COPA DO PANTANAL

Sexta-Feira, 30 de Maio de 2014, 08h:20 | Atualizado: 30/05/2014, 09h:21

Copa do Mundo: qual o saldo?

ronei

Ronei de Lima

Enfim, a Copa do Mundo chegou ao Brasil. Nas ruas, começamos a ver os penduricalhos e bandeiras verde e amarelos. Na TV, começaram as propagandas que nos convidam a aderir à dita multidão dos torcedores emocionados em sediar este grande mundial esportivo. A alegria enfeitada pela mídia (que lucrará milhões com a Copa) contrasta com a realidade de um evento que será para poucos: quem for ao estádio, terá que desembolsar R$ 6 por uma água e R$ 8 por um saquinho de amendoim.

Poucos têm coragem de negar que a condução dos processos referentes à Copa do Mundo no Brasil é um exemplo do que não se deve fazer.  A começar pela exorbitância nos gastos, que dos previstos de R$ 2,5 bilhões, bancados em sua maioria pelo financiamento privado, chegaram a nada menos que R$ 9,1 bilhões, 94% vindos do dinheiro dos impostos dos brasileiros e de contratos com o BNDES.

Na área trabalhista, perdeu-se um momento importante de valorizar os trabalhadores brasileiros. Devido às necessidades dos jogos, tentou-se  discutir a flexibilização da jornada de trabalho, abrindo brecha para que o governo admita agora realizar mudanças nas regras trabalhistas que poderão permitir contratações com carga horária flexível, o chamado trabalho part-time, como foi informado recentemente pelo ministro chefe da Casa Civil, Gilberto de Carvalho.

Por outro lado, o governo fugiu a todo custo da discussão sobre a criação de um piso nacional único para os trabalhadores da construção civil, atitude que desfaria desigualdades  incompreensíveis: grandes construtoras que atuam em várias partes do país pagam valores diferenciados pelo mesmo tipo de serviço.

Os sindicatos e os movimentos sociais como um todo esperaram em vão pela abertura de um diálogo com governo e empresários, permitindo acompanhamento e garantia do cumprimento da legislação trabalhista nos canteiros de obras. Mesmo o Pacto pela Melhoria das Condições de Trabalho na Construção Civil, estrategicamente lançado pelo governo federal em meio a toda esta discussão, não mostrou resultados efetivos quanto à valorização, principalmente salarial, do trabalhador.

Aqui em Cuiabá, o movimento sindical só foi ouvido quando se quis seu apoio para aumentar a carga horária dos operários, extenuando suas forças na busca de atender a um calendário apertado pela ineficiência e incompetência na condução das obras. Mas nem a Justiça do Trabalho permitiu tanto. Porém, o pior saldo negativo foi a morte: nove operários perderam suas vidas para garantir a construção dos belos estádios da Copa. Para estas nove famílias, não vai ter Copa.

Recentemente, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) apresentou relatório onde conclui que as melhorias nas condições de trabalho contribuem para o crescimento econômico sustentável. Que critérios como a proteção social, visando a melhoria na qualidade de vida, são determinantes para o desenvolvimento geral dos países.

Para todos os trabalhadores e população em geral, fica a sensação de despreparo e descaso. Fica também a dúvida sobre o futuro destas obras, já que temos exemplos como o do Hospital Central de Cuiabá, cuja conclusão foi várias vezes prometida pelo governo, sem resultados concretos. Outro agravante é que teremos mudança na administração estadual com as eleições deste ano, o que nos deixa temerosos de que estas obras não sejam assumidas pelo próximo governador, como já é de praxe na política brasileira.

E onde estão as melhorias na infraestrutura das cidades-sede, tão propagadas como legado da Copa e que até o momento ou não foram concretizadas de fato, ou ainda estão em execução, sem data correta para finalização? Onde estão os investimentos em esgoto e asfalto, cadê a contribuição efetiva da Prefeitura Municipal na execução das melhorias que a cidade – trabalhadores e população em geral – merece? O que vimos foi um aumento absurdo no número de buracos, o que piora muito nos tempos de chuva. E o esgoto continua correndo a céu aberto nos bairros mais carentes, onde a população predominante é a de trabalhadores.

Fica a revolta pelas obras inacabadas e mal feitas, pelo superfaturamento, pelo excesso de liberdade dada à Fifa, pelas mortes, pelos atrasos, pela qualificação profissional prometida aos trabalhadores e não cumprida a contento. Pela vergonha que passaremos, como país, perante todo o mundo. Diante destes desmandos na condução do recurso público, são compreensíveis os protestos da população, que pede mais investimentos em áreas como saúde e educação, valorização salarial e respeito ao cidadão que trabalha. As pessoas não são contra a Copa do Mundo ou o futebol. Elas são à favor do respeito.

Ronei de Lima é presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Mato Grosso (FETIEMT) e vice-presidente da Nova Central Sindical de Trabalhadores em Mato Grosso (NCST-MT).

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Comentários (2)

  • Mteusm | Sábado, 31 de Maio de 2014, 06h42
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    Pessoal só sabe fazer criticas e palanque pro taques e pro MM. Querendo ou não as obras estão ai, e se não tiver contente, não precisa usa-lás, você pode desviar pra esquerda ou pra direita sem precisar passar por cima o por dentro é o seu direito. Toda vês que você passar por ela vai lembrar-se do Silval Barbosa, pelo menos acontece comigo. Qual o prefeito que fez grandes obras, mas, grande mesmo em Cuiabá? Roberto França um viaduto da rodoviária, WS avenidas das Torres. Dante Oliveira Ponte Sergio Motta. O Dante foi muito criticado igualzinho ao Silval, por fazer a Sergio Motta, chamaram ele de MALA PRETA. A língua é o chicote da bunda, hoje você fala e amanhã você apanha dela mesma. Agradeço este site por proporcionar aos Internautas interatividade c/ pensamentos.

  • Dilemario Alencar | Sexta-Feira, 30 de Maio de 2014, 16h13
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    Caro Ronei, muito bom artigo. Parabéns! Me associo a você neste pensamento sobre a realização da Copa em Mato Grosso e no Brasil.

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