Essas férias foram diferentes.
Eu levei minha família para um hotel fazenda onde estavam acontecendo imersões voltadas ao desenvolvimento da inteligência emocional, da inteligência espiritual e à aplicação dessas dimensões no mundo corporativo. Foram quinze dias intensos. De crescimento. De conexão. De expansão.
Mas, entre tantos conteúdos relevantes, algo me atravessou de forma especial: a constatação de que talvez estejamos deixando atrofiar uma das inteligências mais fundamentais do ser humano — a capacidade de viver em comunidade.
Somos seres sociais por natureza. A conexão sempre foi parte da nossa sobrevivência e da nossa evolução. Só que vivemos um momento histórico de aceleração tecnológica sem precedentes. Inteligência artificial, automação, produtividade, performance. Estamos mais rápidos, mais eficientes, mais estratégicos. Mas será que estamos mais conectados?
“Talvez o maior desafio da nossa geração não seja aprender a usar inteligência artificial. Talvez seja reaprender a usar inteligência humana”
Enquanto evoluímos em desempenho, percebo que estamos enfraquecendo algo essencial: a nossa habilidade de presença. A escuta verdadeira. A capacidade de cocriar. O raciocínio conjunto. A troca que amplia consciência.
Existe um risco silencioso aqui. Se não exercitarmos nossa inteligência humana, podemos nos tornar dependentes da inteligência artificial — e não líderes dela. Porque liderar tecnologia exige profundidade emocional, pensamento crítico, maturidade relacional. E isso não se desenvolve no isolamento.
Um dos exercícios que vivenciei parecia simples: escuta ativa. Mas não no conceito superficial que repetimos em treinamentos. Escuta ativa como postura. Ouvir sem preparar a resposta. Sem julgamento. Sem interromper. Com curiosidade genuína. Com interesse real pelo universo interno do outro.
Parece básico. Mas estamos enferrujando nisso.
Quando voltei para Cuiabá, decidi levar essa prática para dentro de casa. Em um jantar em família, olhei para o meu marido e disse: “Quando estou com você, eu me sinto feliz. Me sinto segura. É bom caminhar ao seu lado.” O exercício pedia que, ao final, quem ouve compartilhasse como se sente ao escutar aquilo.
Ele agradeceu. Disse que ficava feliz pela família que construímos. Então eu provoquei: “Agora faz você.”
Veio o desconforto. O riso sem graça. O “ah, amor, para com isso…”
Ali eu enxerguei algo maior do que uma simples resistência. Vi o quanto fomos condicionados, especialmente no universo masculino, a não acessar emoções. Homem não chora. Homem é forte. Homem não demonstra.
Mas criança ainda não criou essas camadas.
Meu filho de 11 anos entrou na conversa e disse ao pai: “Eu te admiro. Eu sou muito feliz sendo seu filho.” Eu vi meu marido desmontar por dentro. E, tocado por aquela sinceridade, respondeu: “Eu também sou muito feliz sendo seu pai. Tenho orgulho do menino que você é e do homem que está se tornando.”
Meu filho ficou surpreso. E iluminado.
Depois fizemos com nossa filha de seis anos. E ali, naquele jantar simples, criamos um ambiente que nenhuma tecnologia seria capaz de produzir: presença, reconhecimento, vínculo.
Por que estou compartilhando isso em uma coluna voltada a líderes e empreendedores?
Porque alta performance sem conexão é insustentável.
Jack Welch, ex-CEO da General Electric e autor de Paixão por Vencer, defendia que não deveríamos perder a capacidade de comemorar. Eu acrescento: não podemos perder a capacidade de reconhecer, agradecer e verbalizar.
Empresas crescem com estratégia.
Mas ambientes florescem com vínculo.
Times entregam resultado quando se sentem vistos.
Pessoas prosperam quando se sentem reconhecidas.
Talvez o maior desafio da nossa geração não seja aprender a usar inteligência artificial. Talvez seja reaprender a usar inteligência humana.
Se queremos liderar o futuro, precisamos fortalecer aquilo que nos torna humanos. A capacidade de escutar. De reconhecer. De expressar. De construir juntos.
Então eu deixo um convite simples e direto: hoje, diga a alguém o que você sente. Reconheça algo específico. Agradeça de forma explícita. Seja na sua família. Seja na sua equipe.
Pode parecer pequeno. Mas não é.
Produtividade constrói negócios.
Conexão constrói legado.
E que a gente não evolua tanto em desempenho a ponto de regredir em humanidade.
Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora; fundadora da Grandy Psicologia Empresarial e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras







