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NO MARANHÃO

"Sócia" de Lulinha recebeu comissão de R$ 6 milhões ao mediar verbas

Valor diz respeito apenas aos pagamentos recebidos no período de 25 de outubro de 2024 a 10 de janeiro de 2025

André Shalders
Metrópoles

A lobista Roberta Luchsinger, que se apresentava como sócia do filho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, recebeu pelo menos R$ 5,9 milhões em pagamentos após intermediar a liberação de verbas federais para o Estado do Maranhão.

Esse valor diz respeito apenas aos pagamentos recebidos no período de 25 de outubro de 2024 a 10 de janeiro de 2025 — ou seja, em apenas dois meses e meio. Por isso, é possível que o valor total seja ainda maior.

Reprodução

Roberta Luchsinger

Em troca dos pagamentos, Luchsinger ajudou o governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), a destravar verbas para o estado no Ministério da Saúde e na Casa Civil. Uma das obras intermediadas por Luchsinger foi o prolongamento da Avenida Litorânea, em São Luís (MA) — a benfeitoria faz parte do Novo PAC e envolve um investimento total de R$ 235 milhões.

Em fevereiro deste ano, uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) detectou indícios de superfaturamento na primeira fase da obra, que é considerada a principal vitrine do governo de Brandão.

No Ministério da Saúde, as verbas destravadas por Luchsinger somam centenas de milhões de reais. No mesmo período em que intermediava a liberação dos recursos, Luchsinger presenteou o então secretário-executivo da pasta, Swedenberger Barbosa, com itens como um relógio Cartier de R$ 66 mil e um quadro de R$ 82,9 mil.

A lobista conversava sobre a liberação de verbas diretamente com o governador Carlos Brandão — inclusive informando-o sobre a liberação dos recursos.

“Bom dia, governador! Marcola acaba de avisar que foi liberada a obra para a Av. Litorânea”, escreveu ela para Brandão em 5 de junho de 2024. O “Marcola” mencionado por Luchsinger é o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro. Marcola foi demitido no mês passado, depois de a coluna revelar que Roberta Luchsinger pagava contas dele.

Na conversa, Luchsinger diz ainda que “Marcola está mto feliz” e que no “dia 21 o presidente tá aí e vai sobrevoar a avenida com vc (sic)”. Brandão responde: “Opa! Notícia boa”.

No mesmo dia, Luchsinger manda uma mensagem sobre o assunto para Gilberto Lins, então presidente da Empresa Maranhense de Administração Portuária (Emap). Trata-se de uma estatal local responsável pela gestão dos portos do Maranhão.

Em dezembro daquele ano, Lins foi afastado da presidência da empresa por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O Supremo entendeu que a nomeação dele configurava nepotismo, pois ele é casado com uma sobrinha do governador Brandão.

“Bom dia, amigo! Obra da Litorânea foi autorizada!”, afirma ela. “Vc é retada”, responde Lins, com emojis de coração. “Presidente (Lula) é foda mesmo. Rui (Costa, então ministro da Casa Civil) negou e ele botou o pau na mesa. Mandou fazer”, declara Luchsinger. “O governador deve tá feliz da vida”, diz ela.

“Esse Brandão consegue eh coisa tá rsrss”, acrescenta.

“Graças a vc”, destaca Gilberto. “A embaixadora mais competente e eficiente que o Maranhão já teve. Futura senadora.”

Ao mesmo tempo que informava Brandão sobre a liberação de verbas para o estado, Roberta Luchsinger acertava o pagamento das comissões com um homem chamado Pablo Pereira Munhoz. Munhoz se apresenta como assessor de Brandão, inclusive em registros de agendas oficiais com o governador.

Os pagamentos foram recebidos pela pessoa jurídica de Roberta Luchsinger, a RL Consultoria, e pelo pai dela, Roberto Pedro Paulo Luchsinger.

Os pagamentos para Roberta foram feitos por uma pessoa física e duas empresas — uma delas é a EDP Infraestrutura e Pavimentação LTDA, construtora pertencente ao empresário Eduardo José Barros Costa, o “Eduardo DP”.

Em 2025, Eduardo DP foi descrito em relatório da Polícia Federal como parceiro do ex-ministro das Comunicações, o deputado Juscelino Filho (PSDB-MA), no desvio de verbas federais.

De 2023 a 2025, a empresa recebeu pouco mais de R$ 90 milhões do governo do Maranhão. Outra empresa de Eduardo DP, a Construservice, recebeu mais de R$ 1 bilhão do governo maranhense entre 2020 e 2025.

No dia 30 de outubro de 2024, a EDP fez cinco pagamentos para a RL Consultoria, de Roberta Luchsinger. Os pagamentos somam R$ 2,2 milhões. Os comprovantes foram enviados por Pablo às 15h48 daquele dia. “Daí agora a gente alinha para organizar tudo certinho”, responde ela a Pablo. “Veja qdo vc pode, para ajustarmos.”

Em seguida, Pablo passa a mandar para Luchsinger fotos de comprovantes de depósitos em espécie para a RL Consultoria. O primeiro é de R$ 650 mil. A operação bancária foi às 15h37, mas ele só manda a foto para Luchsinger às 18h41.

No dia seguinte, Pablo manda mais três comprovantes, agora para o pai de Roberta. São dois depósitos de R$ 200 mil e um de R$ 150 mil.

A lobista agradece, mas, no dia seguinte, envia um áudio para Pablo: “Bom dia, tudo bem? Olha, só pra te avisar que não caiu, tá?”, diz ela. “Nossa, mas foi em espécie”, responde ele. Na verdade, Roberta Luchsinger se confundiu. Ela constata que o pagamento foi recebido na conta de pessoa física de seu pai e agradece a Pablo.

Outros pagamentos foram feitos pela construtora de Eduardo DP para a conta da empresa de Luchsinger, com valores acima de R$ 400 mil.

Pablo Munhoz também demandava diretamente de Luchsinger a liberação de verbas do Sistema Único de Saúde (SUS) para o Maranhão.

No dia 7 de novembro de 2024, ele manda para a lobista três documentos sobre um repasse de R$ 115,3 milhões para procedimentos de média e alta complexidade (MAC) no estado. “Boa tarde, minha amiga. Segue a prioridade na Saúde”, diz ele.

No mesmo dia, Roberta encaminha as mensagens de Pablo para Marcola, inclusive os três documentos. “Ontem ficou faltando esse RSS”, diz ela, em seguida, para Marcola. “Maranhão rsrs”, acrescenta.

Nas conversas com Swedenberger Barbosa, Roberta Luchsinger encaminhava, com frequência, ofícios como os do governo do Maranhão, pedindo a liberação de verbas.

Em algumas ocasiões, o então secretário-executivo do Ministério da Saúde responde à lobista. No dia 20 de setembro de 2024, por exemplo, ele encaminha para Luchsinger uma portaria com a liberação de verbas para o Estado do Tocantins.

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