A Copa do Mundo começa hoje. Quarenta e oito seleções, três países-sede, milhões de viajantes. A maior da história, dizem. Talvez também a mais contraditória.
Quando Jules Rimet idealizou o torneio, em 1930, a ambição era quase utópica: reunir os povos em torno de uma bola, num século que mal saíra de uma guerra e já ensaiava a próxima. O futebol seria a língua franca da fraternidade. Um território neutro onde adversários se enfrentariam sem se destruírem. A Copa nasceu, portanto, como gesto político.
Quase um século depois, o gesto parece ter perdido a sintaxe.
E os Estados Unidos, anfitriões de 2026, conhecem bem essa sintaxe. Já sediaram uma Copa, em 1994, e o gesto tinha sentido histórico preciso. O Muro de Berlim caíra havia cinco anos, a União Soviética se dissolvera, e o mundo respirava o que Fukuyama, com otimismo apressado, chamou de fim da História. A Fifa levou seu torneio ao país que se sagrava vencedor da Guerra Fria, justamente o que mais resistia ao futebol. Era um símbolo: o esporte do mundo entrando pela última fronteira que faltava. A globalização tinha mascote, hino e estádio lotado.
O esporte sempre foi instrumento de poder; a diferença é o que ele projeta. Em 1994, os EUA usaram a Copa como soft power de abertura: "venham, o mundo é nosso anfitrião". Em 2026, a mesma Copa exibe um soft power às avessas: a mensagem não é de acolhimento, mas de triagem
Trinta e dois anos depois, o mesmo país recebe o mesmo torneio. Mas o sentido se inverteu.
Às vésperas da abertura, o árbitro somali Omar Artan, eleito o melhor do continente africano, foi impedido de entrar nos EUA ao desembarcar em Miami, mesmo com visto válido e passaporte diplomático, e acabou excluído da lista de árbitros. O Iraque viu um fotógrafo barrado em Chicago e seu principal atacante retido por cerca de sete horas. O Irã teve sua cota de ingressos revogada dias antes do apito inicial. Haiti, Senegal, Uzbequistão: a lista de delegações com entraves migratórios cresce a cada dia.
A Fifa lava as mãos. Diz que vistos e fronteiras são assunto soberano de cada país-sede. Foi a mesma Fifa que, em 1994, vendia o oposto: o futebol como o lugar onde as fronteiras se dissolvem. Tecnicamente, a entidade tem razão. Politicamente, é uma abdicação.
Aqui está o ponto que costuma escapar. O esporte sempre foi instrumento de poder; a diferença é o que ele projeta. Em 1994, os EUA usaram a Copa como soft power de abertura: "venham, o mundo é nosso anfitrião". Em 2026, a mesma Copa exibe um soft power às avessas: a mensagem não é de acolhimento, mas de triagem. O passaporte do torcedor importa menos que o passaporte do cidadão. E a bandeira hasteada no estádio não garante passagem na alfândega.
Não se trata de demonizar um país. Toda nação tem o direito de controlar suas fronteiras, e a questão migratória é genuinamente complexa, atravessada por segurança, soberania e medo. O ponto é outro. Quando um evento se vende como universal, assume um compromisso. Não pode pregar o encontro e praticar a seleção de quem chega.
E aqui cabe a pergunta incômoda: o que muda entre uma Copa que abre e uma Copa que fecha? Muda a ideia de mundo que cada uma carrega. A de 1994 acreditava que as nações convergiam. A de 2026 admite que elas se afastam, e usa o muro como política, não como exceção.
O Brasil observa de longe, com a ambivalência de sempre. Vimos em 1994 o tetra nascer naquele mesmo solo; hoje conhecemos por dentro o que é ser revistado com desconfiança ao desembarcar. Há uma fila invisível que separa quem entra de quem pede licença.
Talvez a imagem que defina esta Copa não seja o gol de placa nem a taça erguida. Seja a do árbitro somali, de mala na mão, refazendo o caminho de volta, convidado de honra de uma festa que, no fim, não o deixou entrar.
A mesma taça. Um mundo mais frio.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia







