Após mais de três anos, o empresário Carlos Alberto Gomes Bezerra, o Carlinhos Bezerra, será julgado pelo Tribunal do Júri de Cuiabá nesta terça-feira (21) pelas mortes da ex-namorada, Thays Machado, e o namorado dela, Willian César Moreno. O crime aconteceu no dia 18 de janeiro de 2023 em frente ao edifício Solar Monet no bairro Consil, em Cuiabá.
Conforme publicado, Thays estava em um relacionamento com Willian há cerca de um mês quando, na madrugada de 18 de janeiro, ela foi ao aeroporto para buscar o atual namorado. Na data, os dois foram abordados por Carlinhos, que os ameaçou com uma arma de fogo.
Ela ligou para o 190 e denunciou a situação. Na ligação, ela foi orientada a procurar a Delegacia da Mulher e foi solicitado que entrasse em contato, “caso fosse necessário”. De acordo com as investigações, Thays não procurou a Delegacia da Mulher para formalizar a denúncia e pedir medida protetiva.
Um pouco mais tarde, por volta das 17h daquele dia, ela e Willian Moreno foram mortos na calçada do edifício onde a mãe de Thays morava.
Segundo a Polícia Civil, Thays foi ao local para deixar o carro da mãe na garagem e, ao sair na portaria para aguardar a chegada de veículo de transporte por aplicativo, ela e o namorado foram surpreendidos por Carlinhos, que conduzia um Renault Kwid, e fez os disparos contra o casal.
Prisão e suposto "desequilíbrio emocional"
Horas após cometer o crime e fugir, Carlinhos foi preso em uma chácara da família, em Campo Verde. Durante interrogatório na Polícia Civil, ele confessou o crime e também argumentou sofrer de diabetes, afurmando que estava em “estágio de neuropatia”, o que lhe causou o "desequilíbrio emocional" para cometer o crime.
Carlinhos afirmou ainda que lhe faltou "inteligência emocional" e que estava muito arrependido.
Apesar da confissão, ele negou informar como cometeu o crime e fez uso de seu direito em permanecer em silêncio sobre esses fatos.
"Extrema perversidade"
Segundo a denúncia do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), o crime foi cometido por motivo torpe, porque, sentindo-se desafiado pela ousadia da vítima em pôr fim ao namoro, Carlinhos resolveu se vingar dela e do namorado, matando-os.
O denunciado resolveu eliminar a vida da vítima por razões da condição do sexo feminino, ou seja, por envolver violência doméstica e familiar (ex-namorada) e menosprezo à condição de mulher
"Agiu o denunciado de forma cruel e covarde, revelando extrema perversidade, ao agredir a vítima com diversos disparos de armas de fogo, descarregando uma pistola semiautomática em área urbana de intensa movimentação de pessoas, em plena luz do dia, no horário comercial de um dia útil, causando o risco de vir a atingir também transeuntes que nada tinham a ver com o seu alvo, resultando perigo comum", diz trecho.
A denúncia aponta ainda que, embora a vítima estivesse ciente de que, durante o relacionamento o denunciado a perseguia, não sabia que após o término do namoro ele continuasse a monitorá-la, acompanhando todos os seus deslocamentos.
"A ação extremamente calculada do acusado em comparecer naquele local, exatamente no momento em que a vítima estava exposta na calçada de costas para a rua, subtraiu dela a possibilidade de realizar qualquer gesto efetivo de defesa (abaixar-se, correr e distancia-se do atirador), sendo acolhida de surpresa, recebendo os tiros fatais, inclusive, pelas costas. O denunciado resolveu eliminar a vida da vítima por razões da condição do sexo feminino, ou seja, por envolver violência doméstica e familiar (ex-namorada) e menosprezo à condição de mulher", pontuou.
Segundo o inquérito da Polícia Civil, assinado pelo delegado Marcel Oliveira, responsável pela investigação da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Cuiabá, Carlinhos perseguia Thays há meses, por não aceitar o término do relacionamento.
Contra William, a denúncia destaca que, após os disparos contra a Thays, Willian começou a correr rapidamente pela calçada tentando distanciar-se do agressor, mas Carlinhos fez nova manobra no veículo, aproximou-se dele e atirou diversas vezes com a mesma arma.
Recursos, adiamentos e júri "secreto"
Ao longo do processo, a defesa de Carlinhos apresentou diversos recursos, entre eles, até mesmo tentou retirar o processo de Cuiabá, para adiar o julgamento. Em maio, a Turma de Câmaras Criminais Reunidas do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) negou o pedido de desaforamento do júri de Carlinhos.
Na semana passada, a defesa de Carlinhos tentou, novamente, transferir o julgamento pelo Tribunal do Júri de Cuiabá para outra cidade ou estado. Entretanto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido.
Já na última sexta-feira (17), a juíza Mônica Catarina Perri Siqueira, da 1ª Vara Criminal de Cuiabá, negou outro pedido da defesa que solicitava a instauração de incidente de insanidade mental a Carlinhos.
Em sua decisão, a juíza entendeu que não há dúvida razoável sobre a capacidade mental do réu, além de considerar que o pedido foi apresentado fora do momento adequado e que, em sua avaliação, buscava atrasar o andamento do processo.
Nesta segunda-feira (20), um terceiro recurso, em menos de uma semana, solicitando o adiamento do Júri foi negado pela juíza Mônica Catarina. Dessa vez, a defesa alegou cerceamento de defesa por supostas falhas na comunicação de processos vinculados ao acusado e "falta de tempo" para analisar um volume de 109 gigabytes de provas digitais.
“Não se cuida, na espécie, de prazo exíguo ou insuficiente, mas de intervalo mais do que razoável para o exame técnico do conteúdo pela equipe de defesa, habilitada e assistida por profissionais capacitados para tanto”, pontua a magistrada.
O júri está marcado para começar às 9h, no Fórum de Cuiabá. A juíza Mônica Catarina Perri Siqueira, da 1ª Vara Criminal de Cuiabá, determinou que apenas pessoas diretamente ligadas ao processo poderão acompanhar o julgamento. Com a decisão, a imprensa só saberá o resultado ao final da sessão. A medida de “esconder” o julgamento da imprensa, atende o pedido da defesa do réu, já que o processo tramita em segredo de justiça.
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