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Mariana Bonjour Sexta-feira, 12 de Junho de 2026, 08:25 - A | A

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Mariana Bonjour

Explicar demais pode ser o caminho mais curto para a incompreensão

Mariana Bonjour

Rodinei Crescêncio/Rdnews

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Existe uma tendência cada vez mais comum na comunicação política contemporânea: a crença de que toda crítica deve ser respondida, toda decisão deve ser detalhada e toda ação precisa ser exaustivamente explicada. É como se o convencimento fosse resultado direto do volume de informações disponibilizadas ao eleitor. Quanto mais argumentos, mais compreensão. Quanto mais contexto, mais apoio. Quanto mais explicações, mais confiança.

Na prática, porém, a realidade costuma seguir outro caminho.

A política é uma atividade complexa. A gestão pública é complexa. A elaboração de políticas públicas é complexa. Mas a decisão do eleitor precisa ser simples. Não porque o cidadão seja incapaz de compreender questões sofisticadas, mas porque o voto não é um processo técnico. É uma decisão humana. E toda decisão humana depende, antes de qualquer coisa, de clareza.

Quando um eleitor escolhe um candidato, ele não está avaliando apenas dados, indicadores, justificativas administrativas ou relatórios de gestão. Ele está tentando responder perguntas muito mais básicas: quem é essa liderança? O que ela representa? Ela compreende os problemas que me afetam? Posso confiar nela?

A comunicação política frequentemente fracassa porque responde perguntas que o eleitor não está fazendo enquanto ignora aquelas que realmente determinam a decisão.

Isso acontece porque existe uma diferença importante entre informar e comunicar. Informar é transmitir dados. Comunicar é produzir compreensão. Um governo pode divulgar dezenas de números, centenas de ações e milhares de páginas de prestação de contas sem conseguir construir uma percepção clara sobre aquilo que representa. Da mesma forma, um mandato pode trabalhar intensamente e ainda assim não ocupar nenhum espaço relevante na mente do eleitor.

Quando um eleitor escolhe um candidato ...Ele está tentando responder perguntas muito mais básicas: quem é essa liderança? O que ela representa? Ela compreende os problemas que me afetam? Posso confiar nela?

O problema não está necessariamente na ausência de fatos. Muitas vezes está no excesso deles.

Em um ambiente marcado pela sobrecarga de informação, acumular argumentos não gera clareza. Frequentemente gera o contrário. Quanto mais uma mensagem exige esforço para ser compreendida, menor tende a ser sua capacidade de produzir entendimento. E entendimento é a matéria-prima de qualquer decisão.

Talvez por isso uma das frases mais repetidas nos bastidores da política seja também uma das mais perigosas: “se as pessoas soubessem tudo o que fazemos, pensariam diferente”.

Talvez não.

Talvez o problema não seja o quanto as pessoas sabem. Talvez seja o quanto conseguem compreender.

O eleitor não acompanha reuniões internas, não participa das discussões técnicas e não conhece os obstáculos burocráticos enfrentados diariamente por quem ocupa um cargo público. Sua experiência com a política acontece a partir daquilo que consegue perceber no próprio cotidiano.

Enquanto a gestão enxerga processos, o cidadão enxerga consequências. Enquanto o governo fala sobre execução, o eleitor avalia impacto. Por isso, a comunicação mais eficiente raramente é a que explica tudo. É a que torna compreensível aquilo que realmente importa.

Isso não significa simplificar a realidade de forma irresponsável, significa traduzir complexidade sem transferir complexidade. Um médico competente consegue explicar um diagnóstico difícil de forma acessível. Um professor competente consegue ensinar um conceito sofisticado de maneira compreensível. Da mesma forma, uma liderança política precisa ser capaz de transformar decisões complexas em mensagens claras.

Aliás, existe um sinal que merece atenção. Quanto mais uma liderança sente necessidade de explicar constantemente quem é, o que pensa e por que toma determinadas decisões, maior a possibilidade de existir um problema de posicionamento. Porque posicionamentos fortes reduzem a necessidade de explicação. Quando o eleitor entende claramente o que uma liderança representa, muitas decisões passam a fazer sentido antes mesmo de serem justificadas.

A confiança funciona dessa forma. Ela não nasce quando compreendemos todos os detalhes de alguém, ela nasce quando conseguimos prever seu comportamento. Quanto mais clara é uma liderança sobre seus valores, prioridades e causas, menos energia o eleitor precisa gastar tentando decifrá-la.

O contrário também é verdadeiro. Quando tudo exige longas justificativas, quando cada posicionamento depende de uma extensa contextualização e quando nenhuma decisão parece coerente com uma identidade facilmente reconhecível, a comunicação passa a operar em modo defensivo. Em vez de construir significado, passa a correr atrás dele.

Na política, isso tem consequências importantes. O excesso de explicação geralmente surge da tentativa de eliminar dúvidas. Mas muitas vezes produz exatamente o efeito oposto. O eleitor não sai mais convencido, sai mais confuso. E a confusão raramente gera apoio. Na maioria das vezes, gera distanciamento.

A história da comunicação política mostra que as lideranças mais fortes não foram necessariamente aquelas que apresentaram os argumentos mais extensos, foram aquelas que conseguiram ocupar um território mental claro na percepção das pessoas. O eleitor podia concordar ou discordar delas, mas compreendia rapidamente o que representavam.

E essa talvez seja uma das maiores lições para a política contemporânea. A disputa não acontece apenas por atenção, acontece por compreensão. Não vence quem produz mais conteúdo, quem apresenta mais justificativas ou quem consegue falar por mais tempo. Vence quem consegue ser entendido.

Porque, no fim das contas, o objetivo da comunicação política nunca foi explicar tudo. O objetivo sempre foi tornar possível uma decisão. E decisão exige confiança. Confiança exige compreensão. E compreensão exige clareza.

Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

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