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Mauricio Munhoz Sábado, 04 de Julho de 2026, 05:00 - A | A

Sábado, 04 de Julho de 2026, 05h:00 - A | A

Maurício Munhoz

Antes que as ruas esvaziem

Maurício Munhoz

Arte Rdnews

Maurício Munhoz colunista sábado vale esta agosto de 2026

 

Boston virou "Nova Escócia" por uma semana. Foi assim que os próprios moradores passaram a chamar a cidade, depois que bandos de torcedores escoceses de kilt tomaram conta dos bares e parques para acompanhar a Copa. Ninguém reclamou. Vídeos de escoceses cantando em pubs e sendo recebidos em casas de desconhecidos viralizaram e, segundo relatos locais, era raro ver tanta alegria pura em uma mesma semana nas redes.

Não foi só Boston. Um jovem alemão apelidado de "Freddy" transformou sua viagem de carro pelos Estados Unidos em fenômeno da internet só por se maravilhar com coisas banais: um Buc-ee's, um Waffle House de madrugada, o tamanho de uma casa de classe média americana. Torcedores suecos se apaixonaram por molho ranch. Argelinos posaram orgulhosos diante de uma bandeira do seu país desenhada na grama de uma cidadezinha do Kansas. Um comediante conhecido por não poupar críticas aos Estados Unidos dedicou um segmento inteiro do seu programa a agradecer aos turistas por lembrarem o país do que ele tem de bom.

O encantamento não veio de nenhuma campanha institucional. Não houve verba publicitária, nem estratégia de marketing turístico. Vieram de gente comum documentando encontros comuns e, por serem espontâneos, tiveram um poder de convencimento que nenhuma propaganda de governo jamais teria

Há três semanas, esta coluna mostrou o lado sombrio dessa Copa: as prisões do ICE, os vistos negados, o ódio nas redes sociais batendo recorde. Nada disso deixou de ser verdade. Mas a mesma competição que expôs o pior também abriu uma fresta para o melhor, e talvez seja precisamente esse contraste o retrato mais honesto do momento americano.

O que os vistos negados não conseguem barrar é o instante em que um motorista de aplicativo em Seattle recomenda o melhor churrasco da cidade a um torcedor belga. Isso não se decide em audiência de imigração.

Pesquisadores de comunicação apontam algo relevante nesse fenômeno: o encantamento não veio de nenhuma campanha institucional. Não houve verba publicitária, nem estratégia de marketing turístico. Vieram de gente comum documentando encontros comuns e, por serem espontâneos, tiveram um poder de convencimento que nenhuma propaganda de governo jamais teria. Os Estados Unidos passaram décadas exportando uma versão editada de si mesmos, do jazz a Hollywood. A Copa, pela primeira vez em muito tempo, exportou a versão não editada, e ela também emocionou.

Há algo de familiar nisso para quem mora em Mato Grosso. Cuiabá viveu o mesmo em 2014: casas abertas, famílias que hospedaram estranhos de países que mal sabiam localizar no mapa, uma cidade que descobriu, por uma Copa, que tinha mais generosidade do que imaginava ter.

Em pouco tempo, os últimos torcedores embarcarão de volta para casa. As ruas de Boston vão perder o som das gaitas de fole. E é bem possível que, nas redes, aqueles mesmos americanos que hoje riem e abraçam estrangeiros nas calçadas voltem a rolar o feed direto para o próximo motivo de bloqueio. Mas por algumas semanas, o país se permitiu ser visto, e gostou do que viu refletido de volta.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

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