Arte e Cultura

Sexta-Feira, 06 de Abril de 2018, 08h:19 | Atualizado: 07/04/2018, 08h:07

Arte

Habel é apaixonado por Cuiabá, ícone da viola de cocho e guarda museu em casa

Gilberto Leite

Habel Dy Anjos

Habel Dy Anjos é um apaixonado pela cultura cuiabana, especialmente a viola de cocho

Em 1987 mudou-se de mala e cuia para a Baixada Cuiabana, um mineiro, pau rodado e, desta vez, recém-chegado da vida movimentada em São Paulo. Abel Santos Anjos Filho, conhecido como Habel Dy Anjos, buscava tranquilidade e se tornou, por vários motivos, uma figura carimbada da cultura mato-grossense. O principal deles é a dedicação pela viola de cocho. Em 1997, ele a apresentou em um concerto-palestra na abertura da temporada de Primavera em Paris e entregou o instrumento ao Musée de L’Homme em nome do povo brasileiro.

Como pesquisador, também recebeu uma bolsa de investigação científica através da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e realizou trabalhos de pesquisa sobre a viola-de-cocho, cujo teor histórico e musical foi documentado no livro digitalizado intitulado Uma Melodia Histórica e publicado em 2002. Além do seu visível xodó pelo instrumento, tem outras curiosas atividades que permeiam entre o mundo das artes e antiguidades.

Enquanto a reportagem atravessou a sala da casa de Habel, a sensação era de estar numa máquina do tempo. São vitrolas, gramofones, relógio de cuco e outros elementos guardados há décadas. No canto de uma das paredes, dentro de uma redoma de vidro, um possível rabab e outros similares (instrumentos Árabes que possuem de uma a duas cordas), com mais de trezentos anos - que lembram, à primeira vista, o símbolo regional. “São como cochinhos árabes, medievais. Quando cheguei aqui e vi pela primeira vez a viola de cocho, logo pensei, tudo que sempre estudei nos livros está aqui e vivo”, disse entusiasmado.

O também concertista, professor da UFMT, escritor, produtor e arranjador musical de mais de vinte cd’s, restaurador de móveis e antiguidades, manuseou suas relíquias - boa parte instrumentos musicais - enquanto contou parte sua trajetória ao .

Quando cheguei aqui e vi pela primeira vez a viola de cocho, logo pensei, tudo que sempre estudei nos livros está aqui e vivo

Ele confessa ser um dos maiores frequentadores do aterro e ressalta o bordão ecológico “lixo é luxo”, por se considerar um caçador de tesouros por onde passa. “Desenvolvi esse olhar minucioso para o que é descartado, mas tem seu valor. Este sofá mesmo que você está sentada foi encontrado no lixão e eu restaurei. É de uma madeira excelente que não se faz mais e, por isso, aguentou tanto tempo de chuva e sol”, disse, ao lembrar que herdou do pai a aptidão por coisas antigas.

Habel, antes de se mudar para a Capital, foi alertado que a cidade só tinha duas estações, verão e a da rodoviária. Mas, quando chegou, fazia 4° C. “Foi aí que conheci o calor humano, tive que emprestar roupas. Me lembro que cheguei por volta das 5h da manhã, o dia ainda estava clareando e me levaram para comer uma peixada no Porto. Quando avistei um cuiabano dentro de uma canoa rasa e fina, tirava um peixe do rio que era quase da altura dele”.

Ele não sabia, mas o que o pescador tirava da água era um pintado. “Eu fiquei assustado com o tamanho daquele peixe e tropecei em uma pedra que tinha olhos. Eu não sabia que pedra tinha olhos, foi quando me disseram que não era uma pedra e, sim uma cabeça de Jaú”, contando aos risos.

Há 30 anos, o mineiro coleciona causos e diz que se apaixonou pela simplicidade do povo cuiabano. “Eu como professor de história também trabalho com história da música. Comecei a perceber nos símbolos, na cultura e no linguajar cuiabano as coisas que só percebia nos livros e, ao lembrar de Lusíadas de Camões, notei que essa terra é diferente, as pessoas falam também uma língua preservada”.

