CASO RODRIGO - TORTURA MILITAR

Domingo, 11 de Novembro de 2018, 07h:57 | Atualizado: 12/11/2018, 08h:20

INVESTIGAÇÃO CRIMINAL

Exclusivo: pais de Rodrigo choram à beira de lagoa por 2 anos de morte do filho veja

selo investiga��o criminal

 

Os pais do aluno bombeiro Rodrigo Claro, Jane e Antônio, ainda não conseguiram sepultá-lo de fato. Dois anos após a morte do filho, 21 anos, convivem com a dor e também a esperança de que a tragédia não tenha sido em vão. Servirá, segundo eles, para responsabilizar a tenente Isadora Ledur. Indiciada e denunciada, é ré por tortura em treinamento militar. Servirá também para mudar parâmetros na corporação Corpo de Bombeiros.

“Até agora nem uma coisa nem outra, já fiquei sabendo de outros excessos, é a cultura militar”, lamenta Jane.

Antônio revela que, na hora do enterro do filho, fez uma promessa, mentalmente, a ele. "Você não pode fazer nada, mas eu posso e vou cobrar justiçam até o fim".

Com a aproximação da data fúnebre, Jane e Antônio foram à lagoa Trevisan, em Cuiabá, onde afirmam que o filho foi covardemente submetido a humilhações e agressões físicas por parte de Ledur. Às margens do manancial, são tomados pela emoção, choram abraçados, como se estivessem à beira da sepultura.

Rodinei Crescêncio

Pais de rodrigo claro lagoa trevisan

Antônio e Jane Claro se emocionam e se abraçam em frente à lagoa Trevisan e ficam alguns minutos em silêncio, pelos 2 anos de morte do rapaz de 21 anos

Veja vídeo

 

O , junto com os pais, refez os últimos passos do rapaz, do treinamento à morte.

1º passo

A lagoa Trevisan é muito bonita, um espelho d’água. Banhistas se divertem no local, que é usado também para formação de militares. "Não entre, há piranhas", diz a placa em frente. Há partes rasas e profundas. No entorno, árvores frondosas emolduram o lago.

Veja imagens panorâmicas aéreas

No dia 10 de novembro de 2016, quando Rodrigo chegou ao lago para o teste, por volta do meio dia, a beleza natural chamou a atenção dele, tanto é que mandou duas fotos para a mãe. Fez com o celular e compartilhou com a seguinte mensagem: "Mãe, eu já estou aqui". As fotos ela guarda como relíquia. Segue abaixo uma delas.

Trevisan

Rodrigo Claro chega à lagoa para treinamento e acha o local bonito, tanto que manda uma foto panorâmica para a mãe pelo WhatsApp que ela ainda guarda

 

O rapaz já saiu para o treinamento nervoso. A família estava morando em Tangará da Serra (a 245 km de Cuiabá), porque o pai, que também é bombeiro há 24 anos, havia sido transferido para lá. Rodrigo veio à Capital para o teste.

No caminho, pelo WhatsApp, mandou mensagem desanimadora à mãe. “Vou tentar (...) mas to é meio prometido já (sic)” - avisou. A mãe, preocupada, questionou: “O que te falaram filho? Tudo isso é somente pressão”. E ele respondeu: “Ten. (tenente) Ta pegando no meu pé e hoje ela vai ta lá”.

Veja o teor da conversa entre mãe e filho

Reprodução

Conversa entre jane e rodrigo claro

Família guarda prints das conversas no dia do teste que foram inclusive anexados aos autos processuais, como provas de que o rapaz sofria perseguição

Corpo de Bombeiros

Rodrigo reflexivo

Rodrigo, minutos antes de entrar na lagoa para o teste, reflexivo, de cabeça baixa ao lado de colegas militares

O pai conta que quando estava saindo, disse ao filho que daria tudo certo. Rodrigo demonstrava insegurança. "Ah eu não sei não - respondeu. Ainda reforcei: se você sentir que não vai aguentar, pede para sair, vai ter o mesmo respeito que sempre teve na família".

Um fotógrafo que acompanhou o treinamento fez uma foto de Rodrigo, minutos antes dele entrar no lago e nadar de um lado a outro, isso após intenso aquecimento. Na foto, parece preocupado, reflexivo, de cabeça baixa.

Dali em diante, o que se sabe desta história trágica consta nos autos processuais e foi relatado por diversos colegas, que tentaram ajudá-lo sem sucesso.

Um deles detalhou que a militar assentou nas costas de Rodrigo, dando diversos caldos nele, puxando para baixo e para cima.

"Temos muita gratidão aos colegas, que deram apoio ao nosso filho. O pessoal da segurança (bombeiros), vendo aquilo tudo, também chegou a jogar a boia, mas a tenente não deixou, mandou retirar. Um dia ainda quero fazer essa travessia, com a imprensa acompanhando, para mostrar o quanto é difícil, agora imagina com uma pessoa te aplicando afogamento, te chutando a todo momento, te chamando de frouxo, fazendo forte pressão psicológica forte", diz o pai.

Ele é muito revoltado com a atitude da tentente. "A partir do momento que ela não respeitou a vontade do meu filho assumiu o risco e não somente ela, mas também o tenente-coronel Marcelo Augusto Reveles de Carvalho, que era o comandante".

Rodrigo saiu da lagoa se sentindo muito mal, com forte dor de cabeça, deitou no chão, não sentia direito as pernas e braços. Colegas relatam que, mesmo assim,  continuou sendo humilhado, xingado de fraco.

2º Passo

De moto, passando mal, seguiu até à coordenação do Corpo de Bombeiros, na base do Verdão. Uma distância longa. Antes disso, mandou outra mensagem à mãe, dizendo que não conseguiu superar o treino. “To mal pra carai, vou ir para coordenação”. A mãe ainda retrucou: “O meu filho, onde vc tá? Filho, Filho de notícias”. Ela ainda guarda print desta última conversa virtual entre eles.

Quando Rodrigo chegou à coordenação dos bombeiros e iam encaminhá-lo à Policlínica do Verdão, que fica bem em frente, no bairro de mesmo nome, o pai é acionado.

“Eu estava em Cuiabá e à tarde saí para fazer uma caminhada. Foi quando vi uma chamada no meu celular, de um colega. Retornei. Era o tenente Marinho, e ele perguntou se o Claro tinha alguma alergia a medicamento. Respondi que não”, relembra. “Questionei, mas por que você está me perguntando isso? Ele respondeu que meu filho estava com uma pequena dor de cabeça, sendo atendido na policlínica, mas já estava voltando para casa. Pedi para falar com ele e ele alegou que meu filho não estava em condições de falar”, detalha Antônio.

O pai estranhou a situação, vestiu roupa “rapidinho” e foi até a Policlínica do Verdão.

3º Passo

Quando chegou à policlínica, Rodrigo já estava em uma maca, inconsciente, convulsionando e soltando "espuma" pela boca, no soro, com medicamento. A médica de plantão questionou se tinha sofrido afogamento. "Esse menino sofreu algum afogamento? Respondi: olha doutora, não sei confirmar. Só posso dizer que estava em um treinamento pesado, aquático. Ela insistiu: esse menino está com sintomas de afogamento e eu preciso saber, para medicá-lo corretamente”, narra o pai.

4º Passo

Rodrigo estava em estado grave. Por isso, em seguida, a equipe médica da polcínia decidiu transferi-lo para local de estrutura adequada e, como tinha plano de saúde, seguiu, de ambulância, para o Hospital Jardim Cuiabá, onde ficou internado na UTI e morreu cinco dias depois.

No Jardim Cuiabá, tanto Ledur, que era instrutora do treino naquele dia, quanto tenente-coronel Reveles, comandante da operação, já estavam ao hospital. Conversavam entre si, sem deixar transparecer sobre o que falavam.

O paciente chegou a passar por uma cirurgia cerebral, de inserção de um dreno. Mas, cinco dias depois de dar entrada na UTI do hospital, faleceu.

5º Passo

Devido às circunstâncias violentas da morte, o corpo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal, o IML, para exame de necropsia.

No dia seguinte pela manhã, familiares foram ao IML, para solicitar a liberação do corpo, mas o exame ainda não tinha sido realizado por falta de material. Não bastasse o luto, o pai disse ter ido "correr atrás" de química para agilizar o processo. "Ameaçamos chamar a imprensa e o material apareceu".

Rádio Pioneira

rodrigo claro em tangará

Chegada do corpo em Tangará, recepcionado pelos colegas de farda, é marcada por emoção

O corpo foi liberado no dia 16h por volta das 17h.

O laudo da necrópsia confirmou o AVC.

6° Passo

O Governo do Estado providenciou o translado do corpo, da Capital, até Sinop, onde mora parte da família do garoto e para onde os pais se mudaram após a tragédia.

O avião pousou na início da noite do dia 16 em Tangará da Serra, para o último adeus de amigos bombeiros na cidade. A chegada do corpo e o velório, na noite e madrugada, foram marcados por muita emoção e lágrimas.

Na sequência, na manhã do dia 17, seguiu encaminhado para Sinop, onde foi novamente velado e sepultado em cemitério local.

“A gente, como bombeiro, tem experiência em primeiros socorros, então quando vi meu filho ali na cama soube que era gravíssima a situação dele”, detalha o pai. "A dor de cabeça que ele sentiu, ao sair da lagoa, era sintoma do Acidente Vascular Cerebral, ele teve um AVC de tanta humilhação e violência", reforça.

Arquivo Pessoal

Rodrigo sepultura

Flores coloridas no túmulo simples em Sinop

A mãe lembra que, ao receber a notícia, o filho mais novo, comentou. "Mãe, o Rodrigo vai morrer e isso me assustou, na hora, engoli um seco, e pior que ele estava prevendo".

No período hospitalar, para ela, o pior foi se deparar com a tenente Isadora Ledur lá. "Pedi que saísse, não gritei, não briguei, apenas pedi que saísse dali".

