Artistas de Cuiabá rejeitam escolha de secretário da Cultura de Emanuel
A escolha do novo secretário de Cultura de Cuiabá, Renato Anselmo (PRP), não foi bem recebida pela classe artística da Capital. O anúncio do nome dele por agentes culturais, operadores da cultura e especialmente os artistas, foi vista e classificada como “lamentável”, “temeroso”, “politicagem” e “retrocesso”.
Diversas manifestações foram percebidas em mídias sociais e em entrevistas ao #rdnews, a maioria sob garantia de anonimato, mas pelo menos duas com um sonoro “autorizo sim a colocar meu nome”.
Reprodução
Secretário de Cultura de Cuiabá, Renato Anselmo, prefere não se manifestar sobre suposta "rejeição"
Nos principais reclames é possível perceber o receio sobre como o suplente de vereador – conseguiu a vaga nas eleições do ano passado – vai fazer para direcionar os milhões em recursos previstos para este ano (o valor não foi divulgado) para fomento e manutenção da política cultural nas diversas áreas de propagação de arte e cultura, como literatura, áudiovisual, artes plásticas e patrimônio imaterial. Muitos também lamentaram a saída de um “representante da classe”, o cantor sertanejo Beto Dois a Um (Alberto Machado, seu nome civil), para entrada de um homem de 28 anos que “ninguém conhece” ou tem “serviço prestado à cultura”.
A roteirista, diretora de audiovisual e ativista da cultura local Glória Albués disse que não havia como avaliá-lo. "Porque simplesmente não sei mesmo quem é. Pode escrever isso sim. Eu não tenho como avaliar o atual secretário municipal de Cultura porque simplesmente nunca ouvi falar dele, não sei de onde veio nem por que foi escolhido”.
O mesmo foi dito por um ator, dramaturgo e diretor de teatro que prefere não ser nomeado. “Não conheço, não sei quem ele é, não tenho como falar nada”, disse, mas fazendo a ressalva de que espera “que ele consiga fazer uma boa gestão, procurando cercar-se de um bom corpo técnico, que possa orientá-lo adequadamente. E que seja assessorado por pessoas do metiê”.
Nesta linha, um gestor cultural argumenta sobre as dificuldades inerentes a quem não é da área na hora de entender nuances de projetos específicos para o setor. Para ele, mesmo alguém acostumado à formatação de projetos em outras áreas, “apanha feio” quando se trata de planos culturais. Lembra até que as dificuldades são tantas que o governo estadual e a própria prefeitura costumam fazer workshops, paineis e a manter start-ups específicas para ensinar artistas e outros gestores a como melhor lidar com os projetos. “Há especificidades técnicas difíceis de explicar até mesmo aos artistas”, disse.
Assim como outros artistas, o ator André D’Lucca afirma que nunca ouviu falar de Renato Anselmo
O ator, diretor e dramaturgo André D’Lucca também não vê com bons olhos a escolha, deixando claro que não há nada pessoal envolvido, pois ele simplesmente não sabe de quem se trata quando ouve o nome Renato Anselmo. “Eu não tenho a menor ideia de quem seja esse rapaz. Não sei de nada que ele tenha feito em prol da cultura neste município ou neste Estado e ninguém entre os artistas que eu conheço jamais ouviu falar dele. Foi uma escolha política e não baseada em melhorias pra nossa cultura”, disse, por telefone.
Para ele, o prefeito Emanuel Pinheiro (PMDB) não pensou na experiência do suplente para a área nem no diálogo com a classe artística ou mesmo se este entenderia de gestão cultural. “Dá a impressão de que caiu de para-quedas no cenário cultural. E estamos cansados de ver essa cadeira da secretaria de Cultura ser usada pra politicagem. O último secretário que tivemos na área era artista, havia diálogo com a classe, havia interesse em ajudar e ele sabia falar a mesma linguagem que a gente”.
Sempre nas palavras e argumentos de André, atualmente a Cultura está sob comando de alguém totalmente alheio ao meio, o que denotaria uma escolha “simplesmente por negociação política. E isso é horrível. Emanuel começa a gestão dele na área cultural dando um tiro no próprio pé, colocando uma pessoa que não tem nada a ver com nossa área”, dispara o ator.
André procura ressaltar a impessoalidade dos argumentos. “Não estou falando que ele vá fazer um trabalho ruim, porém, ele não tem experiência no segmento, pelo menos não que eu saiba. Aliás, gostaria de ver o currículo dele e qual o argumento pra essa escolha, porque pra todo mundo da categoria com quem eu conversei considerou que foi uma escolha totalmente descabida”.
Um dos primeiros a criticar a escolha do novo secretário foi o advogado e escritor Eduardo Mahon. Ele relatou a escolha em sua página no Facebook com ironia, dizendo que a cultura iria ser gerida na gestão de Emanuel Pinheiro por "um ex-motorista da secretaria de Saúde" que passou num "concurso de auxiliar (....) e virou secretário de Cultura de uma cidade de 300 anos. Realmente, o staff [de Emanuel Pinheiro] é político mesmo", escreveu Mahon.
Outro lado
O #rdnews procurou o secretário Renato Anselmo para falar sobre o assunto, contudo, o mesmo mandou avisar, por meio da assessoria, que “não está dando entrevistas no momento”. A reportagem tentou os contatos por telefone e mídia social, mas a resposta se repetiu: “o secretário não está disponível para falar”.
No currículo divulgado pela mesma comunicação da prefeitura, Anselmo é apresentado como graduado em Turismo e Administração de Empresas e graduando em Direito.