Levanta a poeira vermelha quando, sem asfalto, a comunidade dança fantasiada em uma de suas festas mais tradicionais do ano. Trata-se de Boi-à-Serra, um movimento secular que toma uma nova roupagem a partir da ótica jovem herdada dos ancestrais.
José Medeiros
Comunidade espera ansiosa pelo carnaval, mas maratona já antecede muito antes a esse período. Tradição atravessa século e toma novas formas joviais
Os netos dos que um dia iniciaram com as cabeças de boi, todos cobertos de tecidos florais e muita animação, começam a sair pelas ruas um mês antes do carnaval. No entanto, a preparação de cada figurino se inicia muito antes. O “protagonista” da festança é o Boi.
José Medeiros
Cores e formatos se misturam as multidões que assistem o desfile pelas ruas. Cada dia mais as crianças tomam conta da farra e os mais velhos de casa
Ele cria forma aos poucos, com uma estrutura de madeira leve e flexível chamada de "melado de pomba" e, logo em seguida, cobre-se a estrutura com um tecido de "seca-poço", que é o que forma o corpo do boi. A cabeça do boi é feita da caveira do animal, seca, e pintada com uma tinta preta e nos olhos, dois botões.
José Medeiros
Crianças brincam enquanto tradição é mantida no Boi à Serra, mais velhos acompanham transformação da cultura, alguns são críticos e outros apoiadores
Para entender melhor este processo, quem fala com a reportagem é uma das personagens do projeto Expedição 300 - O Rio das Lontras Brilhantes, retratado pelo fotógrafo José Medeiros.
Ela é Ketili Raiane da Silva Pinto, 25 anos, moça que cresceu dançando siriri por Santo Antônio de Leverger. Ketili sabe que não é exclusividade de Santo Antônio a festividade, e que ela acontece também em Dom Aquino e na comunidade São Gonçalo Beira Rio. “Algumas adaptações foram feitas, musicalmente falando também. Antes eram mais instrumentos de siriri e cururu, hoje também usamos o surdo para acompanhar as trovoadas”, conta.
José Medeiros
Desde os 6 anos, alguns pequenos se envolvem na rotina do Boi Estrela, um dos grupos do Boi à Serra. A cabeça do boi é feita da caveira do animal, seca
Cada dia mais as crianças tomam conta da farra, os mais velhos, cansados, acompanham da varanda de suas casas. A música tocada é o cururu com muita viola de cocho e ganzá, versando trovas sobre o boi e o público, que cai na brincadeira.
José Medeiros
Fantasias são montadas a partir de caveira de boi e estrutura de madeira, entrevistada acredita que a cultura se transforma, não é fixa, não há forma errada
Ketili faz parte do grupo Boi Estrela que tem cerca de 60 pessoas envolvidas e com a faixa etária variante de seis a trinta anos de idade. “Há uma ressignificação e roupagem com essa geração que se interessa pela cultura do Boi-à-Serra, são jovens com a acesso a novos instrumentos, influencias espalhadas pelo mundo e com sede de continuar a cultura. Até porque ela não é fixa, ela se transforma. Por isso não existe forma errada de se fazer, o importante é que ela não morra”, finaliza.
A jovem também enfatiza a importância no turismo e movimentação econômica do Boi-à-Serra na cidade, todos os anos.







Gilberto Fraga 14/02/2020
Parabéns, Carlinhos. Emocionante sentir a sua sensibilidade e expressão cultural. Um levergense, já em uma outra dimensão, deve estar bastante orgulhoso.
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