Com oferta abundante de grãos, crescimento do rebanho e demanda aquecida por carne premium, Mato Grosso reúne condições estratégicas para se tornar autossuficiente e altamente competitivo na produção de carne ovina de qualidade, reduzindo a dependência de outros estados, especialmente do Nordeste, e até das importações do Mercosul. Atualmente, com cerca de 420 mil cabeças, o setor estima que o rebanho possa dobrar e alcançar 1 milhão de ovinos em até três anos.
“Toda essa abundância de alimento conseguimos transformar em proteína animal. Com isso, conseguimos agregar valor à produção”
Cássio Carollo, pres. da OvinomatA avaliação é do presidente da Associação dos Ovinocultores de Mato Grosso (Ovinomat), Cássio Carollo, que projeta que, em até cinco anos, o Estado esteja entre os principais polos da ovinocultura nacional. O cenário favorável passa pelo fato de Mato Grosso ser o maior produtor de milho do Brasil, com uma safra recente de 55,4 milhões de toneladas, além da ampla oferta de subprodutos como o DDG, coproduto da indústria do etanol.
“Nós temos tudo aqui: comida em abundância. Além das pastagens, é possível trabalhar com semi-confinamento e confinamento. Temos o DDG, que é o coproduto das usinas de etanol, temos milho, soja, farelo de soja, algodão e assim por diante. Toda essa abundância de alimento conseguimos transformar em proteína animal. Com isso, conseguimos agregar valor à produção e suprir a demanda dentro do próprio Estado, principalmente em Cuiabá, que é o maior consumidor, mas também em outros mercados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, onde há uma demanda por carne premium, com maior valor agregado”, explica.
Atualmente, o Estado tem cerca de 6 mil ovinocultores, com a produção concentrada principalmente no Médio Norte do Estado, em municípios como Sorriso, Lucas do Rio Verde, Sinop e Tapurá. Itanhangá também se destaca, com mais de 250 produtores.
Conforme explica Cássio, essa alta produção de milho e derivados impacta diretamente na ovinocultura pois os custos com alimentação representam até 70% do custo de produção. “Se você está do lado da produção de comida, isso ajuda muito e deixa a carne mais competitiva”, ressalta.
Atividade rentável e adaptável a pequenas áreas
Segundo Cássio, além do potencial produtivo, a ovinocultura vem ganhando espaço por ser uma atividade viável em áreas reduzidas e com alta rentabilidade. “A ovinocultura é fácil de você colocar, não precisa de áreas grandes. Você consegue ter um resultado econômico satisfatório em áreas pequenas”, explica.
De acordo com o presidente da entidade, enquanto a bovinocultura exige grandes extensões, a criação de ovinos permite sistemas mais intensivos.
“Na bovinocultura, você pode contar com algo em torno de sete a oito cabeças por área. Já na ovinocultura, é possível trabalhar com um sistema mais intensivo: em oito a dez hectares, dá para criar 500, 600 ou até mil ovelhas. Isso porque é possível produzir silagem, fazer feno e realizar todo o trato dos animais dentro de uma pequena propriedade, alcançando uma rentabilidade maior. A ovinocultura consegue remunerar de duas a três vezes mais do que a própria bovinocultura. O valor da carne produzida no mesmo espaço chega a ser superior ao da carne bovina e pode ser mais de quatro vezes maior do que o da carne suína”, defende.
O setor avalia que as 420 mil cabeças produzidas no estado, atualmente, ainda está muito abaixo do necessário para atender à crescente demanda
Cadeia estruturada
Para sustentar esse crescimento, a Ovinomat defende investimentos que envolvam toda a cadeia produtiva, desde a criação ao abate. O foco está na produção de cordeiros precoces, com carne macia e características adequadas de cobertura de gordura, no padrão de qualidade alinhado ao mercado. Isso porque cada vez mais os restaurantes e churrascarias têm diversificado o cardápio, com hambúrgueres, linguiças, kaftas e cortes ovinos especiais.
“Para isso, é necessário investimento em toda a estrutura. Não adianta apenas o produtor aumentar a produção se depois não houver frigorífico ou mercado para absorver esse volume. O trabalho precisa envolver toda a cadeia. Estamos olhando lá na frente, para onde esses produtos serão destinados e quais são as características de qualidade que o consumidor exige. Afinal, quem manda no mercado é quem compra; o mercado é soberano”, diz.
O Estado conta com frigoríficos em operação em Lucas do Rio Verde e Várzea Grande, além da reativação de uma planta em São José do Rio Claro, que deve elevar para quatro o número de unidades com abate e processamento de ovinos. Há ainda tratativas para novas parcerias em regiões como Comodoro e Sapezal, previstas para este ano.
Atualmente, cerca de 80% da carne ovina consumida no Brasil é importada, principalmente do Uruguai e da Argentina. Por isso, a luta do setor é que a produção chegue a 1 milhão de cabeças, para que o Estado comece a “andar com as próprias pernas” e abastecer a região, sem depender de for
Desafios e gargalos
Apesar do cenário promissor, o setor ainda enfrenta desafios importantes. O custo das matrizes e a logística de transporte são entraves, já que boa parte dos animais ainda vem de outros estados. Uma matriz selecionada varia de R$ 1.000 a R$ 1.400, mas com o frete chega a R$ 1.500. O ponto mais crítico é a falta de mão de obra especializada.
“Ainda enfrentamos uma grande carência de técnicos qualificados. Nem sempre um geotecnista, agrônomo ou veterinário está preparado para atuar especificamente na ovinocultura, por isso é fundamental investir em capacitação. Neste ano, vamos trazer de 10 a 12 técnicos especialistas em ovinocultura, além de promover treinamentos intensivos para os profissionais que já atuam no Estado”, pontua.
Com esses gargalos sanados, o setor acredita que os produtores voltarão a ter confiabilidade para investirem em áreas para ovinocultura. A expectativa é fortalecer esse mercado interno, para, em alguns anos, começar a abrir para o mercado externo. Embora a exportação ainda não seja uma realidade, o interesse já existe. Recentemente, mercados árabes procuraram a Ovinomat para testes de envio, mas a falta de escala ainda impede avanços. “Hoje nós não temos estrutura para atender esse volume, mas é um indicativo do potencial que o Estado tem”, conclui.
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