Eu me lembro até hoje de quando eu devia ter cerca de 15 anos de idade.
Fui a uma festa e observei um garoto com algo que, naquela época, chamávamos de celular tijolão. Ele era, sem dúvida, a atração da festa.
O celular estava engatado na lateral da cintura. As pessoas pegavam, olhavam curiosas, comentavam. E ele ali, quase sem função. Afinal, numa festa com cerca de 60 pessoas, somente ele tinha aquele aparelho.
Aquilo representava, de forma muito clara, alguém um passo à frente.
“O reskilling fala de algo ainda mais profundo. É o desenvolvimento de novas competências para assumir um novo papel e se adaptar a uma mudança maior. Aqui não é apenas evolução. Aqui é reinvenção”
Alguém conectado às mudanças que estavam começando — de forma acelerada — no mundo.
E aqui eu não entro no mérito de ele estar à frente por ter mais posses ou melhores condições financeiras. Esse não é o ponto.
O ponto é que ele podia tocar aquela nova realidade, experimentar aquilo que ainda era estranho para a maioria.
Aquele aparelho, aquela dinâmica diferente, aquele jeito novo de se comunicar já estavam presentes.
Alguns tocavam a mudança. Outros apenas olhavam.
Eu sou da época da internet discada. Na minha família, de classe média, onde as contas eram feitas na ponta do lápis todo mês, ter computador já era um privilégio. A internet, então, vinha com regras muito bem definidas.
Eu devia ter cerca de 13 anos quando meu pai liberava o acesso a partir da meia-noite, porque era o horário em que a internet “custava apenas um pulso”. Olha só a linguagem: um pulso. Fora desse horário, até por volta das cinco da manhã, era extremamente caro.
Assim como, naquela época, ter um telefone fixo em casa era sinal de status. Linha telefônica tinha valor de terreno, de patrimônio. Quem tinha uma linha era visto como alguém que investia e acumulava bens.
Essa realidade foi desconstruída muito rapidamente.
Entre meus 13, 15, 16 anos, muita coisa mudou. Muita coisa mesmo.
Eu sou de 1982 e vi, ainda muito jovem, um mundo se romper e se reconstruir.
Conforme fui crescendo, entrando na faculdade, eu vi pessoas mudarem de carreira, vi demissões, vi gente desistindo, vi gente se reinventando. Vi vidas inteiras sendo transformadas.
Um mundo cheio de oportunidades — e também de obstáculos intransponíveis para alguns.
E por que eu estou falando disso agora?
Porque estamos vivendo, mais uma vez, outro grande ponto de disrupção.
Iniciamos mais um ano ouvindo constantemente: “se atualize”, “inteligência artificial veio para acelerar tudo”.
E, diferente daquela época que eu vivi, essa nova disrupção é infinitamente maior e mais rápida.
Já estamos vendo grandes mudanças, muitas facilidades, inúmeras possibilidades.
E, diante desse novo cenário, começam a aparecer com força dois termos que talvez ainda não sejam tão usuais para todos: reskilling e upskilling .
Esses termos hoje representam algumas das maiores dores e buscas de profissionais nos sites de pesquisa.
Mas o que eles significam, de fato?
Quando falamos de upskilling, estamos falando do aprimoramento de competências que a pessoa já possui e já utiliza.
É o movimento de evoluir no mesmo caminho.
Aqui vemos muitos profissionais, gestores e empresários buscando inovar seus negócios, usar a inteligência artificial de forma estratégica, aumentar produtividade, ganhar escala, expandir.
E, junto com isso, cresce também a busca pelo desenvolvimento da inteligência emocional.
Porque não é só sobre aprender novas ferramentas — é sobre lidar com inseguranças, medos e pressões que surgem com a mudança.
Algumas pessoas, inclusive, entram num estado curioso: parecem seguir em frente, mas estão paralisadas. Pensam: “vamos ver o que vai dar… quando virar, a gente reage”.
Já o reskilling fala de algo ainda mais profundo.
É o desenvolvimento de novas competências para assumir um novo papel e se adaptar a uma mudança maior.
Aqui não é apenas evolução.
Aqui é reinvenção.
São pessoas que já entenderam que talvez precisem mudar de rota, assumir outra posição, aprender algo completamente novo. Pessoas abertas a transformações mais drásticas.
Quando olho para isso, me lembro de muitos exemplos — inclusive dentro da minha própria família — de pessoas altamente qualificadas, com cargos de destaque, que ficaram para trás porque se recusaram a encarar a mudança.
Pessoas que diziam: “ninguém vai me substituir”, “isso que eu faço não tem como acabar”.
E, mais uma vez, vemos isso se repetir.
Profissões sendo remodeladas. Cargos sendo extintos.
E, nesse processo, o mundo acaba separando dois grupos:
• os que já estão correndo atrás, mesmo inseguros, tentando entender por onde começar
• e os que se recusam, seguem fazendo tudo igual, caminhando pelo mesmo caminho, mesmo já temendo pelo próprio trabalho
Esse é um caminho sem volta.
O mundo não retorna ao que era antes.
Assim como aconteceu nos anos 1990, estamos vivendo mais uma grande transformação.
E meu alerta aqui, iniciando mais um ano, é simples e direto:
o que você tem feito diante disso?
O quanto você tem se conectado, se familiarizado, se antecipado?
O quanto tem buscado estar à frente, em vez de esperar ser chamado atenção por estar passivo ou ultrapassado?
Eu compartilho essa reflexão lembrando da minha própria história e dizendo a você:
eu sigo nesse movimento.
Atenta. Buscando. Aprendendo.
E te convidando a entrar nessa jornada comigo.
Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora; fundadora da Grandy Psicologia Empresarial e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras







