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Cynthia Lemos Quinta-feira, 16 de Abril de 2026, 05:00 - A | A

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Entre o cansaço e o propósito: a sabedoria de ouvir a alma e, ainda assim, seguir

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Cynthia Lemos nova articulista Rdnews arte interna

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Existe uma voz que, às vezes, começa a falar dentro de nós. Ela não grita, não exige, mas insiste. É uma voz que diz que estamos cansados, que estamos tristes, que repete como um sussurro contínuo: “estou tão cansado… estou tão triste”. E, curiosamente, essa voz não vem acompanhada de clareza. Ela não explica, não direciona, não aponta caminhos. Ela apenas sente.

Quando paramos e perguntamos a essa voz o que ela quer, como podemos ajudar, a resposta, muitas vezes, é desconcertante: “eu não sei”. E é nesse momento que uma outra parte de nós se levanta. Uma parte prática, funcional, comprometida com a vida acontecendo. Essa parte olha para a ausência de resposta e diz: “se você não sabe, eu preciso seguir”. E seguimos. Seguimos indo ao mercado, cumprindo compromissos, trabalhando, organizando rotinas, conduzindo responsabilidades. Seguimos vivendo.

Talvez esse seja um dos maiores paradoxos da existência humana: sentir profundamente e, ainda assim, continuar. A dor não precisa ser negada para que a vida siga, e o fato de seguir não significa que a dor deixou de existir

Mas aquela voz não desaparece. Ela apenas se recolhe. Como se estivesse sentada na calçada da vida, cansada, sem direção, mas ainda presente.

Essa experiência levanta uma pergunta inevitável: será que isso é individual ou universal? Será que, independentemente da história, da origem ou das circunstâncias, existe algo comum que atravessa todos nós? A prática clínica e a própria observação da vida mostram que sim. Ser humano é, em grande medida, carregar mundos internos. Mundos que nem sempre sabem se explicar, que sentem antes de compreender e que, muitas vezes, não precisam de solução imediata, mas de espaço.

Recentemente, ao me aprofundar na história de Jesus Cristo, encontrei um retrato poderoso dessa condição humana. Na noite que antecede sua crucificação, no Getsêmani, Ele se retira para orar e revela, com uma honestidade profunda, o peso da sua experiência: “a minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal”. Não há negação, não há tentativa de esconder o sofrimento. Há reconhecimento. Há verdade.

Naquele momento, Ele também expressa o desejo de alívio: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice”. É um pedido legítimo, humano, compreensível. Mas o que vem em seguida revela um ensinamento ainda mais profundo: “contudo, não seja como eu quero, mas como Tu queres”. Não se trata de anular a dor, mas de aprender a coexistir com ela. Não se trata de não sentir, mas de seguir, mesmo sentindo.

Talvez esse seja um dos maiores paradoxos da existência humana: sentir profundamente e, ainda assim, continuar. A dor não precisa ser negada para que a vida siga, e o fato de seguir não significa que a dor deixou de existir. Dentro de nós, convivem a parte que sente e a parte que conduz. E ambas são necessárias.

Com o tempo, torna-se possível perceber algo sutil, mas transformador: quando damos espaço para essa voz interna, mesmo que ela não saiba o que quer, algo muda. Ela não desaparece, mas se acalma. É como uma criança que não consegue explicar por que está chorando, mas que se tranquiliza quando é acolhida. Essa parte se recolhe, se aquieta, como se pudesse, finalmente, descansar.

Talvez o que nos falte, muitas vezes, não sejam respostas, mas permissão. Permissão para sentir sem julgamento, para reconhecer o que se passa dentro de nós sem a urgência de resolver tudo imediatamente.

Há também algo profundamente simbólico no ciclo da vida que se renova todos os dias. O sono não resolve tudo, mas reorganiza. Ele nos devolve ao ponto de partida, oferecendo um recomeço silencioso. Como se, a cada amanhecer, a vida nos dissesse que é possível tentar novamente.

Ainda assim, falar sobre isso nem sempre é fácil. Existe medo, existe receio, existe a crença de que sentir é sinal de fraqueza. Mas não é. Sentir é parte da experiência humana. E falar sobre isso não nos diminui, nos aproxima. Nos torna mais verdadeiros, mais conectados, mais conscientes.

Talvez, então, o convite seja simples, mas profundo: se em algum momento você também perceber essa voz dentro de você — cansada, triste, sem saber o que precisa — não tente silenciá-la imediatamente. Experimente sentar ao lado dela por alguns instantes. Sem pressa, sem cobrança, sem a necessidade de respostas rápidas.

Porque, às vezes, tudo o que essa parte precisa é deixar de ser ignorada.

Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora; fundadora da Grandy Psicologia Empresarial e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras

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