Pixé retoma rotina revisteira na literatura e evidencia bom momento das artes
Imagem divulgação
Edições da revista revelam estilos diversos de escritores e artistas, ela alcança público do Brasil e tem surpreendido
Sem a pretensão de ser regionalista, mesmo com o nome de um doce cuiabano. Quem sabe isso seja mais provocativo do que uma marca ou propaganda local, quando atinge outros territórios. Na ausência da paranóia, que dispensa a ajuda de um mapa para delimitar um espaço de começo, meio e fim de suas ideias - a Revista Pixé retoma a rotina revisteira na literatura e evidencia um bom momento nas artes, não apenas com artistas de Mato Grosso, mas do Brasil e mundo. “Vai aparecer nas nossas linhas ou entrelinhas, não é o aspecto que considero mais relevante. A revista Pixé é feita aqui, organizada aqui e produzida aqui, mas ela não é uma revista mato-grossense”, defende o escritor Eduardo Mahon, idealizador do projeto.
Para Mahon, Mato Grosso vive um ótimo momento nas artes, inclusive, com inúmeros escritores e críticos. Boa parte deles já foram exaltados na revista, que já lançou oito edições. Pelo que tudo indica, as publicações vão de vento em popa - estão previstas mais dez.
Arquivo pessoal
Escritores e artistas comemoram edições e lançamentos da Revista Pixé
O que costura os literatos de MT são as revistas
Ao explicar como surgiu a ideia de criar a Pixé, Eduardo conta que, em um momento de reflexão de seus estudos de pós-graduação, notou que o ponto comum que “costura” os escritores de Mato Grosso são as revistas.
No decorrer da história, são inúmeras as publicações que documentam obras relevantes. O escritor frisa as que partem desde os anos 80 - recorte que Mahon se aprofunda.
“A revista Pixé é feita aqui, organizada aqui e produzida aqui, mas ela não é uma revista mato-grossense”
Eduardo MahonEntre elas, menciona uma linha do tempo que parte desde a Sarã, uma revista vanguardista criada no começo dos anos 50 por Rubens de Mendonça e Wlademir Dias Pino e segue até as mais recentes, nos anos 90, como a Revista Vôte ou também a famosa Borboletras. Todas elas seguiram, na verdade, como coletivos de autores.
Portal entre o digital e o impresso
Muito se discute sobre a possível disputa entre os meios digitais e o impresso, mas isso não perturba quem contribui com a Pixé. Para Mahon, a revista consegue passear entre os dois meios, mas alcança um público grande nas redes sociais – e, com isso, atinge níveis cada vez maiores de leitores. “Estamos vivendo um momento onde nossa principal plataforma de comunicação não é mais o meio impresso. A gente tem o site, mas ele não é o principal atrativo. O fizemos para linkar com a rede social”, descreve.
Arquivo pessoal
Edições da revista revelam os estilos diversos de escritores e artistas
O escritor acredita que a comunicação se dá de uma forma muito rápida nas redes sociais e, por isso, o material precisa ser atrativo. “Foi daí que veio a ideia de somar as artes plásticas, de uma maneira geral, com o texto literário”, revela.
Período fértil de artistas e escritores
Além de reavivar a alma das revistas literárias, o momento é oportuno porque as editoras acessibilizam os trabalhos e o público escritor, assim como os leitores estão ligados às universidades públicas do Estado (Unemat e UFMT).
Para o idealizador, as dezenas de campus espalhados por Mato Grosso também possibilitam que escritores de um canto ou de outro rodem mais do que fariam com suas publicações isoladas, sem ser de forma conjunta, que é o que a Pixé propõe.
Arquivo pessoal
Eduardo Mahon é escritor e imortal da Academia Mato-Grossense de Letras - conta impressões que teve na pesquisa
O escritor e advogado endossa ainda críticas aos governos, sejam eles federais, estaduais ou municipais – quando se trata de incentivo à literatura. “Não podemos esperar nada. O máximo que eles querem não é formar leitores, mas eleitores. Não é uma grande surpresa a falta de incentivo até o atual instante”, desabafa.
Repercussão de conteúdo
A revista trabalhou com mais de 50 escritores e dez artistas plásticos até o momento. A edição mais recente, a oitava, é com a arte da sensível e instintiva Vitória Basaia. E, para Mahon, isso é motivo de comemoração, pois a Pixé ultrapassa fronteiras geográficas para acolher escritores e artistas de todo país.
Agora, para abril do ano que vem, a revista também conta com a colaboração da Secel para publicar um volume único e com as edições dos 12 primeiros meses. Haverá também uma amostragem de 100 escritores e mais de 16 artistas, o que ele define como um marco inédito na produção cultural mato-grossense e nacional.
“Não nos colocamos como periferia, mas como centro de produção cultural do Brasil”
Eduardo MahonPara o próximo ano, o escritor ousa um pouco mais pois - além de trabalhar com artistas e escritores, que não são tão visados pelas grandes editoras – ele revela que fará uma edição da revista só com artistas negros e outra só com mulheres.
A só com negros, sem muito mistério, logo conta que será ilustrada pelo cabo-verdiano Adílio Felsing, também conhecido pela sua representatividade, e que hoje reside em Hamburgo, na Alemanha.
Já a edição só com mulheres, que será lançada ainda em dezembro deste ano, é comandada pelo Coletivo de Autoras Mato-Grossenses Maria Taquara. A repercussão cresce, assim como os que contribuem para o conteúdo de cada edição. “Não nos colocamos como periferia, mas como centro de produção cultural do Brasil”, finaliza.