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FORMAÇÃO CONTESTADA

Médico que operou jovem morta em Cuiabá não tem registro de cirurgião plástico

Obtenção legal exige residência do MEC ou prova da AMB; defesa atribui desfecho a intercorrência imprevista

Leticia Avalos

O médico Euller Gustavo Preza não possui Registro de Qualificação de Especialista (RQE) junto ao Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) e, pelas normas da categoria, a ausência do título impede o profissional de se anunciar publicamente como cirurgião plástico. A formação do médico passou a ser questionada após um procedimento conduzido por ele terminar com a morte de Lurdes Maria de Lima Pessoa Padilha, de 24 anos, na última sexta-feira (16), em Cuiabá.

Conforme noticiado pelo , o procedimento foi realizado no Hospital Geral e Maternidade da capital. A jovem teria sofrido uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.

Reprodução

médico Euller Gustavo Preza, Lourdes Maria de Lima Pessoa Padilha

Lurdes Maria de Lima Pessoa Padilha (esquerda) e o médico Euller Gustavo Preza

Em nota, o CRM-MT não comentou o caso específico de Euller, mas esclareceu, em termos gerais, que existem apenas duas vias legais para a obtenção e a divulgação do título de especialista no país: a conclusão de um programa de residência médica ou a aprovação em exame promovido pela Associação Médica Brasileira (AMB), em parceria com a sociedade de especialidade correspondente.

Na primeira opção, o médico precisa concluir integralmente a residência médica na área escolhida, em programa credenciado pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), vinculada ao Ministério da Educação (MEC). Já a segunda alternativa exige a aprovação no exame de suficiência (prova de título) para a respectiva área, elaborado e aplicado pela AMB em parceria com a sociedade de especialidade correspondente.

Após obter o certificado por uma dessas vias, o profissional deve registrar o título no Conselho Regional de Medicina onde atua. Somente com a validação do certificado de residência médica da CNRM ou da titulação da AMB, junto ao CRM do seu estado, é que o médico obtém o RQE.

No domingo (18), após a repercussão da morte de Lurdes, o Colégio Brasileiro de Cirurgia Plástica (CBCP) emitiu um posicionamento confirmando a formação de Euller na área de cirurgia plástica. A entidade ressaltou que o médico integra o quadro como membro efetivo desde 2011, tendo ascendido à categoria de membro titular em 2018.

A entidade, no entanto, trata-se de um “colegiado de médicos” que promovem cursos de pós-graduação sem qualquer ligação com o CNRM do MEC ou a AMB. Conforme descrição oficial no site da organização, o objetivo é reunir profissionais “que se identificam ou praticam a medicina visando a melhora da autoestima e do cuidado dos pacientes visando a saúde e a beleza”.

Segundo a nota do CRM-MT, a simples conclusão de cursos de pós-graduação lato sensu (especialização) - como os ofertados pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia Plástica (CBCP) - não concede o título de especialista ao médico nem autoriza a emissão do RQE.

O órgão regional alertou ainda que a divulgação de especialidade médica respaldada apenas por certificado de pós-graduação, sem o devido RQE, configura infração ética grave por publicidade enganosa. O profissional que incorrer na prática fica sujeito a processo ético-disciplinar e a penalidades que podem chegar à cassação do exercício profissional.

Atualmente, junto ao CRM-MT, o médico Euller Gustavo Preza é cadastrado apenas como “médico sem especialidade registrada”.

"O CRM-MT reafirma seu compromisso inegociável com a defesa da boa medicina, a segurança dos pacientes e a valorização do médico devidamente qualificado. Orientamos a população a sempre verificar se o médico possui o RQE ativo no portal oficial do Conselho antes de realizar qualquer procedimento especializado", concluiu o órgão na nota.

O caso

A jovem Lurdes Maria de Lima Pessoa Padilha, de 24 anos, morreu nesta sexta-feira (16), durante uma cirurgia plástica no Hospital Geral e Maternidade, em Cuiabá. Informações iniciais apontam que ela sofreu uma parada cardiorrespiratória.

“O procedimento foi realizado em ambiente hospitalar adequado, por profissionais plenamente habilitados, após as avaliações pré-operatórias exigidas. Durante a cirurgia, a equipe identificou uma intercorrência súbita, interrompeu imediatamente o procedimento e manteve as manobras de reanimação por cerca de duas horas, infelizmente sem sucesso”, diz trecho da nota divulgada pela assessoria jurídica do médico Euller Gustavo Preza, que realizava o procedimento.

Ainda conforme o posicionamento, as causas da intercorrência serão esclarecidas durante a investigação do caso. Euller também ressaltou que atua na área há mais de 25 anos e possui vasta experiência.

A assessoria jurídica também confirmou que o médico foi agredido por familiares da paciente após a morte.

"Sobre a notícia que divulga uma possível agressão ao médico, esta assessoria jurídica esclarece que tanto a agressão quanto a ameaça de morte foram registradas pelo médico em um Boletim de Ocorrência, no intuito de preservar sua integridade física".

Assessoria

CRM-MT

CRM abre sindicância 

O Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) instaurou sindicância para apurar a morte da jovem Lurdes Maria. Ela fazia uma cirurgia plástica no Hospital Geral e Maternidade, em Cuiabá, quando teria sofrido uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.

Conforme informado pelo , o procedimento foi realizado pelo médico Euller Gustavo Preza. O procedimento contra ele corre em absoluto sigilo, segundo o CRM.

“O CRM-MT informa que será instaurada uma sindicância ex officio para apurar rigorosamente a dinâmica e todas as circunstâncias que envolveram o atendimento e o falecimento da paciente”, diz trecho da nota do CRM.

O Conselho destaca que a abertura da sindicância é um trâmite legal e necessário para a busca da verdade dos fatos, e não significa a condenação prévia do profissional envolvido, sendo garantidos o direito à ampla defesa e ao contraditório.

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