Jane diz que sempre teve um medo na vida. Receber uma ligação de celular de filho e que do outro lado não ouvisse a voz dele. “Foi isso exatamente que aconteceu”, relembra.

Desde a tragédia, tanto Antônio, que está afastado do Corpo de Bombeiros há 1 ano e 6 meses, quanto a esposa enfrentam depressão e tristeza. Familiares também. Isso os motivou a se mudarem para Sinop, onde moram os pais de Jane. Abriram uma quitanta de frutas e verduras familiar e, através do trabalho, tentam amenizar o sofrimento.

Antônio toma medicamentos e faz terapia. Jane entende que tem que ser forte, para impedir que os demias recaiam.

"Novembro é um mês pesado para nós. Tem finados, depois o dia 10, do treino, o dia 15, da morte e agora anteontem minha mãe também faleceu. Isso ninguém sabe, mas no dia do enterro do Rodrigo, eu fiz uma promessa, lá no cemitério, em Sinop. Filho, vou até o fim, nossa família e por você, isso é algo que estou falando pela primeira vez, nem a Jane sabia disso".

Jane diz que quando tudo aconteceu não teve oportunidade de chorar. Ficou dura. Agora que está se dando ao direito de soltar as lágrimas, porém nunca na frente dos outros dois filhos. "Eles precisam se sentir fortes e seguros".

E se...

Os pais de Rodrigo ficam imaginando, hoje, como seria o filho se estivesse "entre nós". Um rapaz forte, que não tinha nenhuma doença e que, segundo eles, já era mecânico e poderia muito bem se readaptar na profissão, caso desistisse da corporação militar. Afirmam que não seria vergonha nenhuma desistir, caso chegasse ao seu limite físico. No entanto, ele avisou que não aguentaria mais e não foi atendido.

Eles imaginam, como seria, se aquele treinamento tivesse sido cancelado. "Deu problema no ônibus, que levaria os meninos, depois no motor de popa, tanto é que usaram remo, também não tinha ambulância no lago, quer dizer, não era para acontecer, pelas falhas, mas aconteceu e estamos sem nosso filho", lamenta o pai.

Antônio especula ainda que, se o teste não tivesse sido excessivo, se Ledur tivesse escutado o pedido de socorro do filho, se equipe de segunça tivesse insistido com a boa, se os colegas tivessem reagido à agressão, se o comandante tivesse mandado parar, é uma dezena de questionamentos.

Arquivo Pessoal

Rodrigo Claro

Rodrigo Claro quando tinha poucos anos de vida; lembrança em foto é guardada pela mãe

"Treinamento militar, por si só, é duro, mas não pode exceder os limites da razoabilidade e nem expor a vida dos jovens a risco", afirma o pai. 

Outro lado

A tentente Isadora Ledur está afastada da corporação e responde processo judicial, mas alega que não se excedeu. Alega ainda que sofre depressão, que teve a vida e a família prejudicada.

A defesa tenta, nestes dois anos, de diversas formas, liberá-la de culpa.

Na última petição judicial, alega que que investigações foram presididas por autoridade policial incompetente, uma vez que o caso é de natureza militar, portanto caberia a um órgão militar investigar. Mas o Ministério Público Estadual (MPE) já emitiu parecer pela rejeição.

"Não é vingança, é justiça"

Os pais de Rodrigo afirmam  que se ela se livrar de punição será vergonhoso, mas acreditam que seja improvável, pelos autos processuais. Garantem que não desejam o mal dela, apenas que seja punida. "Não é vingança, nem perseguição, é justiça", reforça Antônio. "A luta maior é por outros jovens, para que não passem pelo que meu filho passou. Se o erro fosse meu, não fugiria, pagaria na dosagem merecida".

A vida de Rodrigo é irreversível. A morte é sentença definitiva. Porém os pais acreditam que a condenação será o alívio que tanto esperam. Só aí vão poder sepultá-lo de fato.

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Comentários (5)

  • Ana Maria | Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018, 15h58
    1
    0

    Essa Tenente tem q ser punida, a exclusão dela seria o ideal, pq perder um filho nessa situação é muito triste, pq se não punir daqui a pouco cai no esquecimento, não é pq tem estrela tem q respeitar

  • Bugre | Segunda-Feira, 12 de Novembro de 2018, 19h17
    0
    0

    Mas esse menino morreu de que mesmo?! AVC? Rotura de aneurisma?

  • lucas | Domingo, 11 de Novembro de 2018, 23h04
    10
    0

    tem que ser expulsa da corporação!! eu nao entendo a demora no caso!!!

  • thiago | Domingo, 11 de Novembro de 2018, 20h18
    8
    0

    tomara que ela pague pelo que fez alias o irmao dela morreu esses dias suicidio ne so falta ela agora seria nada bom ne

  • Antonio Claro | Domingo, 11 de Novembro de 2018, 14h49
    10
    0

    A ferida ainda está aberta, somente DEUS e o tempo determinará sua cicatrização. Sofrimento q não acaba.

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