Na última quarta-feira, a OpenAI anunciou que o ChatGPT passará a exibir, nas eleições de 2026, a contagem oficial de votos no Brasil e nos Estados Unidos, por meio de uma parceria com a agência Associated Press. A notícia foi recebida com entusiasmo por uns e ceticismo por outros. Como quase tudo que envolve inteligência artificial, o debate rapidamente descambou para os extremos: ou a tecnologia vai salvar a democracia, ou vai destruí-la. Nenhuma das duas visões ajuda muito.
Vale a pena respirar fundo e pensar com mais cuidado.
Há potencial real nessa aproximação entre IA e processo eleitoral. Um sistema capaz de distribuir informações precisas, em tempo real, sobre a apuração de votos, e fazê-lo em linguagem acessível a milhões de pessoas, pode ser um aliado valioso da transparência democrática. Num país de dimensões continentais como o Brasil, em que o acesso à informação de qualidade ainda é profundamente desigual, ferramentas assim têm o poder de incluir. O eleitor de uma cidade pequena no interior de Mato Grosso, que consultará seu celular na noite de 4 de outubro, pode ter acesso ao mesmo nível de informação que um analista político de Brasília. Isso não é pouco.
O TSE também avançou. A resolução de março de 2026 que regula o uso de IA nas campanhas, com inversão do ônus da prova em casos de manipulação digital e responsabilização solidária das plataformas, posiciona o Brasil entre os países que mais progrediram nesse campo. É um avanço institucional que merece reconhecimento.
Mas as perguntas desconfortáveis precisam ser feitas.
Quando um sistema privado, com fins comerciais, com sede em São Francisco, com interesses que nem sempre coincidem com os do eleitorado brasileiro, se torna intermediário da informação eleitoral, que garantias existem sobre o funcionamento dos seus algoritmos? Quem audita os critérios que definem o que aparece primeiro, o que é destacado, o que é omitido? Transparência algorítmica não é um detalhe técnico: é uma exigência democrática.
Há também a questão dos dados. Cada interação eleitoral com uma plataforma de IA gera informação comportamental de enorme valor: o que o eleitor pergunta, como pergunta, a que horas, sobre quais candidatos. Esse rastro digital pode alimentar campanhas de microtargeting com uma precisão que as regulamentações atuais ainda não alcançam. A lei protege o sigilo do voto. Mas quem protege o caminho até ele?
A tecnologia, como sempre, é neutra no sentido mais restrito da palavra: ela amplifica o que já existe. Se usada com governança robusta, transparência e respeito à soberania do dado do cidadão, pode fortalecer a democracia. Se tratada apenas como oportunidade de negócio, ou como vitrine de inovação, pode aprofundar assimetrias que já nos preocupam.
A pergunta que o Brasil precisa fazer não é se a IA tem lugar nas eleições. Ela já está lá. A pergunta é quem define as regras do jogo, e se essas regras estão à altura da dimensão do que está em jogo.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia







