Arte e Cultura

Sábado, 02 de Novembro de 2019, 11h:43 | Atualizado: 04/11/2019, 11h:05

musicoterapia

Autistas quebram barreiras por meio da música e emocionam com talentos vídeos

 

Rodinei Crescêncio

Afeto entre professor e aluno � efeito de confian�a e muito respeito um pelo outro

Davi e Paulinho trocam afeto e confiança. O pai disse que musicalização foi construção de anos até evolução  de hoje

A música, para qualquer pessoa, é uma fonte de relaxamento e proporciona melhorias para a saúde da mente. No caso dos autistas, a musicoterapia potencializa também a evolução do raciocínio e da atenção nas diferentes partes do cérebro.

Assim, atividades como a aula de música podem indicar possibilidades amplas de trabalhos terapêuticos que envolvem o desenvolvimento da comunicação, do aprendizado e da interação social.

A reportagem foi acompanhar de perto uma aula na escola de música Bateras Beat, que há muito se comenta sobre aulas personalizadas e dedicadas a este público, inclusive, o infantil. O professor Paulinho Nascimento, que é músico renomado na Capital, permitiu que o acompanhasse um de seus momentos com o pequeno Davi, de 12 anos, que adora as aulas que acontecem uma vez na semana. 

Rodinei Crescêncio

Em entrevista ao Rdnews, professor conta trajet�ria musical e como m�sica � transformadora

Em entrevista ao Rdnews, professor conta trajetória musical e como música é transformadora para todas as pessoas

Tranquilo, já na recepção, Davi se anima para o que irá aprender no dia e fica cantarolando algumas músicas, além de batucá-las no sofá. Quando o professor Paulinho o chama pelo nome, sem demora, ele se levanta e acelera o passo para a sala onde costuma praticar bateria e canto.

Logo se senta na cadeira, posiciona os pézinhos nos pedais e coloca o fone de ouvido, ao demonstrar certo prazer e ansiedade para o início da música. Diz repetidamente ao professor “tocar, tocar” e “cantar, cantar”. Paulinho se posiciona também, interage com o aluno como um amigo, após abraços de afeto e confiança – todos retribuídos, e a aula começa.

Com a prática musical, as respostas neurofisiológicas são transformadas em estímulos. Dessa maneira, se comparadas com as neurotípicas, as pessoas com autismo tendem a apresentar uma diminuição significativa dessa ativação para palavras em regiões centrais do córtex parietal, que é a área responsável em receber os estímulos vindos do ambiente externo. 

Foto divulgação

Davi se apresenta no Rock Fest e emociona equipe de Bateras Beat e familiares

Davi se apresenta no Rock Fest e emociona equipe de Bateras Beat e seus familiares. Menino revelou talentos

O professor destaca que, além de Davi, há mais cinco alunos em diferentes espectros de autismo. Com o tempo, a procura tem crescido para estas aulas, assim como a evolução psico e musical de cada aluno. “Todos são muito atenciosos e dedicados. Os autistas não são diferentes nisso, amam a música e reagem a ela instantaneamente. Houve dias em que Davi chegou desanimado ou com um humor diferente e saiu daqui totalmente diferente”, comenta Paulinho.

Nascimento também diz que vive em constante contato não apenas com os familiares das crianças, mas  com outros profissionais como psicólogos, terapeutas e fonoaudiólogos fazendo das aulas uma parte do trabalho conjunto. "Dessa forma conseguimos alcançar, por vezes, o mesmo objetivo, para melhorar a fala ou ajudar o autista a responder ou expressar algum sentimento. É claro que, com a música, aprendemos as técnicas musicais, mas vamos além dela.  Acessamos a nós mesmos e acessamos o outro. Com essa velocidade das coisas, às vezes, nos tornamos um pouco insensíveis à rotina, mas com a música é possível atingir patamares mais profundos", revela o orientador. 

No decorrer das atividades, olhando fixamente nos olhos do professor, o aluno presta atenção nos comandos e exercícios. Ao ler a partitura para bateria, além das baquetas, ele também usa uma baqueta de vassourinha nos momentos certos da canção. Uma das letras escolhidas para ele cantar é "Cinco Patinhos", versão em português da letra "Five little ducks".

Quando o aluno termina de tocar um trecho difícil da partitura, Paulinho logo se levanta, diz que a comemoração tem que ser feita. “Levanta, Davi. Bora, bora!”, anima o garoto. Saem correndo pela sala, de um lado para o outro, os sorrisos se afrouxam e a motivação cresce. Voltam e, a cada tentativa ou acerto, a comemoração se repete. “Isso eu aprendi com o Rogério, pai do Davi. A cada acerto, por mais bobo que aparentasse ser o feito, ele comemorava com satisfação. Desse jeito, o menino se motiva e quer continuar até que outra comemoração seja feita. Funciona muito bem”, garante. 

Rodinei Crescêncio

Aula � realizada uma vez na semana e revela talento do pequeno

Encontro é uma vez na semana e revela talento do pequeno, menino faz leitura de partituras, canta e toca em aula

Entre as ponderações do professor nas melhorias perceptíveis, ele destaca que a musicalização acontece também através das participações livres e com a exploração de instrumentos e de improvisações, isso porque elas podem propor oportunidades de auto-expressão e de vivências criativas dos alunos, como mais experiências de comunicação e interação com outras pessoas, pois nas aulas há a necessidade do diálogo, o que os alunos tendem a levar para a vida depois.

Poder da música

Sensível às necessidades de cada aluno, Paulinho acrescenta que a música é uma linguagem universal e que melhora qualquer pessoa que se dedique a ela, seja autista, quem passa por ansiedade e outras questões. “Em tempos como os que vivemos e de muita tecnologia, as crianças estão imersas na virtualidade e a música os retorna para a observação não apenas dos instrumentos, mas para a superação das dificuldades, para o esforço diário e o prazer de uma atividade que faz bem de dentro para fora”, comenta. 

A música nos deixa mais humanos, pois movimenta sentimentos de todos os tipos dentro da gente e as crianças, que desde cedo se dedicam a ela, se tornam mais sensíveis a isso

Paulinho Nascimento

Pai de uma menina, sua filha estuda na mesma escola em que ele atua diariamente. “São inúmeros os benefícios, mas, além da parte mais humana que é trabalhada, há uma quebra gigantesca da timidez. A música nos deixa mais humanos, pois movimenta sentimentos de todos os tipos dentro da gente e as crianças que desde cedo se dedicam a ela, se tornam mais sensíveis a isso”, acredita.

Família na batalha da inclusão

Pedro, que tem 13 anos, e com onze meses de diferença - é irmão de Davi. Ele esboça um sorriso bobo quando elogiam o caçula. O mais velho, que também faz aulas de música, já sabe tocar quatro instrumentos. Quando foi matriculado na escola, na época, o pai da dupla questionou se havia algum professor que pudesse atender seu filho especial, foi quando indicaram Paulinho. 

O pai, Rogério Fabian Iwankim, aceitou conversar com a reportagem e se revelou um defensor da causa, além de constante pesquisador do autismo. Dessa forma, ele contribui não apenas com o filho – mas com profissionais que venham a conviver com ele e outros autistas. Rogério também já deu palestras sobre o tema e, segundo informações do professor Paulinho, levou até apostilas para que entendesse melhor sobre o tema.  

Galeria: Música é poderosa

Arquivo pessoal

Fam�lia de Davi se re�ne em foto e sorri feliz em momento feliz

Família reúne em foto e sorri em momento de descontração com filhos

O professor de música, por sua vez, nunca havia atuado com nenhum autista – mas é conhecido pela sua sensibilidade musical e por saber lidar bem com crianças, por isso, aceitou o desafio. Nesta trajetória, aprendeu muito para ensinar.