Galeria: Máquina do tempo de Habel

Segundo o professor, o cururu funcionou em um época em que não haviam veículos de comunicação em Mato Grosso. Então, quem cantava e tocava cururu também o usava para contar os fatos e alguns ficavam enciumados pelo fato de outros músicos cantarem suas criações. Foi ai que começaram a cantar de forma mais rápida. “Hoje existem algumas pessoas que falam: o cururueiro canta e a gente não entende nada. O engraçado é que quando perguntamos para eles, se eles falam tão bem, porque não cantam de forma mais clara e eles nos respondem:iá, eu fazia a minha troada e noutro dia tinha arguém que tava cantando como se fosse dele, ieu não quero que eles aprendam meu letra não (sic)”, explicou.

Alvo de críticas boas e ruins, o professor explica que tem respeito pelos mais antigos e se diz apaixonado pela cultura cuiabana e mato-grossense. “Quando o pessoal da universidade ou outras pessoas me chamam para falar da viola, eu nunca mostro as minhas músicas, mostro as das pessoas daqui. Penso que me confiaram esse instrumento, vejo que a responsabilidade de se fazer uma música, uma letra, que possa trazer alguma coisa para a cultura”.

Casa

Na sala, além de cadeiras e sofás antigos restaurados, ele tem uma espécie de altar símbolos de todas as religiões, além de mais instrumentos musicais. “Tenho um amigo que é um artesão e recria instrumentos milenares para mim, o Paulo. Ele pega meus livros antigos de história e fotografias de museus e recria. Com isso, a gente pode dar uma aula melhor para os alunos, para mostrar como eram as filas ou as fibras deles”, diz ao tocar um antigo, com escala pentatônica que é de séculos antes de Cristo.

Ao lado desta sala, fica uma cozinha onde ele acendeu o chama em um fogão com pouco mais de 80 anos e aqueceu a água para um café. Alguns passos à frente, abriu uma porta e exibiu uma sala com mais antiguidades, entre elas, instrumentos de sopro, chocalhos indígenas, fitas cassetes, cd’s e gravadores. Pegou alguns deles e arriscou sons. “Este chocalho aqui era de um Pajé, ganhei de presente. Eu estava com problemas de renite e ele me disse que levaria um presente que me curaria, dentro dele tem algumas ervas medicinais e ele, quando me entregou, me ensinou a movimentar próximo ao rosto. Acho interessante esta sabedoria popular”, disse ao apontar para mais paredes e dizer que coleciona objetos de todas as culturas, do mundo todo.

Após apresentar quase todos os cômodos, a equipe desceu os degraus e foi apresentada a sua oficina na parte dos fundos da casa, retornou à entrada e, antes que saísse, recebeu uma cópia do último livro publicado por ele: Fotossíntese Cantos e Contos de um Lugar. “Nunca esquecer de conjugar o verbo ser e amar”, diz a dedicatória que define sua essência.

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Comentários (3)

  • Vitória | Domingo, 08 de Abril de 2018, 18h04
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    Fui aluna do professor Habel por pouco tempo. A sua cultura, erudição, conhecimento histórico e musical acrescentaram muito no meu saber. Fiquei profundamente marcada pelo seu jeito simples, humilde, engraçado e sem preconceitos. Figura ímpar. Merece reconhecimento.

  • dauzanades | Domingo, 08 de Abril de 2018, 17h09
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    Luciana, dizem isso porque nem eles sabem de onde vieram... Esta conversa de pau rodado e para eles mesmo que até hoje não sabem suas origens. Mas o fato é que se não fosse os "paus rodados" Cuiabá ainda teria telhado de capim e o povo usava tanga e a comunicação seria tambor.

  • Luciana | Sexta-Feira, 06 de Abril de 2018, 08h55
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    Todos falam que amam Cuiaba e depois nasci em SP,MG,PR isso é otimo,agora fala que nasceu aqui o povo torce o nariz...sofro esse tipo de preconceito todos os dias,meus pais de SP,eu nascida em Cuiaba e ainda falam: nao é bem cuiabana...affe...e tenho que ouvir que sou preguicosa. Falam do sotaque que é carregado,nada a ver, sotaque é regionalismo, fazem rodinha pra falar mal de cuiabano.Nao tenho nada para comemorar.A cidade precisa desenvolver e ser moderna,precisa de vias largas e obras que se concretizem e nao precisa ficar consertando todo mes.Ponto de onibus nos bairos para a populacao que paga diariamente o transporte publico que é um lixo,so sucata.Ainda tenho esperanca de uma cidade melhor...Em relacao a reportagem muito legal.

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