MANSO, UM OÁSIS NO CERRADO

Domingo, 22 de Julho de 2018, 08h:13 | Atualizado: 22/07/2018, 11h:54

DEBAIXO D´ÁGUA

Remanescentes lembram como era a vida em comunidades que ficaram submersas

Rodinei Crescêncio

Manso

Orelhão ainda serve a moradores da região de Manso, muitos deles remanescentes das comunidades rurais que estão submersas após construção da usina

Rodinei Crescêncio

Manso

Sebastião é um dos moradores mais antigos da região

A chegada da Usina Hidrelétrica de Manso inundou não apenas 427 km² de terras, mas também o passado de centenas de pequenos lavradores que residiam na região. Viviam da pesca e pequenas lavouras garantindo a subsistência com o trabalho árduo. Hoje, carregam o peso da idade e precisam resgatar na memória já falha as lembranças de um tempo sofrido.

Sebastião Lemes, 63 anos, é um senhor simplesmente adorável que recebeu com muita simpatia a equipe do . Palmas e lá vem ele com um pedaço de peixe na mão direita e na outra banana da terra cozida, ingredientes sempre presentes na culinária cuiabana. Um bocado de timidez e sorriso fácil marcam sua personalidade.

Nascido e criado na região de Manso, nos conta que mora há cinco anos na comunidade Paraíso de Manso (a 117 km de Cuiabá), uma das tantas que abriga os antigos lavradores. Seo Sebastião era um deles, plantava o que comia e vivia de trabalhos da terra. Com um sotaque gostoso de ouvir, mistura de cuiabanês com um toque matuto, diz que a região conhece seus passos desde menino. “A gente morava no sítio, em casa feita de barro e palha. Eu plantava roça, colhia arroz, feijão. Todas essas coisas eu não comprava, não. O básico a gente tinha”.

Com a implantação da usina, moradores foram retirados da região e passaram por várias tentativas de serem readaptados em outras localidades. A adaptação não ocorria e as reclamações se concentravam no fato de que as novas terras eram inférteis.

Rodinei Crescêncio

Manso

Seo Gonçalo diz que colhia mais de 50 sacos de feijão

Sobre essa época, Sebastião relata: “Foi sofrida demais para nós, a gente ficava de qualquer jeito, em qualquer lugar, a fim de esperar uma decisão e nunca decidiam. Nós sofremos muito nessa batalha aí”. Ele lembra que Furnas comprou um sítio e dividi-lo entre parte dos moradores, mas as terras não serviam, não produziam. “Não produzia nada e nós toda vida vivemos do nosso trabalho”. A família de Sebastião também foi levada para o município de Alto Paraguai, distante 222 km dali.

“Deixaram nós lá e para irmos à cidadezinha lá fazer alguma comprinha tinha que fretar ou ter uma pessoa que nos levava e trazia. Lá era sofrido demais, aquele pantanal de água. Tinha vez que carro estragava na estrada e a gente ficava por lá. Passava necessidade demais. Ainda bem que eles bancavam alguma coisa pra gente”.

Sebastião recebeu R$ 112 mil de indenização e adquiriu a casa onde mora hoje com parte desse dinheiro. O restante foi gasto com o tempo. “Não deu pra compensar o tempo que perdemos, mas me ajudou”, reconhece. O saldo final é positivo e Sebastião se diz feliz por estar dentro de sua própria casa, que divide com a esposa, filhos e netos.

A reportagem também conversou com Gonçalo da Silva Moraes, 80 anos, que nasceu em Rosário Oeste e está na região do lago há mais de 40 anos. Ele chegou ali em 1975, e antes da implantação da usina fazia transporte de mantimentos para Cuiabá e cidades próximas. Se gaba dos bons tempos em que era conhecido como um lavrador de verdade, que colhia mais de 50 sacos de feijão, deixando de queixo caído a vizinhança que colhia no máximo 15.

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Manso

Funcionário de uma loja, Aristides conta que em 15 anos muita coisa mudou na região

“Naquela época era uma maravilha para trabalhar. Mata para trabalhar tinha, peixe para nós pescarmos tinha. Eu era um pescador que deixava o pessoal de boca aberta. Pediam: seo Gonçalo, o senhor pode pegar um peixe pra mim? Sabia que eu ia e pegava. Esses fazendeiros todos iam na minha roça para comprar milho, arroz, feijão. Quando colhiam muito feijão era três, quatro sacos, até 15. Eu cheguei, montei minha lavoura e teve ano de colher 55 sacos”, detalha e acrescenta que para isso passava dia e noite na roça.

Gonçalo lembra que chegou a ganhar terras do Incra, mas a baixa produção o levou de volta para as terras onde mais tarde foi construída a usina. “Furnas vinha fazendo uma pesquisa aqui, uma medição lá, um levantamento. Aí passavam lá e eu falava com eles: olha, por que vocês estão fazendo esse levantamento aqui? Porque agora isso aqui é meu. E eles falavam: seo Gonçalo, o senhor não é daqui, o senhor é de lá, nós conhecemos o senhor lá. E eu respondia que tinha saído de lá porque não tinha mais mato para eu trabalhar”.

Fora essa divergência, comenta que tinha uma boa relação com os funcionários de Furnas, que vez ou outra até pediam para chupar melancia em sua lavoura. “O pessoal de Furnas, eles saíam fazendo pesquisa, pediam e eu deixava”.

Seo Gonçalo recebeu R$ 108 mil de indenização e avalia que é impossível falar que tudo o que passou foi bom. Ele sente por chegar à oitava década de vida e ainda estar trabalhando. “Trabalho com foice, se for possível trabalho com inchada, esses serviços maneiros, que os serviços mais pesados já ficam meio forçados”.

Galeria: Remanescentes

Casas dos antigos moradores

Um estudo feito pela UFMT e apresentado no III Simpósio Nacional de Geografia Agrária, em 2005, levantou detalhes de como viviam os moradores antes da barragem. As paredes das casas eram construídas com madeiras, barro, estrume de boi, palha de babaçu e tijolos de adobe. Já o piso era de chão batido e os mais requintados de cimento queimado. O teto era coberto por folhas das palmeiras e as janelas eram de madeira. Não havia banheiros ou outro tipo de instalação sanitária.

Hoje, as casas do pequeno vilarejo pelo qual a reportagem passou são todas de alvenaria, paredes feitas com tijolos de barro e cimento, telhas de barro ou Eternit, algumas são rebocadas e outras não. Algumas dessas residências, contam os moradores, pertencem a pessoas que não residem ali, vêm apenas para passar final de semana.

Paraíso do Manso

Paraíso do Manso é uma comunidade pequena, tem menos de 200 casas. Aristides Manoel de Pinho, 57 anos, mora em um sítio na redondeza e trabalha em uma casa de material de construção localizada na MT-351. Morador da região há 15 anos eles nos conta muita coisa mudou de lá para cá.

“Quando eu cheguei aqui na época tinha uma estradazinha ruim da usina para cá e era só chão, não tinha a vila. Só tinham dois moradores, um lá embaixo e outro aqui do lado. Dona Maria e seo Joab, até já faleceram os dois. Não tinha nada de vila, aí surgiu de repente”.

Mesmo sem as opções de luxo que a região oferece hoje, o lago já atraia muitos turistas interessados na pesca. Com o incremento do turismo, a comunidade cresceu e possui aproximadamente 150 moradores, que não chegam a explorar diretamente os atrativos da região, mas acabam vivendo deles. “O pessoal daqui trabalha de caseiro, de faxineiro nas pousadas, nas chácaras. Tem muito emprego aí”, revela. Além de mercado, a comunidade tem lanchonete, padaria, posto de combustível e bares. Aristides fala que a região tem um caso de furto a residência aqui e acolá, mas são raros.

Morador da região há 20 anos, Michel Libos é proprietário do restaurante Pontal Náutico do Manso, que está no lago há 10. Ele comenta que o turismo ganhou força na região de 2012 para cá, com a chegada do asfalto. "Triste era antes. Era só fazenda, campos de terras improdutivas. Eu já fiquei sem ter como ir a Cuiabá mais de dias, sem passar ninguém, sem assistência alguma. Quem ficava doente, morria aqui. Hoje mudou para muito melhor", comemora.

Libos chegou a trabalhar com a lida na terra, mas lembra que era bastante difícil devido à pouca produtividade do solo. "Tínhamos poucos recursos e a terra era muito ruim para produzir", lembra. Ele também foi um dos indenizados por Furnas e garante que cada pé de pimenta foi pago.

Batalha judicial

A disputa entre lavradores e Furnas foi travada por mais de uma década. Começou pra valer em 2000 e em 2012 foi firmado um acordo, quando R$ 72 milhões de indenizações começaram a ser pagos às famílias. Ao todo, 880 famílias foram reconhecidas por Furnas por meio de uma auditoria social, realizada em 2000, com as pessoas atingidas pela implantação da usina. Segundo Furnas, também foram pagos R$ 23 milhões em ajuda de custo.

Em 2016, aproximadamente 400 famílias ainda cobravam suas perdas na Justiça. Há quem diga que muita gente recebeu indenização mesmo sem precisar, se juntou aos que de fato tinham direito para tentar tirar proveito da situação. Furnas não reconhece o direito dessas pessoas e dá o caso como encerrado.

A barragem

É inegável que a construção da barragem criou um pólo turístico antes inexistente na região. Além disso, a implementação da usina teve como objetivo reduzir grandes cheias, pois regulariza as vazões do rio Cuiabá. “Essa função contribui para reduzir os danos socioeconômicos em caso de cheias, a exemplo de fevereiro de 2014, quando o volume de água proveniente das chuvas teria resultado na maior cheia já ocorrida no local, não fosse pela existência da usina”, destaca Furnas.

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