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Mariana Bonjour Sexta-feira, 22 de Maio de 2026, 05:00 - A | A

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Mariana Bonjour

IA em alta, mas ainda existe função insubstituível: coordenar pessoas

Mariana Bonjour

Rodinei Crescêncio/Rdnews

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A Inteligência Artificial deixou de ser assunto de filme para se tornar rotina. Hoje, ela escreve textos, cria imagens, monta apresentações, faz análises complexas, organiza agendas, interpreta dados e produz conteúdos em uma velocidade impressionante.

Na comunicação política, especialmente, a transformação já começou. Ferramentas de IA ajudam equipes a identificar tendências, criar segmentações, produzir peças para redes sociais, analisar sentimentos, organizar bancos de dados e até sugerir estratégias.

A sensação, muitas vezes, é que estamos entrando numa era em que quase tudo poderá ser automatizado. E talvez seja justamente nesse ponto que surge uma pergunta importante: em um mundo em que máquinas fazem cada vez mais coisas, o que continuará sendo exclusivamente humano?

Minha hipótese é simples: coordenar pessoas. E isso muda tudo.

O fascínio pela tecnologia e a ilusão da substituição

A cada nova ferramenta lançada, surge o mesmo discurso: “agora a IA vai substituir determinada profissão”. Já disseram isso sobre redatores, designers, advogados, professores, analistas e estrategistas.

Na política, ouvimos versões parecidas:

 

  • “Agora a campanha será totalmente automatizada.”

  • “Os dados decidirão tudo.”

  • “O algoritmo fará o trabalho.”

Mas existe um erro nessa lógica: ela parte da ideia de que política é apenas uma soma de tarefas operacionais — e política nunca foi isso.

Política é, acima de qualquer coisa, coordenação humana. É alinhar interesses. É organizar vontades. É construir confiança. É fazer pessoas caminharem na mesma direção. E essa talvez seja uma das atividades mais sofisticadas que existem.

Campanhas não fracassam por falta de tecnologia

Ao longo dos anos trabalhando com comunicação política, percebi algo curioso.

Raramente uma campanha enfrenta dificuldades porque faltou ferramenta. Quase nunca o problema está no software, no aplicativo ou na tecnologia.

As campanhas geralmente enfrentam problemas por razões muito mais humanas: uma equipe que não conversa, conflitos internos, disputa por espaço, ego, ruídos de comunicação, falta de clareza sobre objetivos, desmotivação, lideranças desalinhadas, pessoas cansadas, ansiedade e expectativas frustradas.

Porque uma campanha eleitoral, um mandato ou uma gestão pública não funcionam como máquinas. Funcionam como organismos vivos — e organismos vivos são feitos de pessoas.

A maior gestão não é de processos. É de emoções.

Há uma diferença enorme entre administrar tarefas e coordenar seres humanos. Uma planilha pode organizar atividades. Um software pode distribuir funções. A Inteligência Artificial pode sugerir prioridades.

As campanhas geralmente enfrentam problemas por razões muito mais humanas: uma equipe que não conversa, conflitos internos, disputa por espaço, ego, ruídos de comunicação, falta de clareza sobre objetivos, desmotivação, lideranças desalinhadas...

Mas existe uma camada invisível que sustenta qualquer equipe: as emoções. Quem lidera equipes sabe disso.

Há dias em que a pauta está perfeita, os dados são positivos e o planejamento está pronto, mas o ambiente não funciona. Algo mudou. A energia mudou. O clima mudou. E nenhuma tecnologia consegue explicar totalmente isso.

Isso porque liderar exige leitura humana. Exige perceber sinais que não aparecem em dashboards: o silêncio de alguém, a mudança de comportamento, o desânimo escondido atrás de uma resposta automática, a tensão de uma reunião, o olhar de quem está perdendo motivação.

Existe uma inteligência que não aparece em relatórios: a inteligência emocional.

A política sempre foi sobre pessoas

Às vezes falamos de marketing político como se fosse apenas alcance, curtidas, vídeos e algoritmos. Mas basta olhar para a história.

As grandes lideranças não mobilizaram pessoas porque tinham tecnologia. Mobilizaram porque tinham capacidade de conexão, narrativa, propósito, leitura humana e capacidade de fazer pessoas acreditarem. E acreditar não é um processo lógico; é emocional.

Campanhas não vencem porque produziram mais conteúdo. Nem porque postaram mais. Nem porque tinham mais ferramentas.

Campanhas vencem porque alguém conseguiu construir sentido coletivo, porque alguém transformou uma proposta em pertencimento.

Dados identificam padrões. Pessoas identificam sentimentos

Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre inteligência artificial e inteligência humana.

A IA trabalha com padrões. Ela identifica comportamentos repetidos, reconhece tendências, aponta probabilidades e sugere caminhos.

Mas seres humanos percebem nuances, contradições, contextos e aquilo que nem sempre é dito. E política é, muitas vezes, interpretar justamente aquilo que não foi falado.

Um eleitor raramente explica exatamente por que mudou de opinião. Uma equipe nem sempre verbaliza seus conflitos. Uma liderança não revela todas as inseguranças.

E é justamente nessa zona invisível que acontece a coordenação humana.

O futuro talvez não pertença a quem domina ferramentas

Existe uma ansiedade coletiva sobre o futuro.

Muitos profissionais se perguntam:
“Como competir com a Inteligência Artificial?”

Talvez a pergunta esteja errada.

Talvez o desafio não seja competir, mas desenvolver aquilo que ela não consegue reproduzir: capacidade de escuta, empatia, leitura de ambiente, construção de confiança, influência, liderança e coordenação.

Porque, enquanto máquinas aprendem a executar tarefas humanas, os humanos precisarão aprender a fazer melhor aquilo que sempre foi exclusivamente humano.

O novo diferencial competitivo

Durante muito tempo, conhecimento técnico foi o grande diferencial. Depois, veio a era da informação. Agora estamos entrando numa era em que informação virou abundância.

Quase todos terão acesso às mesmas ferramentas, às mesmas tecnologias e aos mesmos recursos.

O diferencial mudará de lugar. E talvez ele esteja justamente naquilo que não se automatiza: a capacidade de reunir pessoas em torno de uma visão, gerar pertencimento, inspirar e liderar.

As ferramentas aumentam produtividade, mas não criam confiança.

Automação gera velocidade, mas não produz conexão.

Tecnologia organiza processos, mas não substitui presença.

A função mais humana continuará sendo a mais estratégica

A Inteligência Artificial continuará evoluindo, provavelmente muito mais rápido do que imaginamos, e fará coisas que hoje parecem impossíveis. Mudará profissões, estruturas e campanhas.

Mas existe uma função que continuará central: gente conduzindo gente.

E talvez a ironia seja essa: quanto mais tecnológico o mundo se tornar, mais valiosas serão as habilidades profundamente humanas.

Porque, no fim, campanhas, governos e lideranças continuam sendo feitos por pessoas — e pessoas ainda precisam ser compreendidas, inspiradas e coordenadas por outras pessoas.

Na política, isso não é detalhe. É estratégia. 

Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

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Wilson Pereira 22/05/2026

Mariana, acompanho suas reflexões; esta, a meu ver, foi a melhor de todas, a presença insubstituível do humano, humanamente humano. Parabéns!

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1 comentários

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