Existe um Brasil que só aparece em junho. Some no resto do calendário e ressurge, pontual, quando a bola rola pela primeira vez num Mundial. É um país que canta o hino com a mão no peito, pinta a rua de amarelo e, por noventa minutos, esquece a fila do SUS, o boleto e a desavença com o vizinho.
Nelson Rodrigues nos deu duas chaves que envelheceram pouco. Chamou o futebol de "pátria de chuteiras" e batizou nossa insegurança crônica de "complexo de vira-latas". As duas coisas convivem em desconforto. Em campo, projetamos a grandeza que não conseguimos sustentar nas instituições; na arquibancada da alma, desconfiamos que não somos bons o bastante. A Copa é o ritual em que essas duas convicções se encontram e brigam.
Talvez seja essa a reflexão mais honesta às vésperas da bola rolar: a Copa não vai nos dizer se somos grandes. Ela vai nos mostrar, em tempo real, como nos enxergamos. O hexa, se vier, será celebrado como redenção; se não vier, será lido como sentença
O dado nu é simples: são 24 anos sem título. O último veio em 2002, num mundo sem smartphone, sem PIX, sem boa parte dos eleitores de hoje. Entre lá e cá houve o 7 a 1: não uma derrota, mas um trauma fundador, a tarde em que o imaginário ruiu em rede nacional. Desde então, a seleção deixou de ser promessa de glória para virar gatilho de ansiedade coletiva.
E há o pano de fundo de 2026. Pela primeira vez a Copa é dividida por três países, e o Brasil joga no território de uma potência com quem o país anda em atrito. Para completar o quadro de símbolos, é um técnico italiano quem comanda a mais brasileira das instituições. Há uma ironia fina aí: terceirizamos a esperança para um estrangeiro porque deixamos de confiar na nossa própria fórmula. O vira-latismo, atualizado.
O ponto é que o futebol funciona como espelho, não como causa. Quando o país está dividido, a torcida racha. Quando a economia aperta, a Copa vira fuga. A camisa amarela, que já foi consenso, hoje carrega disputa simbólica que nada tem a ver com o gramado. Projetamos na seleção o Brasil que gostaríamos de ser e descontamos nela o Brasil que tememos ter virado.
Talvez seja essa a reflexão mais honesta às vésperas da bola rolar: a Copa não vai nos dizer se somos grandes. Ela vai nos mostrar, em tempo real, como nos enxergamos. O hexa, se vier, será celebrado como redenção; se não vier, será lido como sentença. Em ambos os casos, falaremos de nós mesmos fingindo falar de futebol.
E é por isso que vale a pena assistir. Não pelo placar, mas pelo retrato. De quatro em quatro anos, o Brasil se senta diante do espelho, e o que ele vê raramente é só um jogo.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia







