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Mariana Bonjour Sexta-feira, 03 de Julho de 2026, 08:34 - A | A

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Mariana Bonjour

Percepção não se declara. Se constrói

Mariana Bonjour

Rodinei Crescêncio/Rdnews

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Existe uma frase que eu gosto de repetir quando falo sobre comunicação política: você não cria percepção dizendo quem você é, você cria percepção fazendo as pessoas concluírem quem você é.

Parece apenas um jogo de palavras, mas essa diferença muda completamente a forma como enxergamos a comunicação.

Ainda é muito comum ver políticos tentando convencer o eleitor por meio de afirmações. Dizem que são honestos, preparados, trabalhadores, defensores de determinada causa ou próximos das pessoas. Mas, na prática, quase ninguém forma uma opinião porque ouviu alguém falar bem de si mesmo.

Nós formamos opiniões observando comportamentos. É assim na vida e também na política.

Os projetos que um parlamentar escolhe apresentar comunicam. As pautas que decide defender comunicam. Os lugares onde escolhe estar comunicam

Quando conhecemos uma pessoa, não confiamos nela porque ela disse que era confiável. Confiamos porque ela cumpriu o que prometeu, manteve uma postura coerente, repetiu determinadas atitudes e, com o tempo, nos deu motivos para acreditar nela.

Na política acontece exatamente a mesma coisa. O eleitor não acredita no que o político fala sobre si. Ele acredita naquilo que consegue comprovar observando seus padrões de comportamento.

É por isso que eu costumo dizer que percepção não se pede, não se declara e não se impõe. Ela se constrói. E essa construção não acontece por acaso. Ela depende de método.

Quando falamos em comunicação política, muita gente ainda pensa apenas nas redes sociais, nos vídeos ou nas campanhas publicitárias, mas a comunicação começa muito antes de qualquer postagem. Cada decisão comunica.

Os projetos que um parlamentar escolhe apresentar comunicam. As pautas que decide defender comunicam. Os lugares onde escolhe estar comunicam. O silêncio diante de determinados assuntos também comunica. Até aquilo que um político escolhe não fazer ajuda a construir a percepção que as pessoas terão sobre ele.

A diferença é que o eleitor não costuma analisar cada fato isoladamente. Ele observa o conjunto.

É como se fosse montando um quebra-cabeça. Cada ação representa uma peça. Sozinha, ela talvez não diga muita coisa. Mas, quando várias peças apontam para a mesma direção, surge uma imagem clara.

É justamente dessa repetição que nasce a percepção.

Se um parlamentar fala sobre segurança pública uma única vez, isso dificilmente fará alguém enxergá-lo como referência no tema. Mas se ele apresenta projetos, participa dos debates, acompanha operações, cobra resultados, visita as forças de segurança e mantém esse posicionamento ao longo dos anos, a conclusão passa a ser natural. Não porque ele disse que essa era sua bandeira, mas porque suas atitudes mostraram isso repetidamente.

O mesmo vale para qualquer outra área.

Não é um discurso que faz alguém ser reconhecido como defensor da educação, da saúde, do agro ou das mulheres. É a consistência entre aquilo que faz, aquilo que prioriza e aquilo que comunica.

E é justamente aí que entra o verdadeiro papel da comunicação.

Muita gente acredita que comunicar é convencer. Eu penso diferente. A boa comunicação não serve para inventar uma realidade. Ela serve para organizar essa realidade. Ela conecta ações que muitas vezes aparecem de forma isolada, explica decisões, reforça prioridades e ajuda o eleitor a entender qual é a lógica por trás daquele mandato.

Sem isso, até um bom trabalho pode passar despercebido.

Quantas vezes vemos gestores realizando entregas importantes, mas sem conseguir construir uma identidade clara? O problema, muitas vezes, não é falta de trabalho. É falta de coerência na comunicação.

Ao mesmo tempo, também vemos quem tenta compensar a ausência de resultados com excesso de discurso. E isso costuma funcionar por pouco tempo.

Hoje, o eleitor está muito mais atento às incoerências. Se alguém fala que defende uma causa, mas suas atitudes mostram outra coisa, a comunicação perde força.

Se promete proximidade, mas aparece apenas em época de eleição, essa percepção também se forma.

No fim das contas, as pessoas acreditam muito mais no que você repete fazendo do que no que você repete dizendo.

Por isso, talvez a pergunta mais importante para quem atua na política não seja "o que eu quero que as pessoas pensem sobre mim?", mas sim "o que minhas atitudes têm levado as pessoas a concluir sobre mim?".

Essa resposta vale muito mais do que qualquer slogan, porque percepção não nasce de uma frase de efeito, nem de uma campanha bem produzida. Ela nasce da soma de pequenas evidências, observadas ao longo do tempo.

A comunicação entra justamente para dar sentido a essas evidências, reforçar os padrões corretos e evitar que o eleitor precise preencher sozinho as lacunas da história.

No final, comunicar bem nunca foi sobre dizer quem você é.

É sobre agir de forma tão consistente que as pessoas cheguem a essa conclusão sem que você precise dizer uma única palavra.

 Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

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