O pai de Davi o ajudou. Rogério, por sua vez, diz que só foi entender o que realmente era o autismo quando seu segundo filho havia completado nove meses. Desde então, se dedica em constantes pesquisas. “Costumo dizer que nós não transformamos o autista, nós apenas nos transformamos. Os autistas são pessoas mais sensíveis em seus sentidos, exacerbados, em um exagero de percepções. Se para você um barulho pode ser comum, às vezes, para ele pode parecer um show de rock”, exemplifica o pai de Davi.

Por isso, para ele, é um grande avanço Davi tocar bateria. Revela que se emocionou quando nas apresentações organizadas pela escola para que os alunos mostrem o que aprenderam. Davi se apresentou no Bateras Beat Inconcert. “Ele tem um certo trauma com salas de cinema, então não entra em ambientes assim. Quando foi se apresentar pela primeira vez no teatro, tive de chegar uma hora antes e preparar ele, passar pela passarela escura. Ele se estressava. Saí com ele e voltei, só assim ele se habituou. Na segunda vez, ele já havia aprendido que a primeira experiência havia sido positiva, só precisei chegar vinte minutos antes”, lembra. 

Foto divulgação

Garoto tem trauma de cinema e salas com p�blico, mas ap�s musicaliza��o e carinho de pai se apresentou e recebeu aplausos

Apesar do trauma de salas com público, após se apresentar e carinho de pai para subir ao palco, ele recebeu aplausos

Rogério ainda revela que no ambiente escolar, por muitas vezes, quando precisava matricular o filho, ele foi recebido com cara feia.

No entanto, extende elogio ao Colégio Coração de Jesus, onde relata que a equipe tem feito um trabalho interessante na trajetória de Davi, além de recebê-los com sorrisos desde o início, quando ele disse que a criança era autista. “Meu filho pode fazer de tudo, acredito que o que faz a diferença é isso. Não desisto quando ele tenta, eu me motivo quando ele tenta, independente se acerta ou erra. Funciona como em um esporte, com o Pedro, por exemplo, o caminho é diferente. A comemoração é feita quando ele acerta a bola na cesta. No caso de Davi, é feita quando ele se interessa pela bola, bate ela no chão e arremessa”, descreve.

De volta à aula

 Antes de entrar na sala onde Davi pratica, ainda na recepção, o irmão de Davi - aguarda junto com a Edvana, que é a moça quem cuida do pequeno há cinco anos. No fim, o mais jovem deles, chama para mostrar o que aprendeu no dia. Pedro vai atrás e aproveita para fazer o registro no celular.

Após acompanhar um pouco da aula, o deixou uma câmera na sala para saber como tudo acontece sem a presença da reportagem. Toca uma música inteira, canta e demonstra total coordenação na troca de baquetas para fazer a percussão. No final, indaga. “Oi, tudo bem? Edvana, você gostou?”, diz satisfeito ao se entregar aos abraços de parabenização. Assista o trecho final dessa experiência com a animação de Davi. 

 

Postar um novo comentário

Comentários (4)

  • Paulo Mattos | Quarta-Feira, 06 de Novembro de 2019, 12h06
    0
    0

    Essa reportagem me tocou profundamente, como tocam a todos aqueles que possuem familiares ou amigos com o espectro autista. Meu neto, Felipe, é autista e, atualmente, com sete anos de idade, tem demonstrado uma capacidade evolutiva muito grande de interação com a música. Minha filha passou a perceber, tempos atrás, que o Felipe se intera perfeitamente com determinados tipos de músicas e, muito principalmente por suas sonoridades e manifestações instrumentais (ele presta muita atenção nos instrumentos, como guitarra, bandolim, saxfone, bateria, etc) e embora provavelmente ainda não saiba exatamente que tipo de instrumento produz aquele som, sente atraído por eles de uma forma bastante significativa. Percebe-se que a musicalidade, os instrumentos, possuem um poder de interação do Felipe não só com a música, mas também com o mundo ao seu redor, e é tão gostoso ver a felicidade dele nesses momentos. Uma excelente reportagem, que, inclusive, ajuda a direcionar pais de crianças e jovens portadores desse espectro ao encontro dessa outra forma de aprendizado e interação social.

  • Marlene Covezzi | Terça-Feira, 05 de Novembro de 2019, 10h55
    1
    0

    Conheci a família quando o Pedro tinha 6 meses,e me adentrei a esse mundo que fui babá dos dois por quase 9 anos lindíssimos,a música pra mim e para as crianças foram os maiores momentos de interação e sempre fez o canal das nossas brincadeiras...Vê-los se desenvolverem a cada dia para mim é de imensa alegria! Sempre que posso estou com eles,sempre serei a "Lene"deles. Amo-os muito!!! E que bom que nós nos encontramos!😍

  • Anoura gertrudes de paula Carvalho | Segunda-Feira, 04 de Novembro de 2019, 06h12
    1
    0

    Parabéns ao Davi, aos pais dele que não medem esforços, ao professor que faz com amor e dedicação. O Davi é uma pessoa maravilhosa que tive o prazer de conhecer fez Equoterapia com agente na Sociedade hípica cuiabana.

  • Nilson Fernando Gomes Bezerra | Domingo, 03 de Novembro de 2019, 12h12
    0
    0

    Deus não escolhe os preparados. Ele prepara os escolhidos. O maior aprendizado é dos pais que tem que, a cada dia, entendem que não devem seguir o caderninho de "como criar um filho" e superar os desafios de aprender a ser pais desta criança linda e super especial, construindo uma histórica única. Parabéns pela luta diária!!!

Matéria(s) relacionada(s):

Cidinho é o que mais agrega ao Senado

cidinho 400 curtinha   Depois de Blairo Maggi, o nome do empresário e ex-senador Cidinho Santos (foto) seria hoje o que mais agregaria a classe política e o agronegócio em torno de uma candidatura ao Senado numa eventual eleição suplementar. Conta com simpatia do senador Jayme Campos e do governador Mauro Mendes,...

Prova da lisura de membros do Gaeco

paulo prado 400 curtinha   O resultado da auditoria do TCE-MT sobre a prestação de contas do Gaeco das verbas secretas, entre 2012 e 2017, assegurando a sua legalidade, resgata a credibilidade, lisura e reputação ilibada dos membros que atuaram na época nesse braço investigativo do MPE, como o procurador e...

Posse 2 dias antes do possível retorno

maluf 400 curtinha   Guilherme Maluf (foto), que nem esquentou direito a cadeira de conselheiro, vai tomar posse na presidência do TCE-MT dois dias antes do STJ julgar um recurso que tende a suspender as medidas cautelares e definir pelo retorno ao Pleno dos cinco conselheiros afastados há dois anos. A solenidade acontece no...

Alerta sobre hanseníase nos presídios

alexandre bustamante curtinha 400   Duas secretarias do TCE ingressaram com representação contra duas secretarias de Estado. As de Controle Externo de Educação e Segurança Pública e de Saúde e Meio Ambiente acionaram no próprio Tribunal as pastas de Segurança Pública,...

Reunião pra complô desmoraliza Abílio

abilio 400 curtinha   A considerar as imagens de circuito interno de vídeo do hospital privado São Benedito, exibidas nesta quinta, durante sessão na Câmara de Cuiabá, a situação de Abílio Brunini (foto) se complica mais ainda. Investigado pela Comissão de Ética por reincidentes...

Contra mudar multas do Fundecontas

mauro mendes 400 curtinha   O governador Mauro (foto) vetou a inclusão de um dispositivo no artigo 2º da lei de 2005 que criou o Fundo de Reaparelhamento e Modernização do TCE. Essa alteração foi aprovada pela Assembleia na sessão de 29 de outubro e, na prática, iria retirar e dar outro...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Como você avalia a decisão do Supremo de suspender prisão imediata após julgamento em segunda instância?

Concordo

Discordo

Tanto faz

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.