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Mariana Bonjour Sexta-feira, 29 de Maio de 2026, 08:37 - A | A

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Mariana Bonjour

Ou você muda o ambiente, ou o ambiente muda você

Mariana Bonjour

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Mariana Bonjour arte interna coluna vale esta

 

Durante muito tempo, acreditou-se que mudança de comportamento era apenas uma questão de decisão pessoal. Como se bastasse alguém acordar motivado em uma segunda-feira e decidir: “Agora vou agir diferente.” “Agora vou me comunicar melhor.” “Agora vou ser mais estratégico.”

Mas a realidade é muito mais complexa. A verdade é que comportamento não nasce isoladamente. Ele é construído, reforçado e condicionado pelo ambiente.

E isso explica por que tantas lideranças entram na política cheias de propósito e, com o tempo, passam a reproduzir exatamente os mesmos comportamentos que antes criticavam.

O ambiente molda, o ambiente condiciona, o ambiente puxa. E, se a pessoa não percebe isso a tempo, o ambiente a engole.

 O cérebro humano aprende por espelhamento

Existe um conceito da neurociência chamado neurônio-espelho, responsável por um fenômeno muito poderoso: o cérebro humano aprende observando.

Nós espelhamos comportamentos o tempo todo.

Espelhamos:

  • linguagem;

  • postura;

  • tom de voz;

  • prioridades;

  • formas de reagir;

  • hábitos;

  • crenças;

  • padrões emocionais;

  • até níveis de ambição.

O ser humano é altamente influenciável pelo meio em que convive diariamente. É por isso que ambientes têm tanto poder sobre as pessoas.

Um ambiente organizado tende a produzir pessoas mais organizadas, um ambiente agressivo tende a gerar pessoas mais agressivas, um ambiente estratégico tende a elevar o nível estratégico de quem está ali, um ambiente acomodado faz o extraordinário parecer exagero.

Na política, isso acontece o tempo inteiro.

A política também é um ambiente de repetição comportamental

Poucos ambientes reforçam tanto padrões quanto a política. Porque a política possui cultura própria, linguagem própria, vícios próprios e incentivos próprios.

E, muitas vezes, quem entra querendo inovar acaba sendo lentamente condicionado a repetir o modelo dominante.

É comum vermos líderes que começaram defendendo renovação, proximidade com as pessoas e comunicação verdadeira… e, alguns anos depois, se tornaram exatamente aquilo que criticavam.

Não necessariamente por maldade, mas porque o ambiente tem força.

O cérebro busca pertencimento. E, para pertencer, ele aprende a se adaptar ao grupo.

Se todos ao redor normalizam:

  • improviso;

  • ausência de planejamento;

  • comunicação superficial;

  • ego inflado;

  • bajulação;

  • decisões emocionais;

  • falta de estudo;

  • acomodação;

  • política baseada apenas em vaidade…

aquilo começa a parecer normal. A régua desce sem que as pessoas percebam.

 O ambiente cria permissões invisíveis

Talvez uma das maiores forças do ambiente seja essa: ele redefine silenciosamente o que parece aceitável.

Em um ambiente medíocre:

  • estudar demais parece exagero;

  • planejar parece burocracia;

  • estratégia parece frescura;

  • profissionalismo parece frieza;

  • comunicação intencional parece artificial.

Já em ambientes de alta performance, acontece o contrário. Disciplina vira o normal, planejamento vira rotina, resultado vira cobrança natural, estudo vira obrigação, excelência deixa de ser diferencial e passa a ser expectativa.

É por isso que algumas pessoas evoluem absurdamente quando mudam de ambiente. Não porque magicamente ficaram mais inteligentes, mas porque passaram a viver em um lugar que reforça comportamentos diferentes.

Não existe mudança de comportamento sem mudança estrutural

Essa talvez seja uma das maiores ilusões da comunicação política moderna.

Muitos políticos dizem querer:

  • comunicação inovadora;

  • posicionamento forte;

  • mandato estratégico;

  • presença digital relevante;

  • conexão real com as pessoas.

Mas continuam cercados pelas mesmas práticas, pelas mesmas pessoas e pelos mesmos ambientes que sustentam exatamente o modelo antigo.

Querem mudança sem mudar o ecossistema que produz o comportamento atual. E isso raramente funciona, porque comportamento não se sustenta apenas na intenção. Ele se sustenta na repetição e a repetição é determinada pelo ambiente.

O ambiente pode acelerar ou destruir lideranças

Na prática, existem ambientes que:

  • impulsionam crescimento;

  • aumentam visão;

  • fortalecem disciplina;

  • elevam repertório;

  • estimulam responsabilidade;

  • melhoram comunicação;

  • ampliam capacidade estratégica.

 E existem ambientes que:

  • drenam energia;

  • estimulam mediocridade;

  • reforçam vícios;

  • premiam superficialidade;

  • sufocam inovação;

  • punem quem tenta evoluir.

Na política, isso é ainda mais perigoso porque o ambiente institucional tem enorme poder de absorção.

Muitas lideranças deixam de crescer porque vivem cercadas por pessoas que só reforçam conforto e vaidade.

Não existe evolução em ambientes onde ninguém pode ser contrariado.

A comunicação política é reflexo do ambiente interno

Existe algo muito revelador: a comunicação externa de um mandato quase sempre denuncia o ambiente interno daquela equipe.

Mandatos desorganizados comunicam desorganização. Equipes sem direção produzem comunicação sem identidade. Ambientes superficiais geram conteúdos superficiais. Lideranças inseguras produzem comunicação defensiva. Equipes sem cultura estratégica vivem apenas reagindo.

A comunicação nunca é apenas estética, ela é consequência da cultura daquele ambiente. Por isso, melhorar comunicação política não é apenas postar melhor, é melhorar o ambiente que produz aquela comunicação.

Às vezes, crescer exige sair do ambiente

E essa talvez seja a parte mais difícil.

Porque ambientes não prendem apenas pela lógica, prendem pelo emocional, pelo hábito, pelo pertencimento., pelo medo de desagradar, pelo conforto do conhecido.

Mas existe uma verdade dura: Você dificilmente crescerá em um ambiente comprometido em manter tudo exatamente igual.

Às vezes, mudar o ambiente significa:

  • trocar pessoas;

  • mudar rotina;

  • profissionalizar processos;

  • criar novas referências;

  • parar de aceitar padrões baixos;

  • sair de círculos que reforçam mediocridade.

Porque o ambiente sempre tenta puxar você de volta para o padrão dominante.

A grande pergunta

Talvez toda liderança política devesse se perguntar: O ambiente em que estou hoje fortalece a liderança que desejo me tornar ou me condiciona a permanecer igual?

Nós quase nunca nos tornamos aquilo que desejamos, nos tornamos aquilo que repetimos diariamente. E repetimos, quase sempre, aquilo que o ambiente reforça.

Na política, e na vida, o ambiente tem força demais para ser ignorado.

Por isso, existe uma verdade inevitável: Ou você muda o ambiente.
Ou o ambiente muda você.

Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

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