Há guerras que começam com bombas e outras que começam com mapas. A que hoje sacode o mundo mistura as duas coisas e passa, inevitavelmente, por um gargalo geográfico chamado Estreito de Ormuz. Um nome que, até pouco tempo atrás, soava distante, mas que agora ecoa diretamente no bolso de quem abastece o carro em qualquer cidade brasileira.
O conflito envolvendo Estados Unidos e Irã, intensificado desde fevereiro de 2026, ganhou contornos dramáticos quando Teerã passou a restringir — na prática, bloquear — a passagem de navios pelo estreito. E não se trata de qualquer rota: cerca de 20% de todo o petróleo mundial passa por ali. Quando esse fluxo é interrompido, o efeito é quase imediato: menos oferta, mais incerteza e preços em disparada.
No fim, a crise do Estreito de Ormuz revela algo maior do que uma disputa regional. Mostra como o mundo ainda gira, literalmente, em torno do petróleo — e como um estreito de pouco mais de 30 quilômetros pode estrangular economias inteiras
E eles já dispararam. O barril do Brent ultrapassou os US$ 111, acumulando altas sucessivas em meio ao impasse. Não é apenas um número de mercado: é o prenúncio de inflação, desaceleração econômica e tensão política em cadeia. Porque petróleo caro é gasolina cara — e gasolina cara é um imposto invisível sobre o cotidiano.
No front diplomático, o cenário é tão volátil quanto o militar. Houve tentativas de negociação, planos de paz e até breves tréguas. Mas o que se vê agora é um impasse. Os Estados Unidos rejeitaram propostas recentes, enquanto o Irã condiciona a reabertura do estreito a concessões que o Ocidente considera inaceitáveis.
Há ainda um elemento novo: a tentativa iraniana de cobrar uma espécie de “pedágio” pela passagem de navios — algo que, se institucionalizado, pode encarecer estruturalmente o preço da energia no mundo.
Nos bastidores, todos sabem que a guerra prolongada é insustentável. Tanto Washington quanto Teerã têm incentivos para um acordo, seja por pressões econômicas internas, seja pelo risco de colapso energético global. Ainda assim, o ceticismo domina: o mercado já não acredita que as negociações de paz sejam suficientes, no curto prazo, para normalizar o fluxo de petróleo.
E o Brasil nisso tudo?
Embora distante geograficamente, o país não está imune. O Brasil até produz petróleo, mas os preços internos seguem a lógica internacional. Se o barril sobe lá fora, sobe aqui também. O resultado aparece nas bombas, no frete, nos alimentos e, por fim, na inflação. É um efeito dominó silencioso, mas implacável.
Além disso, há um paradoxo: o Brasil pode até se beneficiar parcialmente como exportador de petróleo, aumentando receitas externas. Mas esse ganho é seletivo e não compensa o impacto difuso sobre o custo de vida da população. Em outras palavras, o país ganha em dólar e perde em real.
No fim, a crise do Estreito de Ormuz revela algo maior do que uma disputa regional. Mostra como o mundo ainda gira, literalmente, em torno do petróleo — e como um estreito de pouco mais de 30 quilômetros pode estrangular economias inteiras.
Enquanto diplomatas negociam e generais calculam riscos, o resto do mundo faz contas. No posto de gasolina, principalmente.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia







