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Mauricio Munhoz Sábado, 06 de Junho de 2026, 05:00 - A | A

Sábado, 06 de Junho de 2026, 05h:00 - A | A

Maurício Munhoz

O país de quatro em quatro anos

Mauricio Munhoz

Arte Rdnews

Maurício Munhoz colunista sábado vale esta agosto de 2026

 

Existe um Brasil que só aparece em junho. Some no resto do calendário e ressurge, pontual, quando a bola rola pela primeira vez num Mundial. É um país que canta o hino com a mão no peito, pinta a rua de amarelo e, por noventa minutos, esquece a fila do SUS, o boleto e a desavença com o vizinho.

Nelson Rodrigues nos deu duas chaves que envelheceram pouco. Chamou o futebol de "pátria de chuteiras" e batizou nossa insegurança crônica de "complexo de vira-latas". As duas coisas convivem em desconforto. Em campo, projetamos a grandeza que não conseguimos sustentar nas instituições; na arquibancada da alma, desconfiamos que não somos bons o bastante. A Copa é o ritual em que essas duas convicções se encontram e brigam.

Talvez seja essa a reflexão mais honesta às vésperas da bola rolar: a Copa não vai nos dizer se somos grandes. Ela vai nos mostrar, em tempo real, como nos enxergamos. O hexa, se vier, será celebrado como redenção; se não vier, será lido como sentença

O dado nu é simples: são 24 anos sem título. O último veio em 2002, num mundo sem smartphone, sem PIX, sem boa parte dos eleitores de hoje. Entre lá e cá houve o 7 a 1: não uma derrota, mas um trauma fundador, a tarde em que o imaginário ruiu em rede nacional. Desde então, a seleção deixou de ser promessa de glória para virar gatilho de ansiedade coletiva.

E há o pano de fundo de 2026. Pela primeira vez a Copa é dividida por três países, e o Brasil joga no território de uma potência com quem o país anda em atrito. Para completar o quadro de símbolos, é um técnico italiano quem comanda a mais brasileira das instituições. Há uma ironia fina aí: terceirizamos a esperança para um estrangeiro porque deixamos de confiar na nossa própria fórmula. O vira-latismo, atualizado.

O ponto é que o futebol funciona como espelho, não como causa. Quando o país está dividido, a torcida racha. Quando a economia aperta, a Copa vira fuga. A camisa amarela, que já foi consenso, hoje carrega disputa simbólica que nada tem a ver com o gramado. Projetamos na seleção o Brasil que gostaríamos de ser e descontamos nela o Brasil que tememos ter virado.

Talvez seja essa a reflexão mais honesta às vésperas da bola rolar: a Copa não vai nos dizer se somos grandes. Ela vai nos mostrar, em tempo real, como nos enxergamos. O hexa, se vier, será celebrado como redenção; se não vier, será lido como sentença. Em ambos os casos, falaremos de nós mesmos fingindo falar de futebol.

E é por isso que vale a pena assistir. Não pelo placar, mas pelo retrato. De quatro em quatro anos, o Brasil se senta diante do espelho, e o que ele vê raramente é só um jogo.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

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