Esporte e Lazer

Sábado, 14 de Julho de 2018, 07h:41 | Atualizado: 15/07/2018, 07h:59

Brincadeira de rua

Resistentes ao tempo, as pipas ajudam crianças a socializar e desenvolver - fotos

Gilberto Leite

Z� da Pipa

Em um dos bairros mais famosos da Baixada Cuiabana, região do CPA, Zé das Pipas, um apaixonado pela diversão ajuda a manter a tradicional brincadeira

Entre o céu azul, imensidão. Cores surgem no fim da tarde. De longe, alguns pontos verdes, amarelos e vermelhos, todos dançantes. A criançada grita “dá linha”, “dá linha”. Sempre é uma correria e pra quem não conhece as gírias, soa estranho, “torou”, “torou”, “torou”. Quer dizer que alguma pipa desceu girando que nem bailarina. Quando o vôo é interrompido, vira disputa, todo mundo sai correndo para pegar.

Com o passar dos anos, tem se tornado raro crianças brincarem na rua. O que ainda, nos anos 90, era forma de entretenimento, após atravessar séculos e por vezes até milênios, perde espaço para a tecnologia. A pipa é uma das únicas brincadeiras que resistem ao tempo, por ainda haver quem defenda a prática como saudável, barata e cheia de significados.

Dá linha, dá linha... torou, torou, torou...

Grito de crianças ao soltar pipa

Pipa, papagaio, pandorga ou raia. Os nomes são distintos, mas se referem ao mesmo invento desde a China antiga que, naquele tempo, era usado como sinalização militar. Outro advento histórico é que nos Estados Unidos, no ano 1752, o cientista Benjamin Franklin usou a pipa com uma linha de aço para testes de pára-raios. Talvez por isso, os formatos do brinquedo sejam diversos. As experimentações passearam pelo tempo, assim como ela atravessa o vento, seja como estratégia de guerra, ferramenta científica ou brinquedo. 

No modelo contemporâneo, ela é feita de varetas e papel, além de uma rabiola na maior parte das vezes de sacola plástica, para proporcionar estabilidade, aerodinâmica e equilíbrio. Voa contra a força do vento e é guiada com uma linha. Quem a segura pode dar diferentes giros e manobras. Existem tantas técnicas diferentes, que viraram atração em campeonatos para exibir os que alçarem o melhor vôo e desempenho. 

Forma de comunicação

Gilberto Leite

Z� da Pipa

Pipas coloridas feita por Zé da Pipa à venda na loja do CPA; ele também vende kits para montar e ensina a fazer pipa

Nem só na China, há milênios atrás, a pipa serviu como mensagem. Há quem diga que até hoje, em cidades como Rio de Janeiro, ela envia mensagens para quem está no topo das favelas. Em um dos bairros mais famosos da Baixada Cuiabana, na região do CPA, um apaixonado por pipas mantém a tradição. Além de fabricar para o entretenimento, ele deixa sua marca registrada no papel de seda com um carimbo como forma de publicidade.

Para o Zé da Pipa, 65 anos, como é conhecido pela gurizada, sua maior divulgação é essa. Ele explica à reportagem que, por causa das pipas que levam seu nome e número de telefone, já recebeu ligações de lugares distantes. “Tem sempre quem me liga perguntando onde fica minha loja. Às vezes dizendo que a pipa caiu no quintal em bairros como Dr. Fábio, Osmar Cabral e outros”, explica. Para as pipas serem encontradas em bairros tão distantes do CPA, ele vê duas possibilidades. A primeira é que as pipas conseguem voar por muito tempo, sem ficar danificadas. A outra, é que pessoas que encontram a pipa caída pelos quintais ou pelas ruas a estejam amarrando em outra linha e continuam alçando-as, até que elas cheguem muito longe.

José Butakka, o Zé da Pipa, há 30 anos se dedica à atividade de confeccionar esse brinquedo que é um dos preferidos das crianças e é, também, um dos mais acessíveis pelo baixo custo. Há 5 anos, ele resolveu abrir um negócio especializado. O kit completo para fazer uma pipa - com papel, linha, cola, varetas e até a tesoura -, sai por menos de R$ 10.  “Depois que aposentei pensei no que fazer. Resolvi fabricar pipas em casa. Quando percebi a procura, aluguei um espaço maior”, conta.

Quando chegam as férias escolares, principalmente no meio do ano, a procura por pipas aumenta. “Nas temporadas de férias vendo mais de 500 pipas, além da rabiola, linha, carretilhas e outros acessórios necessários. Já participei de vários eventos como oficina na Universidade Federal para centenas de crianças e outros monitores, na sede da empresa Leila Maluf e eventos recreativos em escolas”, lembra.

Precauções e pipódromo 

Zé da Pipa reconhece que são necessários cuidados para a brincadeira ser segura e diz que sempre faz recomendações a seus clientes, que são de todas as idades, "de mamando a caducando", diz. “Com a experiência que tenho, recomendo que as pessoas que são amantes da pipa procurem um lugar adequado, longe de redes elétricas, vias públicas e um lugar que seja afastado dos grandes centros”, ressalta. 

Segundo o pipeiro, grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro lutam para que seja construído um Pipódromo, uma luta que também já existe em Cuiabá. 

Não é possível pensar as brincadeiras tradicionais e as tecnológicas somente pelo prisma bem versus mal

George Moraes de Luiz

O psicólogo George Moraes de Luiz diz que é válido lembrar que as tradicionais brincadeiras de rua rompem a barreira da individualidade. Ele pontua que a atividade permite a socialização das crianças por meio da linguagem e do trabalho coletivo e, assim, favorece o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social.

Ao mesmo tempo, o profissional destaca que as famílias estão vivendo novos tempos. “O cenário é propício para mudanças culturais, agora pautadas na falta de espaço adequado para a prática lúdica. Há também o receio dos pais em expor seus filhos a ambientes externos, supostamente arriscados, seja pela ameaça de assaltos, seja pela incompatibilidade entre as brincadeiras, pelos espaços cortados por fiações elétricas ou a intensa circulação de carros”, comenta. 

Ele ainda considera que a sociedade deve pensar a relação entre as brincadeiras tradicionais, incluindo a de soltar pipas, com as de cunho tecnológico, como os joguinhos eletrônicos, de forma situacional. “Não é possível pensar as brincadeiras tradicionais e as tecnológicas somente pelo prisma bem versus mal", diz. 

Para o psicólogo, é preciso compreender como é possível criar mecanismos de resistência para manter as brincadeiras tradicionais uma vez comprovados, cientificamente, os seus benefícios. Ele se refere ao contexto histórico-cultural também tensionado pela necessidade da preservação, memória e da cultura, em um país que pretende estar na vanguarda em inovação e tecnologia. "E assim manter as duas, preservar a tradicional, mas aproveitar as coisas positivas dessas ferramentas (virtuais)”, comenta.

E entrar nessa brincadeira, é fácil. O Zé da Pipa mostra, em 5 passos, como montar sua primeira pipa. Ele produz em grande quantidade e usa um suporte de madeira para apoiar os materiais. Mas dá para fazer em casa, com os materiais sobre uma mesa ou mesmo, com a criançada sentada no chão.

 

Galeria: Passo a passo da pipa

 

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Comentários (1)

  • Marcelo Cotta Lopes | Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2019, 13h47
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    Parabéns pelo seu trabalho Sr José Butakka, sou um apaixonado por pipas, tenho 53 anos e estou com uma pequena produção em casa, sou de Sete Lagoas - MG. Grande abraço e sucesso !!! Marcelo Cotta Lopes

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