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Segunda-Feira, 28 de Junho de 2010, 10h:06 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:26

Artigo

Jornalista lamenta rancor latino por causa da rivalidade no futebol

O rancor latino além das quatro linhas

 

Jornalista Jorge Maciel    Durante a Copa do Mundo, onde uns torcem esportivamente, uns civicamente tensos ou embotados de ufanismo e uma outra parte prega a aversão entre povos, perguntei a meninos e meninas da minha rua para quem torceriam no jogo Argentina x Nigéria, na abertura da competição: a resposta foi, claro, a de que todos eram “nigerianos” desde o parto.

    Nas reflexões que se seguiram, pensei mais nos adultos e ponderei que a rivalidade entre Brasil e Argentina – e também Brasil x Uruguai – anda mais além que a metragem dos campos de futebol, ou bem prá lá dos perímetros dos estádios. De forma multiplicadora, permanente e voraz a grande mídia, pelas palavras de irresponsáveis, soberbos e insensatos, vem propagando uma espécie de intolerância e de sentimento raivoso e aceso entre latinos, tecendo um rosário de rancores entre brasileiros, argentinos, bolivianos, paraguaios, e de outros países sul-americanos, isso bem antes mesmo da jabulani.

   O poeta e músico cubano Pablo Milanes é pontual. A ‘Canción por la unidad latinoamericana’ uma de suas belíssimas composições, realça que, apesar de estamos juntos, nos viramos uns contra os outros, num racional apelo pela unidade e num protesto cifrado contra o rancor entre sul-americanos. Ainda na letra da canção, Milanes, relembrando conflitos do passado entre estes países, observa que com o passar dos anos se acumularam rancores, se esqueceram os amores e parecemos como estranhos, ou como xipófagos. É uma distância sofrida num mundo tão separado. Apartado e odioso, com o futebol servindo de pano de fundo, ao sabor da insensatez.

   Num planeta onde se venera menos a vida e se dá importância cada vez menor ao apreço, devemos afastar quaisquer procedimentos e válvulas que venham tonificar o ódio e aversão entre os povos. O futebol, pelas maravilhas e emoções que oferece, se de um lado aproxima as nações, pode se tornar um artifício perigoso quando o torcedor é estimulado a odiar por uma rivalidade tola. Por um descuido ou quem sabe por uma febril insanidade, a disputa pelo gol e pelo simbólico ato de levantar um caneco, pode se transformar em extremismo e ódio perenes, como já se pode observar nas TVs e rádios, jornais, em entrevistas onde repórteres idiotas e sem graça abordam torcedores brasileiros e argentinos, para citar um exemplo, a lhes nutrir com o sentimento do revés e da disputa, da antipatia e da aversão.

    Especificamente tratando-se de Argentina e Brasil, no armistício das Malvinas (em 1982), quando argentinos e ingleses guerrearam pelas Falklands, por conta de disputas entre as seleções de futebol dos dois países (Brasil e Argentina), brasileiros, sem saber dos porquês, torciam apatetados e de forma renhida pela Inglaterra, enquanto outros muitos brasileiros condenavam a posição do Perú, único país latino-americano a declarar oficialmente apoio aos latinos.

   Sem querer exagerar, Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda germânico do período do holocausto, gênio do mal das forças de ocupação nazistas, entre tantas artimanhas e fórmulas, utilizava-se também da falsa superioridade ariana nos esportes para difundir o ódio contra os judeus e negros.

   A evolução do futebol, ou da qualidade técnica das seleções nos últimos quinze anos, ainda não produziu efeitos agourentos entre brasileiros e bolivianos, brasileiros ou paraguaios, brasileiros ou equatorianos (..). O grau de perigoso preconceito e animosidade ainda é exclusivo nas pelejas entre brasileiros e argentinos ou uruguaios, nossos maiores rivais nas quatro linhas. Torço, como amante do futebol e bom brasileiro, para que eles nunca evoluam e que a Argentina e Uruguai jamais ganhem de nós. Mas suplico com mais aflição ainda para que nossos atuais editores estejam acomodados e bem sepultados quando esses países evoluírem mais no futebol. Jean-Paul Marat, notável jornalista francês (foi também médico e cientista) escreveu certa feita, em seu periódico parisiense, durante a Revolução Francesa (1789) que o povo absorve mais uma maldosa ‘invenção sutil’ e que a insofismável verdade escancarada em letras de forma.

   Que as novas gerações de profissionais que comandarão a mídia doravante tratem a rivalidade atual e as que vêm por aí apenas como elemento da competição sadia, cíclica ou ocasional, com descomunal espírito de competição e delirante paixão, mas sem as substâncias dolentes da cólera. Apenas isso.

    Jorge Maciel é jornalista em Cuiabá

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Comentários (18)

  • Ricardo | Quarta-Feira, 30 de Junho de 2010, 13h25
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    Parabéns para o autor. Tomara que ele tenha a mesma atitude em relação ao Mixto, e torça para o Tigrão da Vargas, mesmo com o cotovelo doendo do outro lado da arquibancada.

  • Antonio P. Pacheco | Quarta-Feira, 30 de Junho de 2010, 12h00
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    Parabéns, JM, belissimo texto e oportuníssimo o tema abordado. Um adendo: o comportamento xenofóbico entre brasileiros e argentinos não é um dado a ser relevado, pois está entranhado na psiquê dos cidadãos medianos dos dois paises e, pode sim, contaminar negativamnte as relações políticas, econômicas e mesmo de tolerância e convivência territorial. Argentinos olham para o brasileiro com o seu oposto, seu reflexo contrário e vê aquilo que ele NÃO É ou que GOSTARIA DE SER. O mesmo se dá com os brasileiros quando olham para os argentinos, para o cidadão médio tupiniquim, los hermanos são tudo o que ele não gostaria de ser, mas no fundo é: metido, bossal, pretensioso e até arrogante diante dos demais vizinhos de continente. Áh, sim, piora muito isso o f ato de que, no futebol, brasileiros e argentinos são talentosos, criativos, competitivos e por isso mesmo, excepcionalmente equivalentes. Por tudo isso, não há que se estranhar se a final da Copa da Africa for um absolutamente fastástico Brasil x Argentina.

  • dorivan | Terça-Feira, 29 de Junho de 2010, 16h49
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    Excelente! O autor toca em um tema que pode parecer sem importãncia, mas que exige sim muita reflexões. Realmente estamos tão perto e tão longes da unção por todos, mas por muitos jornalistas, principalmente, o futebol e arivalidade tem apenas acirrado a antipatia entre brasileiros e seus vizinhos. O jornalista -autor está de parabéns

  • henrique pimenta | Terça-Feira, 29 de Junho de 2010, 11h43
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    Como estudante de Jornalismo na UFMT parabenizo o sr. Jorge Maciel pela gradiosidade do tema e pela narração impecável. Realmente, um texto rico, leve e solto. Formidável !

  • artur angelo | Terça-Feira, 29 de Junho de 2010, 10h35
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    Maciel é um dos JORNALISTAS que escrevem matérias em Mato Grosso, o resto é resto.

  • ELIANE ALMEIDA | Terça-Feira, 29 de Junho de 2010, 07h39
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    Maciel, parabens pelo artigo. Sou uma das admiradores de seus artigos. Acho todos de bom senso e com certeza enriquecem o meu conhecimento. Vocé é sem dúvida muito objetivo em seus artigos.

  • celia alves | Segunda-Feira, 28 de Junho de 2010, 23h13
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    como cuiabana e hoje morando fora, parabenizo Mato Grosso por ter pessoas com acentuada lucidez, o que muito me orgulha e deveria orgulhar a todos os mato-grossenses. O autor é muito feliz quando sublinha que a grande mídia e pessoas sem quaalquer preparo ou noção apregoam a intolerãncia de forma sutil, como, alías é sutil o texto. Concordo com o jornalista; é isso mesmo que acontece, pois a disputa de partidas de futebol tem se tornado gradativamente uma disputa sem razão entre brasielrios aregentinos, uruguaios e outrros povos latinos. A disputa esportiva é sadia, mas devemos ficar apenas nisso.

  • rita amaral | Segunda-Feira, 28 de Junho de 2010, 22h59
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    Como professora, achei formidável o artigo. Lamento que alguns comentários, como do Liberato, acima, exprimam exatamente o que observa o autor: a mídia e as insinuações que alimentam o rancor e a rivalidade sem propósito entre brasiliros e latinos, com o pano de fundo do esporte, realmente provoca efeitos devastadores, como se observa em alguns comentaristas, já contaminados pela mídia. Parabéns, sr. Jorge maciel por este belíssmo ensaio. E por outros que tenho lido também.

  • José Martins Liberato | Segunda-Feira, 28 de Junho de 2010, 21h51
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    Vai trabalhar Maciel. Vai fazer alguma coisa produtiva nessa vida, trabalho, trabalho, trabalho......

  • Marcos Seixas | Segunda-Feira, 28 de Junho de 2010, 18h41
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    Jorge, Gostei da sua análise, e gostaria de acrescentar algo: É normal haver animosidade entre vizinhos. A França e A Inglaterra, a Franá e a Alemanha, a Itália, todos eles têm queixas dos vizinhos e foram à guerra 2 vezes no século XX. O Japão invadiu a Coréia e a China muito antes da II Guerra. Há muito mais tensões entre eles do que entre nós, latino-americanos. A Rússia invadiu a Polônia e matou muita gente, assim como a Alemanha. Myamar, antiga Birmânia, invadiu a Tailândia várias vezes. E o que falar da Índia e do Paquistão? As diferenças entre nós, latinos, se resolvem nos esportes, enquanto o Hugo Chaves só bradar sem agredir fisicamente outro país. sds - Marcos Seixas

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