi e Julinere Goulart Bastos foram apontados como mandantes do homicídio. Todos permanecem presos preventivamente e aguardam julgamento.
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