Salve Geral pega o Estado de surpresa e apavora a população; bandidos são soltos
No ano de 2016 Mato Grosso começou a conhecer uma realidade antes só vista pela televisão e que chocou a população. Os atentados denominados “Salve Geral”, ordenados de dentro dos presídios, pegou o Estado de surpresa e apavorou os cidadãos. Os bandidos que causaram terror no Estado já estão soltos.
Na noite de 10 de junho, uma sexta, ocorreram, em Cuiabá e Várzea Grande, diversos ataques a ônibus, sendo alguns completamente tomados pelo fogo. Pelo menos três ônibus foram incendiados. Um dos casos aconteceu na avenida General Melo, próximo à avenida Beira Rio, na região do bairro Praiero. O outro foi queimado no bairro Jardim Vitória.
Segundo o chefe da Polícia Civil, delegado Adriano Peralta, à época, a ordem para o ataque partiu de criminosos dentro da cadeia, como uma forma de retaliação à suspensão das visitas devido à greve dos agentes penitenciários.
.
Imagem dos ônibus incendiados durante o ataque do Salve Geral em Mato Grosso, em 10 de junho
Durante todo aquele final de semana, a Sesp, em conjunto com autoridades, realizaram trabalho de força tática para coibir mais ataques. "A cúpula está toda reunida neste momento na Sesp. Hoje à noite ainda o departamento do GOE, do Garra, do Bope e do GCCO já vão para a rua com a máxima de evitar novos ataques em pontos estratégicos", explicou na época o delegado em áudio pelo Whatsapp.
Os bandidos também usaram o Whatsapp para dar as ordens dos ataques. O áudio dos criminosos citava vários bairros de Cuiabá e Várzea Grande, incluindo ataques a casas de agentes, ônibus e tiroteio. “É pra botar o bagulho no vermelho entendeu? Tacar fogo nos ônibus. A voz veio da torre, entendemos. Nós estamos sendo oprimidos aqui. Aquele que não somar, é bom se jogar já”, dizia um dos mandantes.
Nos dois casos, os incêndios foram controlados pelo Corpo de Bombeiros. Não houve registro de feridos. Vídeos e fotos que circularam pelas redes sociais mostraram os atos de vandalismo. A Polícia Civil chegou a recomendar que a população não saísse para as ruas.
Agentes são alvo
Dois agentes penitenciários foram vítimas de ataques na noite daquela sexta, mas não ficaram feridos. “Houve ameaças e os servidores tiveram cautela. Os casos registrados foram parecidos. Em Cuiabá, o agente estava em uma reunião e foi para casa por volta de 19h30. Ele foi abordado por alguns indivíduos e correu para casa. Ele teve a residência e o veículo atingidos por tiros. Em Várzea Grande, perto do 4º Batalhão da Polícia Militar, alguns homens atiraram contra a casa e o carro de outro agente”, relatou o presidente do sindicato dos Servidores Penitenciários (Sindspen), João Batista, ao #rdnews à época.
Mentores dos ataques
Os ataques ocorreram em Cuiabá, Várzea Grande, Primavera do Leste e Barra do Garças. Na Capital três ônibus foram incendiados, agentes penitenciários foram alvos de atentados, além de tiros que foram disparados contra prédios e bases da polícia. Uma viatura da PM, uma Kombi e dois carros que pertence ao sistema prisional também foram incendiados.
O primeiro preso, identificado como Reginaldo Aparecido Moreira, foi apontado no sábado (11 de junho) como o mentor da onda de ataques. Outros três detentos foram identificados e autuados na noite de domingo: João Luiz Baranosk, Reginaldo Silva Rios e Carlos Alberto Vieira Teixeira. A Sesp diz que os três também organizaram as ações de dentro da unidade onde cumprem pena.
Depois dos ataques, uma revista foi feita entre os raios 3 e 4 da Penitenciária Central do Estado. Foram encontrados aparelhos celulares e materiais diversos que comprovariam a participação dos presos nas ordens de ataques criminosos em Mato Grosso.
Conforme informações de processos criminais pela Justiça de Mato Grosso, os quatro presos foram condenados ou respondem a diversos crimes, entre eles assalto a banco, roubo, homicídio e tráfico de drogas. O mentor dos ataques, Reginaldo Aparecido Moreira, responde por tráfico de drogas e homicídio.
O segundo preso, João Luiz Baranoski, de 34 anos, é citado em quatro processos, sendo em Porto dos Gaúchos, Tabaporã, Cláudia e Sinop. Ele é apontado pelo Ministério Público Estadual (MPE) como integrante de uma quadrilha que assaltava agências bancárias em Mato Grosso, Acre e Rondônia.
Em um dos processos, ele é tido como integrante de uma organização criminosa que assaltou uma agência bancária em Tabaporã, em setembro de 2009. Naquela ocasião, seis homens fortemente armados e encapuzados dispararam contra as portas do prédio e fizeram reféns. Clientes e funcionários foram obrigados a se prostrarem à frente da agência sob a mira das armas.
As vítimas foram colocadas como escudo humano para impedir a aproximação dos policiais da cidade. Desse assalto, a quadrilha conseguiu levar R$ 166 mil do cofre do banco.
O terceiro preso, identificado como Reginaldo Silva Rios, de 35 anos, é condenado por tráfico de drogas e responde a processos em Cuiabá e Várzea Grande. Reginaldo, conforme informações dos processos judiciais, é considerado um dos chefes de uma organização criminosa que age de dentro dos presídios em Mato Grosso. O último preso, Carlos Alberto Vieira Teixeira, de 35 anos, responde por roubo em Barra do Bugres e Cuiabá.
.
Trecho do áudio transcrito dos bandidos ao dar ordens para ataques do Salve Geral em Mato Grosso
Prisões e soltura
Além dos quatro detentos que foram identificados como os organizadores dos ataques, a polícia prendeu, até domingo (12 de junho), 16 pessoas que teriam envolvimento nos casos. No sábado (11), 14 pessoas foram presas, sendo 10 em Cuiabá e Várzea Grande, e outras quatro em Primavera do Leste, onde foram queimadas uma viatura desativada da Polícia Militar e um veículo utilitário.
No domingo, policiais militares de Barra do Garças prenderam duas pessoas suspeitas de atear fogo em duas viaturas do Sistema Socioeducativo do município.
A juíza da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, Selma Arruda, decidiu, na última quarta (21 de dezembro), revogar as prisões de Reginaldo Aparecido Moreira, mentor dos ataques, e João Luiz Baranosk, também um dos líderes do Salve Geral, que provocou clima de terror e insegurança em Cuiabá e no interior. Os dois ex-detentos que seriam transferidos são acusados de integrarem a organização Comando Vermelho (CV).
Para explicar a decisão, a magistrada alegou que após as informações do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (GMF), de que a Penitenciária Central do Estado (PCE) está à beira de um colapso em razão da superlotação, acarretando risco de rebelião, bem como diante da proximidade do recesso forense, decidiu pela soltura dos meliantes. “O que dificulta o trâmite dos processos, passo a analisar, de ofício, a situação processual dos réus presos nestes autos, deliberando sobre a necessidade ou não de sua manutenção em cárcere”.
Juiza manda soltar responsáveis pelos ataques criminosos no Estado